
Nas trincheiras invisíveis dos conflitos modernos, a arma mais letal transcende o projétil ou o míssil: é a informação projetada para invadir, reprogramar e dominar a mente humana. As Operações Psicológicas (PsyOps) e a Guerra Cognitiva (CogWar) emergem como pilares dessa nova era bélica, onde o domínio cognitivo suplanta o territorial como fator decisivo de vitória.
Enquanto as PsyOps buscam influenciar comportamentos específicos para apoiar objetivos operacionais imediatos, a CogWar visa alterar a própria estrutura neural do pensamento, transformando indivíduos em vetores involuntários de desestabilização social e política (OTAN, 2022; HYBRID COE, 2021; Nascimento, 2023).
Para compreender essa distinção fundamental, é essencial revisitar as raízes históricas. As PsyOps surgiram formalmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando o Exército dos EUA as definiu como "operações planejadas, voltadas a países, organizações e indivíduos estrangeiros, com o intuito de gerar emoções, posturas, entendimentos, crenças e comportamentos favoráveis à consecução dos objetivos políticos e militares" (Cowan; Cook, 2018).
Elas representam uma atividade ampla, aplicável tanto em tempos de paz quanto de guerra, moldando percepções de forma gradual e estratégica por meio de propaganda tradicional – folhetos, transmissões de rádio, cartazes e, mais recentemente, campanhas digitais (Idca Tedra, 2024).
Em contraste, a guerra psicológica – frequentemente confundida com PsyOps – restringe-se a contextos de conflito armado, atuando de maneira agressiva para minar a moral inimiga no campo de batalha.
"As operações psicológicas visam influenciar comportamentos e atitudes de forma gradual [...], enquanto a guerra psicológica é uma tática que visa diretamente minar a moral e a capacidade de resistência de um inimigo" (Idca Tedra, 2024).
Essa delimitação doutrinária é crucial, pois as PsyOps integram-se às Operações de Informação, sincronizando-se com inteligência, cibernética e ações cinéticas para efeitos integrados (ABIN, 2023).
A Guerra Cognitiva eleva esse paradigma a um patamar inédito, posicionando o cérebro humano como o "sexto domínio operacional" – ao lado de terra, mar, ar, espaço e ciberespaço.
Definida como "o uso deliberado de meios psicológicos, informacionais e tecnológicos para influenciar ou perturbar os processos mentais de indivíduos e grupos" (Claverie; Du Cluzel apud Deppe; Schaal, 2024), a CogWar não se contenta em manipular emoções passageiras; ela ataca a cognição em si – percepção, memória, julgamento e tomada de decisão.
Seu objetivo é degradar o ciclo OODA (Observação-Orientação-Decisão-Ação), paralisando a capacidade racional do adversário (Nascimento, 2023; Amor, 2025). Essa sofisticação decorre da convergência tecnológica: big data, IA generativa, neuromarketing e neurociência comportamental que permitem ataques precisos.
Diferentemente das PsyOps, limitadas a narrativas superficiais, a CogWar opera em dois eixos: direto (armas neurais, psicotrópicos ou dispositivos que alteram sinapses fisicamente) e indireto (sobrecarga informacional, deepfakes, câmaras de eco que exploram vieses cognitivos como confirmação e ancoragem) (ABIN, 2023; Zanin; Ambrosio, 2023). "A guerra cognitiva é constituída de atributos que a diferem da guerra cibernética, que tem como alvo prioritário a infraestrutura cibernética" (ABIN, 2023, p. 5).
Na prática, técnicas compartilhadas, mas ampliadas revelam a transição. O gaslighting – induzir dúvida na própria sanidade – evolui de panfletos das PsyOps para campanhas virais personalizadas via algoritmos. Facções criminosas no Brasil exemplificam isso: usam propaganda emocional para gerar medo, raiva e submissão, explorando vulnerabilidades como isolamento e depressão com deepfakes e mensagens IA-personalizadas (Deppe; Schaal, 2024; Wilbur, 2025).
No ambiente acadêmico, a CogWar inclui "atividades conduzidas em sincronização com outros Instrumentos de Poder, para afetar atitudes e comportamentos, influenciando, protegendo ou interrompendo a cognição individual, grupal ou populacional" (Brasil, 2023, p. 121).
Exemplos globais ilustram a aplicação. No conflito Ucrânia-Rússia (2022-2026), Moscou emprega PsyOps híbridas – incidentes fabricados, protestos "espontâneos" e desinformação – para minar a coesão ocidental, mas a CogWar russa visa poluição atencional e destruição de confiança via Telegram e TikTok (NATO StratCom, 2025; YouTube, 2026). A OTAN contra-ataca com "vacinas cognitivas": doses controladas de desinformação rotulada para imunizar populações (Zanin; Ambrosio, 2023).
No Oriente Médio, a guerra Gaza-Israel (2023-2026) transforma X (ex-Twitter) em arena cognitiva, com vídeos deepfake gerando indignação fabricada e explorando ambiguidades para inibir diálogos (Gartner; Elsaesser, 2023).
Na China, as "Três Guerras" (psicológica, de mídia, legal) dominam o Indo-Pacífico, alterando percepções sobre Taiwan via narrativas sutis em apps globais (ABIN, 2023).
No Brasil, a ameaça é endêmica. A polarização pós-eleições 2022 demonstrou como ataques cognitivos degradam a confiança em urnas eletrônicas, STF e Forças Armadas, com facções criminosas estendendo PsyOps para territórios urbanos via WhatsApp e IA (Silva, 2025; Velho General, 2025). "Facções utilizam estratégias de propaganda emocional para gerar respeito e submissão", combinando medo com deepfakes personalizados (Deppe; Schaal, 2024, p. 10).
Diante desse cenário, defesas multicamadas e soberanas são imperativas, priorizando autonomia nacional para mitigar riscos de captura por atores maliciosos.
- Legislativa: leis anti-fake news como o PL 2630/2020 podem punir PsyOps estrangeiras, mas demandam supervisão independente para evitar que operadores experientes com vieses as convertam em ferramentas de censura e controle estatal (Código Aberto, 2026; Brasil247, 2026).
- Corretiva: em vez de checagem factual centralizada por agências como ABIN ou Aos Fatos – que pode amplificar vieses e poluição informacional –, priorizar inteligência preditiva descentralizada para antecipar ataques sem intermediários manipuladores.
- Algorítmica: detectores de deepfakes obrigatórios em plataformas (Meta, X) devem ser desenvolvidos nacionalmente, garantindo soberania tecnológica e evitando dependência de big techs estrangeiras vulneráveis a agendas externas.
- Psicológica: "inoculação preventiva" ou pré-bunking – exposição gradual a manipulações rotuladas para construir resiliência cognitiva desde a educação básica – surge como vacina genuína, fomentando o espírito crítico sem intermediários (ESD, 2026; EBlog EB, 2025).
Essa abordagem, articulada com redes locais de credibilidade e educação multissetorial, neutraliza tanto ameaças externas quanto riscos internos de dominação (ABIN, 2024).
O Exército Brasileiro enfatiza doutrinas integradas: "As Operações de Informação reúnem as CRI [Capacidades de Responsabilidade de Informação] [...] para criar efeitos da dimensão informacional" (ABIN, 2023, p. 7). Investir em educação cognitiva nas escolas, simuladores OODA e centros de análise híbrida é sobrevivência estratégica.
Em síntese, enquanto PsyOps moldam comportamentos táticos, a CogWar redefine a humanidade como campo de batalha. Dominá-la não é opção; é necessidade imperiosa para nações soberanas no século XXI (Nascimento, 2023; Cowan; Cook, 2018).
23 de março de 2026
