O Ciberespaço como Área Militar: Análise da OTAN e Suas Implicações Geopolíticas

Ao longo da última década, a sociedade experimentou uma transição radical, às vezes silenciosa e frequentemente tranquila. Isso faz com que uma grande parte das operações do mundo hoje, especificamente o sistema financeiro internacional, dependa cada vez mais de sistemas digitais.

Os bancos, é claro, transacionam através de redes globais; redes no setor de energia são operadas por software; comunicações militares e civis atravessam infraestruturas conectadas; processos políticos começam a perceber, diretamente, as implicações da crescente e, às vezes, influente presença do ambiente digital, que agora determina como os estados equilibram segurança com poder. 
O espaço outrora meramente tecnológico agora também é visto como um espaço estratégico, onde o ciberespaço não é mais uma simples rede de computadores, mas um campo de batalha disputado por estados, organizações, empresas e grupos não estatais.

Esse movimento resultou em governos e alianças militares reavaliando suas estratégias de defesa. Eventualmente, ficou claro que não era suficiente proteger fronteiras. Era essencial proteger redes, dados e infraestruturas digitais. Foi assim que a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) deu seu passo icônico na Cúpula de Varsóvia em 2016 para designar oficialmente o ciberespaço como um domínio operacional de guerra.

Em termos de implementação, isso significava que a natureza do ciberespaço era equivalente ao mesmo nível estratégico dos domínios clássicos de terra, mar e ar — e, em um quadro mais amplo de agendas contemporâneas, também interagindo com o domínio espacial. Isso estava longe de ser uma simples decisão de princípio.

Estruturou um compromisso crescente entre estrategistas militares com a realidade de que, nesse domínio, ciberataques podem produzir resultados tangíveis e levar a incidentes catastróficos. Um ciberataque pode interromper redes elétricas, desestabilizar sistemas financeiros, bloquear comunicações ou desestabilizar a própria concepção de infraestrutura de um país.

Nessas plataformas, em alguns casos, o efeito de uma decisão digital se assemelha ao resultado de uma tarefa militar tradicional. Os militares sempre coordenaram atividades em três áreas principais de ação: terra, mar e ar. Ao longo do século 20 e com os avanços técnicos, particularmente durante a Guerra Fria, o espaço sideral foi gradualmente e constantemente introduzido no processo de planejamento militar. Até que a internet popular fosse amplamente adotada, as redes se expandissem e os sistemas estratégicos se digitalizassem, o conceito de ciberespaço como campo operacional era impossível.

Há uma forte diferença nas características dos campos de batalha tradicionais quando se trata de ciberespaço. Ele não oferece uma geografia definida, as operações podem ocorrer em diferentes momentos e muitas vezes pode ser muito difícil — pelo menos para determinar com precisão — localizar quem foi o autor de um ataque.

Também deve ser notado que uma grande parte da infraestrutura digital está nas mãos do setor civil, complicando ainda mais a distinção entre objetivos militares e infraestruturas civis.

A OTAN identificou esse novo domínio, que está intimamente relacionado a um grande aumento nos incidentes cibernéticos nas últimas décadas. Ataques a redes elétricas, sabotagem de sistemas industriais e grandes campanhas de espionagem digital agora fazem parte do cenário de segurança internacional. Esses episódios provaram que o ciberespaço pode ser usado para coleta de inteligência, mas também para operações de sabotagem direcionadas dentro do contexto da chamada guerra híbrida.

A partir desse reconhecimento, a OTAN começou a construir melhor suas capacidades cibernéticas para sustentar a defesa coletiva. Para combater uma ameaça cibernética como uma capacidade coletiva, há esforços para formular políticas concretas a fim de gerenciar operações no domínio digital, cooperação entre os estados membros e para o estabelecimento de centros de defesa cibernética. 
Destaca-se o Centro de Excelência de Defesa Cibernética Cooperativa da OTAN, estabelecido na Estônia (Tallinn), cujo nome recentemente se tornou de fato um marco internacional para pesquisa, treinamento e desenvolvimento de estratégias em segurança cibernética, como também foi recentemente referenciado em vários estudos.

Geopoliticamente, essa metamorfose, transformação ou mudança também reflete a batalha entre os gigantes. Por um lado, à medida que outros países como os Estados Unidos, China e Rússia investem bilhões de dólares em capacidades cibernéticas ofensivas e defensivas.

O novo papel do domínio digital foi reconhecido não apenas como uma dimensão crucial da segurança nacional, mas também, ao mesmo tempo, como uma ferramenta para a projeção de poder em um contexto internacional. Em meio a essa competição, a guerra cibernética faz parte do conjunto mais amplo das chamadas guerras híbridas, que incluem ofensivas armadas tradicionais, informação, comércio e guerra cibernética.

É importante notar que, em alguns casos, um grande ataque cibernético pode ser uma manifestação da defesa da OTAN. Os dois casos são tratados separadamente, embora, como a aliança já comentou, incidentes seriamente danosos no ciberespaço tenham um precedente para acionar o Artigo 5 do tratado, o princípio de que um ataque a um membro pode ser considerado um ataque a todos os membros.

Do ponto de vista da dissuasão estratégica, ampliando assim o espectro, o ambiente digital continua a se tornar cada vez mais importante na segurança internacional. No momento, a escalada da militarização do ciberespaço está trazendo consigo desafios significativos para a governança global. 

Em contraste com áreas de conflito convencionais, atualmente não há um corpo consolidado de normas internacionais para operações militares no ciberespaço. Existem esforços multilaterais para estabelecer princípios de conduta responsável no ciberespaço, mas alcançar um acordo entre as potências dominantes continua difícil. Isso também representa um marco significativo no desenvolvimento de estruturas de segurança internacional no século 21; a OTAN vendo o ciberespaço como um domínio militar. 

Mais do que uma mera adaptação tecnológica, isso é uma resposta às novas formas como o poder em si opera e é contestado no mundo moderno. Atualmente, a rivalidade entre estados ocorre simultaneamente em domínios terrestre, marítimo, aeroespacial, e, de fato, no ciberespaço. O papel do ciberespaço na geopolítica moderna é, portanto, crucial, com ramificações para a estabilidade internacional além da ordem geral, incluindo os caminhos que os conflitos tomarão e os meios para conduzi-los.

Referências
NATO. “Warsaw Summit Communiqué”.
NATO. “Cyber defence”
NATO Cooperative Cyber Defence Centre of Excellence.
Rid, Thomas. Cyber War Will Not Take Place. Oxford University Press.
Singer, P. W.; Friedman, Allan. Cybersecurity and Cyberwar: What Everyone Needs to Know. Oxford University Press.

  • Engenheiro Eletricista pela Universidad de Santiago de Chile, com especialização em Automação Industrial pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e pós-graduação em Gestão da Segurança da Informação pela Universidade de São Paulo (USP/IPEN). Possui MBA em Transformação Digital pela USP (POLI/LARC) e MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Atua há mais de 20 anos em Tecnologia da Informação, Segurança Cibernética e Governança de TI, com experiência em setores financeiros, telecomunicações e infraestrutura crítica. Especialista em inovação tecnológica, Inteligência Artificial aplicada à segurança e cyberwar, possui mais de 20 certificações e formações internacionais, incluindo programas da Yale University, Rochester Institute of Technology, Erasmus University Rotterdam, SUNY, CISCO Networking Academy, FIA Business School, Universidade Presbiteriana Mackenzie e o programa POLINAV – Seguridad de Redes de Comunicaciones, na Politécnica Naval da Armada de Chile.


     

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