
Eram as primeiras horas de domingo, 5 de abril de 2026, e havia notícias do fim de uma das operações de busca e resgate mais difíceis da história militar recente. Um coronel da Força Aérea dos Estados Unidos, um oficial de sistemas de armas (WSO) do F-15E Strike Eagle da 48ª Ala de Caça que foi abatido no sudoeste do Irã.
Ele passou mais de 36 horas ferido, escondido em uma seção rochosa das montanhas Zagros, cerca de 2.100 metros acima do nível do mar, armado apenas com uma pistola, enquanto a Guarda Revolucionária Islâmica e civis com uma recompensa de $60.000, mais de dez vezes a renda anual de uma família iraniana, que os motivava, se aproximavam.
A resposta americana não era sobre o significado estratégico de um único homem, mas o respeito do país por cada um de seus nacionais. Centenas de operadores das Forças Especiais como a SEAL Team 6, o 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais e dezenas de aeronaves como MC-130J Commando II, helicópteros Black Hawk e MH-6 Little Bird, caças, bombardeiros e drones MQ-9 Reaper, foram mobilizados.
Uma pista de pouso improvisada foi estabelecida a 200 milhas dentro do território iraniano, perto de Isfahan, e a CIA (Agência Central de Inteligência) realizou uma campanha de desinformação para plantar a notícia falsa de que o aviador já havia sido resgatado e estava sendo retirado do Irã por terra.
E tudo isso, incluindo a destruição deliberada de dois MC-130Js e de dois helicópteros MH-6 Little Bird com avarias mecânicas na pista improvisada, cada um valendo dezenas de milhões de dólares, explodidos pelos próprios americanos para que não caíssem em mãos inimigas, foi necessário para trazer um homem de volta para casa. "PEGAMOS ELE!" — declarou o Presidente Donald Trump nas primeiras horas de domingo, em sua postagem nas redes sociais — "NUNCA DEIXAREMOS UM COMBATENTE AMERICANO PARA TRÁS!"
Essa declaração não é um gesto retórico isolado. É a reafirmação pública de uma doutrina que atravessa gerações e se traduz, na prática, em um pacto entre o Estado americano e cada indivíduo que veste a farda.
Na sexta-feira, antes mesmo dessa operação, o piloto do mesmo F-15E já havia sido resgatado em plena luz do dia. Foi uma ação improvisada que durou sete horas sob fogo inimigo, em território hostil.
Nessa investida, dois helicópteros Black Hawk foram atingidos por tiros iranianos. Um A-10 Warthog de apoio aéreo aproximado também foi alvejado, conseguindo apenas alcançar o Kuwait antes de seu piloto precisar ejetar com segurança.
Segundo o coronel reformado Jeffrey Fischer, da Força Aérea americana, em entrevista ao site Military.com, esse primeiro resgate, sem planejamento prévio, à luz do dia e em ambiente adverso, pode ter sido ainda mais impressionante do que a operação noturna que se seguiu.
O que ambas as missões revelam, porém, vai além da capacidade operacional. Elas expõem uma concepção de valor da vida do combatente que merece ser examinada sob múltiplas lentes, inclusive a do Direito Internacional Humanitário (DIH).
É justamente aqui que a operação nas montanhas Zagros ganha uma dimensão jurídico-humanitária muitas vezes negligenciada pela cobertura midiática. A III Convenção de Genebra de 1949, relativa ao Tratamento dos Prisioneiros de Guerra, determina que combatentes capturados devem ser tratados com humanidade, protegidos contra violência, intimidação e exposição pública.
A Convenção também estabelece que a detenção não constitui punição, mas apenas um meio de impedir a participação contínua no conflito. Caso o coronel americano tivesse sido capturado pela Guarda Revolucionária, seu estatuto de prisioneiro de guerra estaria juridicamente assegurado, ao menos em tese.
A experiência histórica, contudo, mostra que a aplicação efetiva dessas garantias varia enormemente entre atores internacionais. O cenário de um aviador ocidental sob custódia do regime iraniano, em pleno conflito ativo, trazia riscos reais de instrumentalização política e propaganda, como já visto em episódios anteriores.
Para o DIH, a situação do combatente hors de combat — fora de combate por ferimento, ejeção ou rendição — é de proteção absoluta. Não pode ser alvo de ataque e deve ser recolhido e tratado.
Paradoxalmente, é a consciência de que essa proteção pode falhar na prática que alimenta a doutrina americana de resgate a qualquer custo. Resgatar o próprio militar em zona de combate, por si só, não viola princípios do DIH.
Ainda assim, a operação suscita questões legítimas sobre a proporcionalidade dos meios empregados e os possíveis efeitos sobre populações civis nas áreas de atuação. São debates que a comunidade acadêmica e jurídica internacional certamente aprofundará nos próximos meses.
O que torna essa postura americana singular, porém, não é apenas a capacidade bélica de executar tais missões, mas o ecossistema cultural e institucional que as sustenta.
Nos Estados Unidos, a valorização do militar não começa no campo de batalha; começa na calçada, no aeroporto, no restaurante. A expressão “Thank you for your service” — “Obrigado pelo seu serviço” —, dita espontaneamente por civis a fardados, faz parte do cotidiano.
O Cemitério de Arlington em Washington - DC é um local sagrado que abriga os restos mortais dos americanos que tombaram em combate.
Redes de restaurantes oferecem refeições gratuitas a veteranos. Companhias aéreas garantem embarque prioritário e transporte de bagagem grátis. Lojas concedem descontos permanentes.
O GI Bill financia a educação superior de quem serviu. O Dia dos Veteranos, em 11 de novembro, mobiliza o país em reconhecimento público.
Há vagas de estacionamento reservadas, programas robustos de reintegração e assistência médica dedicada pelo sistema Veterans Affairs (VA).
Esse reconhecimento social, que não é isento de contradições e críticas internas, como mostram escândalos recorrentes de atendimento precário nos hospitais da VA, permanece, ainda assim, como pilar da moral do combatente americano.
O soldado que parte para uma zona de conflito sabe que, além de treinamento e equipamento de ponta, carrega uma promessa institucional e social: se cair, virão buscá-lo; se voltar ferido, será amparado; se morrer, será honrado.
A história militar americana é pródiga em exemplos que materializam essa promessa.
Em 1995, o capitão Scott O’Grady, da Força Aérea, foi abatido sobre a Bósnia e sobreviveu seis dias em território hostil, alimentando-se de insetos e coletando água da chuva, antes de ser resgatado por fuzileiros navais em uma operação que mobilizou mais de 40 aeronaves.
Em 2003, a soldado Jessica Lynch foi capturada no Iraque, e forças especiais conduziram uma incursão noturna em um hospital para trazê-la de volta.
Em 2009, quando o capitão Richard Phillips — um civil, não um militar — foi sequestrado por piratas somalis no Oceano Índico, atiradores de elite dos SEALs, posicionados na popa do destróier USS Bainbridge, abateram três sequestradores com três disparos simultâneos para libertar um único cidadão americano.
Em 2014, os Estados Unidos negociaram a libertação de cinco prisioneiros talibãs detidos em Guantánamo para repatriar o sargento Bowe Bergdahl, decisão cercada de intensa controvérsia que, ainda assim, evidenciou algo maior: o compromisso de não deixar ninguém para trás não é condicional e não depende de patente, circunstância ou mérito individual.
O contraste com a postura de outros países é, em muitos casos, doloroso.
Durante o conflito na Ucrânia, relatos extensamente documentados por organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e por veículos como a Associated Press e a Reuters descreveram milhares de soldados russos abandonados em campos de batalha, sem resgate e sem identificação.
Em muitos casos, as famílias jamais foram oficialmente informadas sobre o destino desses combatentes. A diferença é estrutural: enquanto uma nação destrói voluntariamente aeronaves avaliadas em milhões de dólares para impedir que tecnologia caia em mãos inimigas durante o resgate de um único homem, outras sequer organizam operações para recolher os corpos dos que tombaram.
É justo reconhecer, contudo, que a valorização do combatente não é exclusividade americana. Israel, por exemplo, demonstrou compromisso semelhante ao negociar, durante cinco anos, a libertação do soldado Gilad Shalit, capturado pelo Hamas em 2006, aceitando trocar 1.027 prisioneiros palestinos por um único soldado israelense em 2011.
O Reino Unido mobilizou uma força-tarefa naval através de todo o Atlântico Sul para defender cerca de 1.800 cidadãos britânicos das Ilhas Malvinas, em 1982.
A questão, portanto, não é que os Estados Unidos sejam o único país a valorizar seus militares, mas que poucos o fazem com a mesma escala, consistência institucional e visibilidade pública.
Para o combatente, essa certeza tem um nome técnico — moral — e um efeito prático imensurável. O militar que opera com a convicção de que, aconteça o que acontecer, a maior máquina logística e bélica do mundo será acionada em seu favor, combate com uma segurança psicológica que nenhum treinamento, por mais sofisticado, consegue replicar artificialmente.
Não é bravata; é cálculo. Os Estados Unidos investem bilhões de dólares anuais em capacidade de CSAR (Combat Search and Rescue), com estrutura, doutrina, aeronaves, unidades dedicadas, porque compreendem que o retorno desse investimento não se mede apenas em vidas salvas, mas na disposição de cada piloto, cada operador, cada infante de aceitar a próxima missão sabendo que, se o pior acontecer, não será esquecido.
É um ciclo virtuoso: o resgate alimenta a confiança, a confiança alimenta a eficácia, a eficácia sustenta a dissuasão. Há entre militares de diversas nações — e o autor destas linhas já o ouviu pessoalmente em mais de uma ocasião, em ambientes multinacionais de formação e cooperação militar — uma reflexão recorrente, quase sempre formulada em tom de admiração contida: a de que gostariam que seus próprios países demonstrassem por seus soldados o mesmo compromisso que os americanos demonstram pelos seus. É uma reflexão que deveria incomodar governos, parlamentos e sociedades.
O resgate nas montanhas Zagros, encerrado nas primeiras horas do domingo 5 de abril de 2026, não foi apenas uma operação militar bem-sucedida. Foi a materialização de um pacto civilizacional.
Enquanto o coronel americano se escondia em uma fenda rochosa, ferido, com irananos se aproximando quilômetro a quilômetro, drones Reaper eliminavam ameaças a menos de três quilômetros de sua posição, a CIA semeava desinformação para confundir o inimigo, o SEAL Team 6 avançava pelo terreno, e o presidente dos Estados Unidos monitorava pessoalmente a operação.
Para o Brasil e para qualquer nação que aspire a Forças Armadas eficazes e moralmente coesas, a lição que emerge desse episódio transcende a admiração pelo espetáculo operacional: reside na compreensão de que valorizar o combatente não é um gasto, é um investimento; que a promessa de não abandonar os seus não é idealismo, é estratégia; e que a dignidade conferida a cada soldado, do gesto mais simples de agradecimento na rua até a mobilização de centenas de operadores de elite em território inimigo, é o que transforma um exército em uma instituição pela qual homens e mulheres estão dispostos a arriscar tudo.
Ninguém fica para trás. Não é um slogan. É o alicerce sobre o qual se constrói a confiança que permite a um ser humano avançar sob fogo, certo de que, do outro lado, alguém virá buscá-lo.
Fontes consultadas:
TRUMP, Donald. Publicações em Truth Social e X (via assessoria de imprensa da Casa Branca), 5 abr. 2026.
REUTERS. "US special forces rescue downed F-15 airman from Iran." Air Force Times, 5 abr. 2026.
AXIOS. "Second crew member from F-15 downed in Iran rescued by U.S. forces." 5 abr. 2026.
GORDON, Chris. "F-15E Aviator Missing in Iran Rescued by US Forces." Air & Space Forces Magazine, 5 abr. 2026.
TASK AND PURPOSE. "US commandos rescue downed F-15 crew member in Iran." 5 abr. 2026.
MILITARY.COM. "'Planned and Rehearsed': How US Rescued F-15E Crew Member in Iran." 5 abr. 2026.
BBC NEWS. "How rescue of US airman in remote part of Iran unfolded." 5 abr. 2026.
AP NEWS. "A mountain hideout and aircraft under fire: US carries out daring rescue of service member in Iran." 5 abr. 2026.
NEW YORK TIMES (via AOL/New York Post). Relato detalhado da operação com SEAL Team 6, 5 abr. 2026.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (CICV). Convenção (III) de Genebra Relativa ao Tratamento dos Prisioneiros de Guerra, 12 ago. 1949. Disponível em: ihl-databases.icrc.org.
CICV. "Pessoas protegidas: prisioneiros de guerra e pessoas detidas." Disponível em: icrc.org/pt.
