
Em conflitos armados contemporâneos, poucas expressões se tornaram tão decisivas quanto “superioridade de informações”. Se em guerras anteriores o domínio do terreno, da massa de manobra ou do poder de fogo era frequentemente apontado como fator central para o êxito operacional, hoje é cada vez mais evidente que vencer começa antes do primeiro tiro, durante o combate e mesmo depois dele, no domínio da informação.
Nesse contexto, a desinformação deixou de ser apenas expediente auxiliar ou recurso episódico para se consolidar como instrumento orgânico do planejamento e da execução militar, inserido em um ecossistema mais amplo de Operações de Informação, inteligência, guerra eletrônica, operações cibernéticas e guerra cognitiva. Em outras palavras, o combate moderno não é travado apenas para destruir capacidades físicas do inimigo, mas para desorganizar sua percepção da realidade, degradar seu processo decisório e induzi-lo a agir contra seus próprios interesses.
A recente operação norte-americana para resgatar um tripulante de F-15 abatido no Irã recolocou esse tema em evidência. Além do emprego de meios aéreos, forças especiais e vigilância persistente, veio à tona a utilização de uma campanha de desinformação destinada a induzir autoridades e perseguidores iranianos a acreditar que o militar já havia sido encontrado e estava sendo retirado por outra rota. Não se tratou de detalhe lateral. Ao contrário, esse elemento parece ter sido parte funcional da missão.
Ao deslocar a atenção do oponente, atrasar sua reação e contaminar sua leitura situacional, a desinformação ajudou a ganhar tempo — e, em operações de resgate em território hostil, tempo é uma variável estratégica. O caso ilustra com clareza uma verdade muitas vezes mal compreendida: a desinformação, quando empregada no contexto militar, não opera isoladamente; ela integra um esforço coordenado para obter superioridade informacional, isto é, a capacidade de conhecer mais, interpretar melhor, decidir mais rápido e interferir no entendimento do inimigo.
É importante, contudo, distinguir conceitos. Informação não é sinônimo de verdade útil, assim como desinformação não é mero boato improvisado. No campo militar, Operações de Informação correspondem ao emprego integrado de capacidades relacionadas à informação para influenciar, corromper, interromper, usurpar ou proteger a tomada de decisão de atores adversários, ao mesmo tempo em que se protege a própria.
Essa lógica envolve, em diferentes arranjos doutrinários, inteligência, comunicações estratégicas, operações psicológicas, guerra eletrônica, segurança operacional, ciberoperações e ações de decepção militar.
A desinformação, nesse conjunto, é uma ferramenta de engano: produz ou manipula narrativas, sinais, indícios ou percepções com o objetivo de fazer o oponente acreditar em algo falso, incompleto ou deslocado temporalmente.
Não é apenas mentir; é induzir comportamento. E, na guerra, induzir o inimigo a mover tropas para o lugar errado, proteger o alvo errado, interpretar mal a intenção ofensiva ou subestimar uma ameaça pode equivaler a neutralizá-lo sem necessidade de engajamento direto.
Historicamente, a guerra sempre conviveu com a fraude, a ocultação e o logro. Sun Tzu já afirmava que toda guerra se baseia no engano. A novidade contemporânea não está, portanto, na existência da desinformação, mas na escala, velocidade e profundidade com que ela hoje se articula a capacidades tecnológicas e cognitivas.
A operação Bodyguard, na Segunda Guerra Mundial, preparatória para o Dia D, permanece como um dos maiores exemplos de decepção estratégica já executados: exércitos fictícios, tráfego de rádio simulado, agentes duplos e sinais deliberadamente fabricados convenceram os alemães de que o desembarque principal ocorreria em Pas-de-Calais, e não na Normandia.
O princípio permanece atual. A diferença é que, no século XXI, as “pegadas falsas” não se limitam a tanques infláveis ou transmissões de rádio. Elas circulam por redes sociais, metadados, sinais eletromagnéticos, logs de tráfego digital, perfis automatizados, vazamentos seletivos, imagens manipuladas e campanhas dirigidas a públicos específicos, inclusive militares, lideranças políticas e populações civis.
Essa transformação exige compreender que o combate moderno ocorre em múltiplas camadas simultâneas. A primeira é a da inteligência, responsável por coletar, processar, analisar e disseminar informações relevantes sobre o ambiente operacional, capacidades inimigas, intenções prováveis, terreno, comunicações e vulnerabilidades.
Sem inteligência de qualidade, a desinformação tende a ser rudimentar, porque enganar exige conhecer o alvo, seus hábitos, seus vieses, seus canais de decisão e suas expectativas. Não se desinforma no vazio; desinforma-se alguém, com propósito definido.
A segunda camada é a guerra eletrônica, centrada no espectro eletromagnético, permitindo detectar, interceptar, degradar, negar ou explorar emissões inimigas. Jamming, spoofing, interceptação de sinais e mascaramento eletrônico podem não apenas proteger forças amigas, mas também produzir condições ideais para que mensagens falsas pareçam plausíveis.
A terceira camada é o domínio cibernético, em que redes, sistemas, bancos de dados e infraestruturas digitais se tornam tanto alvos quanto vetores de influência. Uma intrusão cibernética bem-sucedida pode permitir plantar documentos, atrasar fluxos de informação, alterar bases logísticas, comprometer consciência situacional ou simular normalidade onde há colapso.
A quarta camada, cada vez mais discutida, é a guerra cognitiva: o esforço deliberado para moldar percepções, emoções, crenças e padrões de decisão de indivíduos e coletividades.
É nesse último plano que a discussão se torna mais sensível e mais estratégica. A guerra cognitiva não busca apenas convencer o inimigo de uma falsidade pontual; busca reconfigurar seus filtros mentais. Em vez de uma ação única, é um ambiente de saturação. O objetivo pode ser gerar fadiga informacional, reduzir confiança em canais oficiais, estimular pânico, aprofundar divisões internas, fragmentar coesão nacional ou paralisar lideranças pela incerteza.
Quando se fala em combate moderno, portanto, não se trata apenas de saber onde estão tanques, aeronaves e baterias antiaéreas. Trata-se de saber quais narrativas circulam entre tropas, quais emoções predominam entre civis, quais plataformas digitais amplificam percepções de derrota, quais comunidades estão mais suscetíveis a operações psicológicas e quais vulnerabilidades cognitivas podem ser exploradas por campanhas hostis. O terreno mental tornou-se tão disputado quanto o terreno físico.
A guerra na Ucrânia tornou isso inequívoco. Desde 2014, e de forma amplificada após 2022, o conflito mostrou como drones, satélites comerciais, inteligência de código aberto, plataformas digitais e operações narrativas convivem em uma mesma arquitetura de combate.
Rússia e Ucrânia, com apoios externos distintos, disputaram não só localidades, linhas de suprimento e superioridade de fogos, mas também versões da realidade. Vídeos de ataques, alegações de atrocidades, anúncios de avanços, negações oficiais, campanhas em Telegram, X, TikTok e outras plataformas passaram a compor o ambiente operacional em tempo real.
A informação deixou de ser apenas algo que acompanha a guerra; ela passou a ser parte da própria manobra. Quem comunica antes molda a interpretação do fato. Quem molda a interpretação condiciona reações diplomáticas, fluxos de ajuda externa, moral da tropa e resiliência da sociedade.
Isso não significa, evidentemente, que toda desinformação seja legítima ou que qualquer uso de informação manipulada esteja imune a críticas jurídicas e éticas. O Direito Internacional Humanitário não proíbe, em termos absolutos, o engano” militar.
Ruses of war — estratagemas de guerra — são admitidos, desde que não configurem perfídia. A distinção é central. É lícito induzir o inimigo em erro por meio de ocultação, simulação ou informação falsa sobre intenções e movimentos; não é lícito, porém, valer-se indevidamente da proteção conferida pelo DIH para matar, ferir ou capturar o adversário, como fingir rendição, simular condição de ferido, usar emblemas protegidos de forma enganosa ou mascarar-se como pessoal humanitário para atacar.
Em outras palavras, o engano integra a arte militar; a perfídia viola a confiança mínima protegida pelas normas da guerra. Essa distinção precisa ser enfatizada porque, no debate público, frequentemente se confunde toda manipulação informacional em combate com ilicitude automática. Não é assim. O problema jurídico não está na existência da decepção, mas nos meios, objetos e efeitos de seu emprego.
Ainda assim, o tema exige responsabilidade. Em um ambiente hiperconectado, a fronteira entre desinformação dirigida ao inimigo e contaminação do ecossistema civil-global é porosa. Uma narrativa falsa lançada para enganar um comando militar pode ser absorvida por jornalistas, diplomatas, investidores e populações inteiras, produzindo efeitos que transcendem a missão original.
Além disso, regimes autoritários frequentemente instrumentalizam o vocabulário das Operações de Informação para justificar propaganda doméstica, repressão interna e manipulação da opinião pública. Por isso, analisar o papel da desinformação no cumprimento da missão requer evitar tanto a ingenuidade liberal, que imagina guerras transparentes e imunes ao engano, quanto o cinismo absoluto, que normaliza qualquer manipulação como se eficácia operacional bastasse para legitimar tudo.
Entre um extremo e outro, há o terreno da análise séria: compreender que informação é poder, que enganar o inimigo pode salvar vidas e reduzir atrito operacional, mas que a proteção de civis, a legalidade dos meios e a preservação de confiança institucional continuam sendo parâmetros indispensáveis.
Do ponto de vista militar, a superioridade informacional tornou-se, portanto, condição de sucesso. Isso significa ser capaz de integrar sensores, plataformas, analistas e decisores em ciclos mais rápidos que os do adversário; proteger comunicações próprias; negar ao inimigo visão clara do campo de batalha; explorar seus pontos cegos; operar sob assinatura reduzida; dominar o espectro eletromagnético; defender redes; atacar sistemas quando necessário; e disputar a narrativa em paralelo ao combate cinético.
Não basta ter mais dados. É preciso ter melhor consciência situacional e maior capacidade de transformar dados em decisão. Em muitos casos, a diferença entre vitória e fracasso não estará no volume de fogos disponíveis, mas em quem consegue entrar primeiro no ciclo OODA — observar, orientar, decidir e agir — e em quem consegue desorganizar o ciclo do oponente. A superioridade de informações é, em essência, superioridade de decisão.
Para o Brasil, a reflexão é particularmente relevante. O debate nacional sobre defesa frequentemente privilegia meios visíveis como navios, caças, blindados, sistemas de artilharia, todos eles essenciais, mas por vezes subestima o peso crescente das capacidades invisíveis.
Em um cenário de disputas híbridas, fronteiras digitais permeáveis, criminalidade organizada transnacional, pressões informacionais e competição geopolítica ampliada, investir em inteligência, guerra eletrônica, defesa cibernética, proteção de infraestruturas críticas, educação midiática e formação de quadros capazes de operar no domínio cognitivo deixou de ser luxo doutrinário. É necessidade estratégica.
Países que não compreenderem isso correm o risco de possuir plataformas modernas operadas em ambientes informacionais dominados pelo adversário. E uma força militar tecnologicamente equipada, mas cognitivamente cega, eletronicamente exposta e digitalmente vulnerável, entra em combate já em desvantagem.
A recente operação de resgate no Irã ilustra que a missão contemporânea não se cumpre apenas com coragem, precisão ou poder de fogo. Cumpre-se também com capacidade de perceber antes, confundir melhor, proteger a própria consciência situacional e degradar a do inimigo.
A desinformação, nesse contexto, não é improviso, nem adereço; é ferramenta de combate quando integrada de forma inteligente a um sistema mais amplo de Operações de Informação. Quem dominar esse sistema terá melhores chances de preservar suas forças, impor dilemas ao adversário e alcançar objetivos com menor custo humano e material.
Na guerra contemporânea, a vantagem decisiva nem sempre será de quem vê tudo, mas de quem consegue fazer o outro enxergar errado. E esse, talvez, seja um dos traços mais definidores do combate no século XXI.
