Aiatolás: A História, o Poder e o Futuro Incerto do Irã Pós-Tempestade

Teerã em meio à fumaça dos bombardeios e à comoção mundial pela morte do líder supremo Ali Khamenei, uma pergunta ecoa nos corredores do poder e nas ruas do Irã: o que vem depois? Para entender o futuro, é preciso mergulhar nos anais da história persa e compreender a figura enigmática e poderosa que está no centro deste regime: o Aiatolá.

O que é um Aiatolá? O "Sinal de Deus"

Longe de ser apenas um cargo político, o título de Aiatolá é, antes de tudo, uma distinção honorífica de altíssimo escalão dentro do clero xiita. A palavra tem raízes profundas na língua árabe: Āyatollāh significa literalmente "Sinal de Deus" ou "Sinal de Alá" .

Não se trata de um título que se conquista por nomeação, mas sim por um longo e árduo reconhecimento. É a coroação de uma vida dedicada ao estudo. Para ser chamado de Aiatolá, um clérigo precisa passar por décadas de formação nos seminários islâmicos (Hawza) de cidades sagradas como Qom, no Irã, e Najaf, no Iraque . O estudioso deve dominar não apenas o Alcorão e a jurisprudência islâmica (sharia), mas também filosofia, ética e dezenas de outras ciências, até atingir o nível de Mujtahid, aquele capaz de interpretar as leis divinas de forma independente .

É fundamental entender que, originalmente, o título não implicava poder político. "São os estudiosos que alcançam o nível máximo de estudo", define Nasser Khazraji, diretor do Centro Islâmico no Brasil, à BBC. "Cada muçulmano escolhe um para seguir, para obedecer aos pareceres religiosos do seu dia a dia" . Ou seja, o Aiatolá é um guia espiritual e uma fonte de sabedoria, cuja influência é medida pelo número de fiéis que o escolhem como "fonte de imitação" (marja' al-taqlid) . Entre eles, alguns poucos se destacam a ponto de serem chamados de Grão-Aiatolá (Ayatollah al-Uzma), um título reservado às maiores referências religiosas vivas .

Como Surgiu? Do Século XIV à Revolução

Embora a palavra "Sinal de Deus" apareça no Alcorão, seu uso como título religioso é mais recente. Os registros históricos apontam que o primeiro a receber essa designação foi o teólogo Ibn Mutahhar Al-Hilli, que morreu em 1374 . No entanto, o título não era popular. Ele ressurgiu e se consolidou apenas no século XIX, especialmente durante a Revolução Constitucional Persa (1905-1911), quando estudiosos como Akhund Khurasani (1839-1911) foram chamados de Aiatolá para distingui-los de clérigos de escalões inferiores .

Foi no século XX que o título ganhou ares institucionais. Com a fundação do seminário de Qom por Abdul-Karim Haeri Yazdi (1859-1937), o uso se espalhou. Mas foi em 1979 que a palavra "aiatolá" deixou os livros de teologia e ganhou o mundo, de forma definitiva e explosiva.

Os Mais Expressivos: Os Arquitetos do Irã Moderno

A história dos aiatolás se confunde com a história do Irã contemporâneo. Dois nomes, em especial, destacam-se como gigantes dessa narrativa.

1. Ruhollah Khomeini (1902-1989): O Pai da Revolução

Se existe um rosto para o título, é o do Aiatolá Khomeini. Exilado por quase 15 anos por suas críticas ferozes ao Xá Mohammad Reza Pahlavi e à sua ocidentalização forçada, Khomeini liderou de Paris um movimento que incendiou o Irã. Utilizando fitas cassete com seus sermões e a rede de mesquitas, ele articulou a queda da monarquia . Em 1º de fevereiro de 1979, retornou a Teerã entre multidões e, meses depois, com 99% dos votos em um referendo, fundou a República Islâmica . Khomeini não era apenas um Aiatolá; ele era o Líder Supremo, criando um modelo inédito onde a teologia se fundia com o poder absoluto do Estado .

2. Ali Khamenei (1939-2026): O Sucessor e a Consolidação do Poder

Com a morte de Khomeini em 1989, o Aiatolá Ali Khamenei, que era presidente, foi escolhido como o novo Líder Supremo . Diferente de Khomeini, Khamenei não era um Grão-Aiatolá reconhecido na época, o que levou o regime a elevar seu título e redefinir as regras para acomodá-lo . Durante quase quatro décadas, Khamenei comandou o país com mãos de ferro, controlando as Forças Armadas, o Judiciário, a mídia estatal e uma vasta rede de poder econômico paraestatal . Sua morte no último sábado, em meio aos ataques coordenados de EUA e Israel, marca o fim de uma era e o início de uma das maiores crises do regime .

Outros Nomes de Peso

É crucial lembrar que a influência xiita não se restringe ao Irã. No Iraque, o Grão-Aiatolá Ali al-Sistani é uma figura de imensa autoridade, capaz de influenciar a política nacional, provando que o poder religioso nem sempre precisa do controle do Estado para ser relevante .

Por que o Poder Político é Tão Forte?

A Constituição da República Islâmica do Irã é a chave para entender essa força. O sistema é uma teocracia única, baseada no princípio xiita da Velayat-e Faqih (Tutela do Jurista Islâmico), elaborado por Khomeini. A tese defende que, na ausência do 12º Imam oculto, os clérigos justos e sábios são os tutores legítimos da comunidade, devendo guiar não apenas a fé, mas também o governo.

Na prática, isso se traduz em um arcabouço onde o Líder Supremo (um Aiatolá) está acima de todos os poderes. Ele é o comandante-chefe das Forças Armadas, declara guerra e paz, e define as diretrizes da política externa . Abaixo dele, existe uma complexa rede de lealdade:

· Assembleia dos Peritos: Um colegiado de 88 clérigos eleitos, mas cujos candidatos são previamente aprovados pelo Conselho dos Guardiães, que é, em grande parte, nomeado pelo Líder Supremo . Ou seja, o círculo que escolhe o líder é controlado por ele mesmo.
· O Presidente e o Parlamento: Existem e são eleitos, mas são subordinados ao Líder Supremo. O presidente administra o dia a dia, mas não pode contrariar as linhas vermelhas da teocracia .

Este desenho institucional, somado ao imenso poderio da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e ao controle de uma fortuna bilionária via fundações paraestatais, blindou o regime por décadas, tornando o Líder Supremo a figura mais poderosa e intocável do país .

O Futuro do Irã: Entre a Guerra, a Sucessão e o Colapso

Com a morte de Khamenei e de vários comandantes militares de alto escalão nos recentes ataques, o Irã mergulhou em seu momento mais volátil desde 1979 . O regime segue de pé, mas os próximos dias serão determinantes.

1. O Comando Temporário: A Constituição foi acionada. Um conselho provisório de três homens o presidente Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário e o clérigo Alireza Arafi (membro do Conselho dos Guardiães) assumiu interinamente as funções executivas .

2. A Corrida pela Sucessão: A palavra final caberá à Assembleia dos Peritos, que precisa se reunir em meio ao caos. O processo é secreto, mas especula-se sobre alguns nomes :

- Mojtaba Khamenei: O filho do líder morto é o nome mais comentado. Aos 56 anos, ele é um clérigo com enorme influência nos círculos de poder e na Guarda Revolucionária. No entanto, uma sucessão "hereditária" é vista como uma afronta às tradições clericais xiitas e poderia gerar rejeição interna .

- Hassan Khomeini: Neto do fundador da República, ele carrega o sobrenome mais poderoso do país e tem um perfil menos alinhado ao círculo radical, o que poderia ser uma tentativa de unificar o regime em crise .

- Ali Larijani: Uma figura política proeminente, linha-dura e de longa data próxima a Khamenei, também é um nome cotado .

3. Cenários Possíveis: A realidade no terreno é impiedosa.

Com o país sob bombardeio e a estrutura de comando abalada, duas visões disputam o futuro:

- Continuidade e Radicalização: Se o regime conseguir se recompor rapidamente, escolher um sucessor linha-dura (como Mojtaba) e manter a coesão da Guarda Revolucionária, o Irã pode retaliar com força, arrastando a região para um conflito ainda maior, mas sobrevivendo institucionalmente.

- Fragmentação e Colapso: A pressão militar contínua, aliada à possível eclosão de novos e massivos protestos populares como os vistos nos últimos anos , pode levar à fratura das forças de segurança. Se o exército se recusar a atirar ou se dividir, o processo de transição constitucional pode se tornar irrelevante, abrindo caminho para o fim da República Islâmica como a conhecemos .

Uma coisa é certa: o regime dos aiatolás perdeu seu líder máximo e guardião. O "Sinal de Deus" no comando do Irã se apagou, e o que virá a seguir será escrito com sangue, fogo e a vontade de um povo que, neste momento, observa o desenrolar de sua própria história com a respiração suspensa.

Autor: Carlos Luiz Dias

  • Engenheiro de Produção
  • Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO)
  • Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ)
  • Membro do InstitutoTherezinha de Castro (Escola Superior de Guerra)
  • Sócio Fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH/BRASIL)
  • Assessor de Comunicação Social ADESG

 

4 de março de 2026

Acesso

Visitantes Online

Temos 144 convidados e nenhum membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 4692

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.