Armas e Táticas da Guerra da Ucrânia Chegam às Comunidades Cariocas: A Era dos Drones com Granadas

O som de hélices cortando o ar já não vem apenas dos helicópteros da polícia. Agora, ele também ecoa de pequenos aparelhos controlados remotamente, carregando em suas garras artefatos explosivos capazes de destruir telhados, incendiar veículos e ceifar vidas. O que antes parecia cena exclusiva dos campos de batalha do leste europeu tornou-se realidade concreta nas favelas do Rio de Janeiro. As táticas de guerra da Ucrânia desembarcaram nas comunidades cariocas — e o cenário da segurança pública brasileira jamais será o mesmo.

Da Ucrânia para o morro: a transferência tecnológica do terror

Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, em fevereiro de 2022, o mundo assistiu a uma revolução silenciosa na arte da guerra. Pequenos drones comerciais, fabricados majoritariamente na China, com custo unitário que pode ser inferior a R$ 3 mil, foram adaptados por ambos os lados do conflito para lançar granadas, realizar reconhecimento aéreo e até executar ataques suicidas com precisão cirúrgica. A chamada "guerra dos drones" democratizou o poder aéreo de uma forma que nenhum estrategista militar havia previsto. O que antes demandava esquadrões de aviação e bilhões de dólares passou a ser operado por um único combatente munido de um controle remoto e um tutorial da internet.

Essa tecnologia não ficou confinada ao leste europeu. Narcotraficantes mexicanos dos cartéis de Sinaloa e Jalisco Nueva Generación foram os primeiros a importar a tática para a criminalidade organizada no continente americano. Agora, é a vez do Brasil. E o Rio de Janeiro, com sua complexa geografia de morros, vielas estreitas e disputas territoriais sangrentas, se transformou no mais recente — e preocupante — laboratório dessa nova forma de combate urbano.

O marco: a Operação Contenção e o batismo de fogo

O dia 28 de outubro de 2025 ficará marcado como um divisor de águas na história da segurança pública brasileira. Durante a chamada Operação Contenção, que mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, traficantes do Comando Vermelho (CV) reagiram à incursão de uma forma inédita: utilizaram drones equipados com garras mecânicas — semelhantes às de máquinas de pegar bichos de pelúcia — para lançar granadas e bombas de fumaça sobre as equipes policiais em solo.

As imagens, que viralizaram nas redes sociais em questão de minutos, chocaram o país. Pela primeira vez, drones armados eram empregados de forma ostensiva contra forças de segurança estatais em território brasileiro. A operação, que resultou em mais de 120 mortos — a mais letal da história do Rio —, expôs uma realidade que especialistas já vinham alertando há meses: o crime organizado brasileiro havia cruzado um ponto de não retorno na escalada tecnológica.

O pesquisador Roberto Uchôa, ex-policial e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não escondeu a gravidade do momento: "O que aconteceu no Brasil deixou evidente que o campo de batalha mudou. Agora vai se disputar o céu." Segundo o especialista, o Estado perdeu a exclusividade do domínio aéreo urbano, um ativo estratégico que durante décadas garantiu superioridade tática às forças de segurança.

A escalada não parou: o caso recente de Curicica

Se alguém nutria a esperança de que a Operação Contenção fosse um episódio isolado, os eventos mais recentes se encarregaram de destruí-la. No último dia 29 de março de 2026, moradores da Vila Sapê, em Curicica, na Zona Oeste do Rio, viveram momentos de pânico quando uma granada lançada por drone atingiu uma residência durante confronto entre milicianos e traficantes. A explosão destruiu parte do telhado e espalhou destroços por toda a casa. O artefato, segundo a Polícia Militar, havia sido direcionado contra agentes do 18º BPM (Jacarepaguá) que atuavam na região.

Dias antes, em 19 de março, o Jornal Nacional havia revelado imagens apreendidas pela polícia que mostravam como milicianos da região de Paciência, também na Zona Oeste, utilizam drones rotineiramente para planejar ataques, monitorar a movimentação da polícia e avançar sobre territórios rivais em tempo real. Os vídeos capturados pelos equipamentos registraram execuções, atropelamentos e investidas armadas com nível de coordenação que lembra operações militares — tudo filmado do alto, com a frieza de um piloto de combate.

As raízes do problema: acesso fácil e treinamento globalizado

A dimensão do desafio fica ainda mais clara quando se analisa a cadeia que alimenta essa nova realidade. Dados da Polícia Federal, obtidos pela BBC News Brasil via Lei de Acesso à Informação, revelam que ao menos um drone é apreendido a cada dois dias no país. Desde junho de 2024, mais de 200 equipamentos foram recolhidos, incluindo uma apreensão de 100 unidades da marca DJI de uma só vez em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul — região de fronteira, porta de entrada de contrabando.

Mas a questão vai além da logística. Há indícios preocupantes de que criminosos brasileiros estejam se beneficiando diretamente da experiência de combate acumulada no conflito ucraniano. Analistas apontam que o retorno de mercenários que atuaram no leste europeu trouxe consigo não apenas conhecimento técnico sobre operação de drones, mas também equipamentos — como armas antidrones com inscrições em ucraniano, apreendidas pela polícia em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, em 2024.

Somam-se a isso os tutoriais abundantes na internet, que ensinam desde a adaptação de drones comerciais para fins bélicos até a fabricação de componentes com impressoras 3D. O ex-policial Roberto Uchôa alerta: "Esses equipamentos são fabricados majoritariamente na China e vendidos livremente. É muito fácil comprar ou importar. Mesmo que se tente restringir, há manuais online para fabricá-los com impressoras 3D."

O anacronismo da resposta estatal

Enquanto facções investem em tecnologia de baixo custo e alto impacto, o Estado do Rio de Janeiro aposta em soluções que analistas classificam como anacrônicas. A recente aquisição de um helicóptero militar Sikorsky UH-60 Black Hawk, ao custo de mais de R$ 70 milhões, exemplifica o descompasso. Conforme aponta análise publicada pelo Le Monde Diplomatique Brasil, trata-se de um "fetichismo tecnológico obsoleto" diante de um cenário de guerra assimétrica urbana reconfigurada pelo uso de drones.

O Rio de Janeiro já compromete 15,7% de todo o seu orçamento estadual — aproximadamente R$ 12,7 bilhões — com segurança pública, a maior proporção entre todos os estados da federação. Mesmo assim, a estratégia permanece centrada no confronto direto e no aparato bélico pesado, herança de uma doutrina de combate que não acompanhou a velocidade da inovação criminal.

A Associação de Delegados de Polícia do Brasil (Adepol) já cobrou do Congresso Nacional a aprovação urgente de legislação que regulamente o uso de drones pelas forças de segurança e estabeleça mecanismos eficazes de fiscalização e controle desses equipamentos.

O que está em jogo

O que se vive hoje nas comunidades cariocas é mais do que uma escalada armamentista. É a manifestação local de um fenômeno global: a democratização da tecnologia de guerra e sua absorção pela criminalidade organizada. Os drones com granadas que sobrevoam favelas do Rio carregam em si uma mensagem inequívoca — o conflito urbano brasileiro entrou em uma nova era, e as velhas estratégias de segurança pública, baseadas na força bruta e no confronto territorial, tornaram-se tragicamente insuficientes.

A pergunta que se impõe não é se haverá novos ataques com drones. É quando, onde, e se o Estado estará minimamente preparado para respondê-los. A guerra da Ucrânia pode estar a mais de 10 mil quilômetros de distância, mas suas lições — e suas armas — já pousaram nos morros do Rio de Janeiro.

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza - Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1719914108268416 

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