
Introdução
Imagens de arquivo mostram jovens mulheres de pernas cruzadas em bancos públicos, sem qualquer cobertura na cabeça, lendo livros sob o sol de Teerã. Anúncios da Iran Air nos anos 1970 exibiam modelos com roupas coloridas e modernas, enquanto a legenda brincava com a conexão entre Londres e Teerã. Em outra fotografia, estudantes universitários ostentam cabelos compridos no estilo mullet e calças boca-de-sino, em uma cena que poderia ter sido facilmente registrada em qualquer campus californiano da época .
Este era o Irã antes de 1979
Para compreender a dimensão da transformação imposta pela Revolução Islâmica, é necessário mergulhar nas três décadas do reinado de Mohammad Reza Pahlavi (1941-1979), o último xá da dinastia que tentou comprimir séculos de desenvolvimento ocidental em apenas algumas décadas . Seu governo representou um experimento de engenharia social sem precedentes no mundo muçulmano: um país milenar que buscou se reinventar como potência industrial e militar, aliada incondicional do Ocidente, enquanto internamente convivia com contradições explosivas entre modernidade e tradição, riqueza e desigualdade, liberdade social e autoritarismo político.
Esta reportagem investiga, com rigor documental e base em fontes acadêmicas e jornalísticas, como era a vida dos cidadãos iranianos na era Pahlavi, as transformações estruturais promovidas pelo xá, as conquistas sociais e os custos políticos de um regime que, ao tentar criar uma "Grande Civilização", acabou semeando as condições para sua própria derrubada.
1. O Contexto: A Dinastia PAHLAVI e a Modernização Autoritária
1.1 Das Origens Militares ao Trono do Pavão
A dinastia Pahlavi tem uma história surpreendentemente curta para um país com tradição imperial milenar. Foi fundada em 1925 por Reza Khan, um oficial da Brigada Cossaca de origens humildes que, com apoio britânico, liderou um golpe em 1921 e depôs a decadente dinastia Qajar .
Reza Xá, admirador das reformas de Mustafa Kemal Atatürk na Turquia, empreendeu um programa forçado de ocidentalização: criou um exército centralizado, implementou um sistema educacional secular, construiu ferrovias e estradas, e proibiu o uso do véu islâmico em público . Sua visão era deliberadamente antagônica ao clero xiita, buscando construir uma identidade nacional baseada no passado pré-islâmico da Pérsia.
Em 1941, temendo que o xá colaborasse com a Alemanha nazista, as forças britânicas e soviéticas invadiram o Irã. Reza Xá foi forçado a abdicar e morreu no exílio em 1944 . Seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, então com 22 anos, assumiu o trono em circunstâncias humilhantes para o orgulho nacional.
1.2 O Jovem Xá Entre a Democracia e o Golpe
O novo monarca era radicalmente diferente do pai. Educado na Suíça, falava inglês e francês fluentemente, tinha sensibilidade cosmopolita e uma visão modernizante, mas personalidade indecisa . Os primeiros anos de seu reinado foram marcados por relativa abertura política.
O período entre 1941 e 1953 é lembrado por historiadores como uma primavera democrática no Irã, quando o parlamento (Majlis) exerceu poder real. Foi nesse contexto que emergiu a figura de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista eleito com imenso apoio popular, que em 1951 nacionalizou a indústria petrolífera iraniana, até então monopolizada pelos britânicos .
A resposta não tardou. Em 1953, os serviços secretos do Reino Unido (MI6) e dos Estados Unidos (CIA) orquestraram a Operação Ajax, um golpe que derrubou Mossadegh e consolidou o poder absoluto do xá . O episódio está enraizado na memória política iraniana como símbolo da intervenção estrangeira e marcou o início da aliança estratégica entre Teerã e Washington que duraria até 1979 .
A partir de então, Mohammad Reza Pahlavi governaria com mão de ferro, apoiado por um aparato de segurança cada vez mais sofisticado e pela certeza de que os Estados Unidos garantiriam sua sobrevivência política.
2. A Revolução Branca: Transformação Social Sob Controle Estatal
2.1 Um Programa de Modernização Vindo de Cima
Em 1963, o xá lançou a ambiciosa "Revolução Branca" ou "Revolução do Xá e do Povo", um programa de reformas concebido para transformar o Irã em uma potência moderna sem recorrer à violência revolucionária . O nome pretendia contrastar com a "revolução vermelha" comunista que ameaçava a região.
O programa continha pilares fundamentais:
a. Reforma agrária: O Estado comprou terras dos grandes latifundiários feudais e as distribuiu aos camponeses. Pela primeira vez na história milenar da Pérsia, milhões de trabalhadores rurais tornaram-se proprietários da terra que cultivavam . Embora a implementação tenha enfrentado obstáculos técnicos e muitos camponeses, sem capital para investir, tenham migrado para as cidades, o golpe no sistema feudal foi irreversível.
b. Direitos políticos às mulheres: Em 1963, as mulheres iranianas conquistaram o direito ao voto e a serem eleitas, posicionando o Irã como exemplo de progressismo em uma região profundamente conservadora .
c. Alfabetização universal: O xá criou o Corpo de Alfabetização, que enviava jovens educados às aldeias mais remotas para ensinar a população majoritariamente analfabeta. Em vinte anos, a taxa de alfabetização saltou de aproximadamente 15% em 1941 para cerca de 50% em 1979 .
d. Participação nos lucros das indústrias: Um programa para distribuir parte dos lucros das fábricas aos trabalhadores, tentando criar uma classe operária com interesses alinhados ao regime.
O historiador Gholam Reza Afkhami, em sua biografia do xá, argumenta que "a Revolução Branca não foi apenas uma reforma econômica; foi uma revolução social que liberou as mulheres e educou as massas" .
2.2 O Boom do Petróleo e a Ilusão do Crescimento Infinito
A década de 1970 trouxe um divisor de águas para a economia iraniana. A Guerra do Yom Kippur (1973) e o subsequente embargo petrolífero árabe elevaram os preços do petróleo de forma exponencial. As receitas do Irã, um dos maiores exportadores mundiais, dispararam de US$ 1,1 bilhão em 1972 para US$ 17,8 bilhões em 1974 .
A riqueza repentina alimentou sonhos de grandeza. O xá, que se via como herdeiro de Ciro, o Grande, posicionou-se como "gendarme do Golfo Pérsico", encomendando o mais sofisticado armamento americano e construindo a força aérea mais poderosa da região. O país passou a conceder empréstimos a nações europeias em dificuldades financeiras .
A infraestrutura floresceu em ritmo considerado "milagroso" pela imprensa internacional. Construíram-se autopistas ligando o Mar Cáspio ao Golfo Pérsico, represas hidrelétricas monumentais, complexos petroquímicos. Iniciou-se o programa nuclear iraniano com assistência técnica alemã e francesa . Teerã transformou-se em metrópole de arranha-céus, centros comerciais e boutiques de luxo.
O crescimento econômico atingiu taxas anuais entre 8% e 11% do PIB . O aeroporto de Mehrabad era um dos mais movimentados e modernos da região, com aviões da Iran Air conectando Teerã às principais capitais europeias .
3. A Vida Cotidiana: Entre a Modernidade e a Tradição
3.1 A Mulher Iraniana Antes do Véu Obrigatório
Talvez nenhum aspecto da vida pré-revolucionária cause tanto impacto no observador contemporâneo quanto a condição feminina. Antes de 1979, não havia código de vestimenta obrigatório. As mulheres podiam circular com as pernas descobertas, usar maquiagem, frequentar espaços públicos sem acompanhantes masculinos .
"O Irã era um país liberal. As mulheres podiam vestir o que quisessem", recorda Rana Rahimpour, apresentadora iraniana-britânica da BBC, baseada nas memórias de sua família. Sua avó usava véu, enquanto sua mãe vestia minissaia, "vivendo em harmonia, lado a lado" .
A Lei de Proteção à Família, aprovada durante o reinado, representou avanços significativos: elevou a idade mínima para casamento de 13 para 18 anos, restringiu a poligamia (limitando o homem a uma única esposa), deu às mulheres mais direitos para requerer divórcio e ampliou seu acesso à guarda dos filhos .
Mulheres ocuparam posições de poder incomuns para a época e região: havia ministras, juízas, deputadas. A imperatriz Farah Pahlavi, terceira esposa do xá e primeira mulher coroada como rainha no mundo muçulmano (em 1967), exerceu papel ativo na promoção da cultura e das artes .
Nos anos 1960 e 1970, floresceu uma cena artística vibrante. O Museu de Arte Contemporânea de Teerã, criado sob patrocínio da Imperatriz, reuniu a mais importante coleção de arte ocidental fora da Europa e Estados Unidos, com obras de Picasso, Pollock, Warhol e Bacon . Artistas iranianas como Nahid Hagigat expressavam em suas gravuras as tensões de uma sociedade em transformação .
3.2 Juventude, Lazer e Cultura
Fotografias da época mostram jovens dançando o "Tehran twist" ao som de bandas de rock iraniano, famílias confraternizando em piscinas, esquiadores nas montanhas de Shemshak, casais mistos em cafés e pizzarias .
Não havia segregação de gênero nas universidades, escolas ou espaços públicos . Feranak Amidi, jornalista iraniana, relembra que na adolescência "a polícia moral me prendeu por estar numa pizzaria com um grupo de amigos" - um fato que ela narra com ironia, pois essa polícia simplesmente não existia antes da revolução. Após 1979, "homens e mulheres não aparentados eram presos quando encontrados na mesma companhia" .
A televisão e o cinema iranianos produziam conteúdo diversificado, com atrizes atuando sem véu e tramas que abordavam temas contemporâneos. As capas de discos de música pop persa ostentavam artistas com roupas modernas e cabelos estilizados .
3.3 O Campo e a Cidade: Dois “Irãs”
É fundamental, contudo, evitar idealizações. O Irã dos anos 1970 era um país de contrastes violentos. Ao lado da Teerã cosmopolita de arranha-céus, existiam os bairros pobres da periferia, para onde migravam camponeses sem terra ou qualificação profissional, atraídos pelo sonho da cidade grande e condições de vida precárias .
A reforma agrária, embora tenha quebrado o poder feudal, não proveu aos novos pequenos proprietários o crédito, sementes ou assistência técnica necessários para prosperar. Milhões abandonaram o campo, criando cinturões de miséria onde o choque cultural era diário: camponeses tradicionalistas confrontados com uma metrópole ocidentalizada que não compreendiam .
Nas cidades religiosas como Qom ou Mashhad, e nos bazares tradicionais, a maioria da população mantinha costumes conservadores. A socióloga Haleh Esfandiari observa que "mulheres religiosas diriam que se sentiam mais confortáveis saindo depois da revolução", quando o espaço público foi islamizado .
Havia, portanto, dois Irãs coexistindo: um moderno, secular, voltado ao Ocidente; outro tradicional, religioso, que se sentia cada vez mais marginalizado e humilhado pelas políticas de ocidentalização forçada.
4. As Sombras do Regime: Autocracia, Repressão e Desigualdade
4.1 A SAVAK e o Preço da Dissidência
A face mais sombria do reinado de Mohammad Reza Pahlavi foi a SAVAK, a polícia secreta criada em 1957 com assistência da CIA e do Mossad israelense .
A SAVAK tornou-se onipresente na vida iraniana. Estima-se que tenha empregado dezenas de milhares de agentes, infiltrados em universidades, sindicatos, repartições públicas e até nas mesquitas . Suas prisões, notadamente a notória prisão de Evin, em Teerã, foram palco de torturas sistemáticas e execuções de opositores .
O historiador Andrew Scott Cooper, em "The Fall of Heaven", descreve a SAVAK como "o braço repressivo que silenciava a dissidência", resultado da "paranoia crescente do xá" após ter sobrevivido a várias tentativas de assassinato .
"Durante o regime anterior, as pessoas tinham liberdades sociais, mas nenhuma liberdade política", resume Rahimpour. "Todos os partidos políticos eram controlados pelo rei - era uma sociedade vigiada. Não havia liberdade de imprensa, e qualquer forma de ativismo político podia levar à prisão" .
A repressão não distinguia esquerda de direita: perseguiam-se comunistas, nacionalistas, liberais e clérigos xiitas que questionassem a velocidade ou a direção da ocidentalização.
4.2 Corrupção e Ostentação
A riqueza petrolífera também alimentou corrupção galopante e desigualdade crescente. Enquanto o xá e a elite palaciana acumulavam fortunas e celebravam com ostentação, a inflação corroía o poder de compra das classes populares.
O ponto culminante do divórcio entre a monarquia e o povo ocorreu em outubro de 1971, quando o xá organizou a celebração do 2.500º aniversário do Império Persa nas ruínas de Persépolis. O evento, orçado em centenas de milhões de dólares (algumas fontes citam até US$ 200 milhões), reuniu reis, presidentes e imperadores do mundo inteiro em uma tenda de luxo no deserto, com banquetes preparados por chefs franceses importados da Maxim's de Paris .
Enquanto isso, em muitas aldeias iranianas, a população ainda vivia sem água encanada ou eletricidade. A imagem da extravagância real em contraste com a miséria popular tornou-se um poderoso combustível para a propaganda revolucionária.
4.3 A Alienação do Clero e dos Bazar is
Se a esquerda era reprimida, o clero xiita também se sentia acuado. A Revolução Branca, com sua ênfase no secularismo, na educação feminina e na distribuição de terras (que atingiu propriedades religiosas), foi percebida como ataque direto à influência clerical.
Em 1963, o aiatolá Ruhollah Khomeini emergiu como voz de oposição radical, denunciando o xá como títere de Israel e da América. Khomeini foi preso e posteriormente exilado, primeiro na Turquia, depois no Iraque e finalmente na França .
Ao eliminar sistematicamente a oposição laica e liberal, a monarquia deixou o campo livre para a única instituição que o Estado não conseguiu penetrar completamente: a rede de mesquitas. Os clérigos mantiveram canais de comunicação direta com as massas urbanas pobres e com os bazaris (comerciantes tradicionais), igualmente afetados pela modernização que favorecia grandes redes comerciais estrangeiras .
5. A Crise Final e a Queda (1977-1979)
5.1 O Superaquecimento Econômico e o Descontentamento Generalizado
No final da década de 1970, a economia iraniana apresentava sintomas de superaquecimento perigoso. O influxo maciço de petrodólares gerou inflação de dois dígitos, corroendo salários. A migração acelerada para as cidades sobrecarregou serviços públicos. A corrupção era visível e escandalosa.
A política de abertura política limitada, incentivada pela nova administração Carter nos EUA (com sua ênfase em direitos humanos), permitiu que parte da oposição expressasse descontentamento. Mas a resposta do regime foi inconsistente: ora recuava, ora reprimia com violência.
Em janeiro de 1978, um artigo publicado em jornal oficial insultando Khomeini desencadeou protestos na cidade sagrada de Qom. O ciclo se repetiu: protesto, repressão com mortes, homenagens fúnebres que se transformavam em novos protestos. A "Sexta-Feira Negra" (8 de setembro de 1978), quando forças governistas atiraram contra manifestantes em Teerã, matando dezenas e ferindo centenas, marcou um ponto de não retorno .
5.2 A Aliança Improvável Contra o Xá
O movimento que derrubou a monarquia foi uma coalizão extraordinária: liberais, comunistas, nacionalistas e clérigos islâmicos uniram-se contra o inimigo comum . "A revolução teve o apoio de todos os grupos", observa Rahimpour, incluindo "mulheres trabalhadoras sem véu e mulheres de círculos conservadores com o chador preto" .
Khomeini, do exílio em Paris, provou-se mestre em comunicação política. Suas entrevistas à imprensa ocidental o apresentavam como uma espécie de "Gandhi xiita" moderado, enquanto suas mensagens gravadas em fitas cassete mobilizavam as massas dentro do Irã. Ele prometia liberdade, independência e justiça social - palavras de ordem que unificavam a oposição.
5.3 A Fuga e o Fim
Em janeiro de 1979, diante da paralisia do Estado e da recusa do exército em atirar nos manifestantes, Mohammad Reza Pahlavi deixou o Irã para um "exílio temporário" . Levava consigo apenas um punhado de terra iraniana, segundo relatos.
Em 1º de fevereiro, Khomeini desembarcou em Teerã, recebido por milhões. Em abril, referendo nacional aboliu a monarquia e proclamou a República Islâmica . O xá morreu no Cairo em julho de 1980, aos 60 anos, vítima de câncer, e foi sepultado na Mesquita de Al-Rifa'i, onde permanece até hoje .
6. O Legado Controvertido
Mais de quatro décadas após a queda da monarquia, o legado de Mohammad Reza Pahlavi permanece objeto de intenso debate dentro e fora do Irã.
6.1 A Nostalgia Como Protesto
Entre a juventude iraniana - que representa cerca de 70% da população e não viveu a era Pahlavi - cresce um fenômeno de "nostalgia" que é, na verdade, forma de protesto contra o regime dos aiatolás . Nas palavras do filósofo iraniano Ramin Jahanbegloo, "a monarquia Pahlavi sempre esteve presente como alternativa forte ao regime islâmico, especialmente na mente dos mais jovens" .
Nas revoltas de 2022-2023, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia moral, manifestantes empunharam bandeiras com o Leão e o Sol, símbolo da monarquia, e entoaram slogans como "Irã sem rei está em caos" - não necessariamente um pedido de restauração dinástica, mas uma declaração de que o sistema que substituiu o xá fracassou .
Canais de televisão em persa sediados em Londres, como a Manoto TV, difundem imagens de arquivo da era Pahlavi, apresentando-a como tempo de crescimento, confiança e conexão global. No TikTok e Instagram, jovens iranianos compartilham fotos antigas de seus avós em trajes modernos, contrastando com a própria realidade .
6.2 O Equilíbrio Histórico
É importante, contudo, evitar a idealização acrítica. A era Pahlavi foi simultaneamente um período de modernização econômica e repressão política, de avanço feminino e desigualdade social, de abertura cultural e autoritarismo.
A cientista política Haleh Esfandiari oferece uma perspectiva equilibrada: o movimento feminino iraniano começou no final do século XIX, e as conquistas dos anos 1960-1970 foram importantes, mas "as mulheres não participavam muito da política" no sentido pleno, e o xá, diante da pressão tradicionalista, recuou no apoio à participação feminina nos anos finais do regime .
O historiador Ervand Abrahamian, em "A History of Modern Iran", documenta como o crescimento econômico beneficiou desigualmente a população, enquanto Ali Ansari, em "Modern Iran", analisa como o Estado pahlavi, poderoso na aparência, carecia de bases sociais sólidas e estava "cada vez mais divorciado do crescente descontentamento de uma sociedade marginalizada" .
Conclusão
Com a imersão deste artigo, fica claro o retrocesso para muitas nações onde a liderança de um país torna-se oriunda do totalitarismo. O Irã de Mohammad Reza Pahlavi foi um país de contrastes extremos, onde a mudança do paradigma trazida pelos aiatolás deixou um lastro de dúvidas e conceitos duvidosos, possivelmente ineficazes, aprisionador e de recesso. Experimentou transformações que levaram séculos no Ocidente comprimidas em poucas décadas. Sua capital tornou-se vitrine de modernidade cosmopolita, enquanto o interior preservava tradições seculares. Mulheres conquistaram direitos inéditos no mundo muçulmano, mas o patrulhamento político nunca foi tão intenso. A riqueza petrolífera prometia um futuro de grandeza, mas a corrupção e a inflação corroíam o presente.
O regime caiu não porque fosse estagnado, mas porque sua modernização, acelerada e autoritária, gerou desequilíbrios insustentáveis. Ao destruir as estruturas tradicionais sem construir canais de participação política, ao enriquecer vertiginosamente sem distribuir com equidade, ao aliar-se incondicionalmente às potências ocidentais em momento de ascensão do nacionalismo terceiro-mundista, o xá cavou sua própria sepultura.
A Revolução Islâmica que o derrubou prometeu liberdade e justiça; entregou repressão ideológica, guerra e isolamento. Não surpreende, portanto, que muitos iranianos, especialmente os jovens, olhem para as fotografias em sépia dos anos 1970 e se perguntem: o que aconteceu com aquele país? Onde estão aquelas mulheres sem véu, aqueles jovens dançando rock, aquela confiança no futuro?
A resposta a essas perguntas ajudará a definir o futuro do Irã.
Referências
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