
Em 21 de fevereiro de 1945, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) conquistou o Monte Castelo, no norte da Itália, após três meses de combates intensos contra tropas de elite alemãs, marcando um dos episódios mais heroicos da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Essa vitória, alcançada sob condições extremas de inverno rigoroso, terreno montanhoso e resistência feroz, demonstrou a capacidade excepcional dos pracinhas brasileiros, ganhando o reconhecimento eterno do povo italiano, mas contrastando com o esquecimento orquestrado no Brasil, fruto de uma campanha de guerra cognitiva que impede o culto aos verdadeiros heróis da pátria.
O contexto da entrada do Brasil na guerra remonta ao afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães, um ultraje que mobilizou cerca de 25 mil soldados para o Teatro de Operações na Europa em 1944. Integrados ao 5º Exército dos Aliados, sob comando do general americano Mark Clark, os brasileiros enfrentaram o desafio de provar seu valor em um conflito global dominado por potências experientes. Monte Castelo, com sua altitude estratégica, permitia aos alemães da 148ª Divisão de Infantaria e do 4º Regimento de Fallschirmjäger (paraquedistas de elite nazistas) controlar visualmente a região, bloqueando o avanço aliado rumo ao rio Pó.
A batalha iniciou-se em 24 de novembro de 1944 e se estendeu até fevereiro de 1945, com seis ofensivas principais, das quais quatro falharam inicialmente devido a falhas estratégicas, falta de coordenação com aliados e condições climáticas adversas: chuvas torrenciais, neblina que impedia apoio aéreo e lama que neutralizava tanques. No primeiro ataque, em 24 de novembro, o Grupo de Combate do general Zenóbio da Costa avançou bem inicialmente, mas uma contraofensiva violenta da 232ª Divisão de Infantaria alemã repeliu os brasileiros, resultando em 190 baixas. Ataques subsequentes, como o de 12 de dezembro, custaram mais 150 vidas, com 20 mortos, reforçando a convicção do general Mascarenhas de Moraes de que só uma ofensiva em divisão plena poderia triunfar.
A Capacidade Excepcional dos Militares Brasileiros
Apesar da inexperiência inicial, os pracinhas revelaram uma capacidade notável de adaptação e bravura. Treinados em condições tropicais, enfrentaram o gelado inverno italiano, com temperaturas abaixo de zero, neve e ventos cortantes, sem equipamentos adequados como botas forradas ou roupas térmicas suficientes. No entanto, sua tenacidade brilhou na Operação Encore, o assalto final. Em 20 de fevereiro, os três batalhões da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, Uzeda (pela direita), Franklin (frontal) e Sizeno Sarmento (em posições elevadas), posicionaram-se para o ataque às 6h do dia 21.
Com apoio massivo de artilharia aliada, os brasileiros escalaram o monte sob fogo inimigo intenso. O Batalhão Franklin avançou pelo frente principal, enquanto Uzeda flanqueava pela direita e Sarmento explorava posições noturnas privilegiadas. Às 18h, o cume era brasileiro, expulsando os alemães após meses de tentativas frustradas por americanos e outros aliados. Essa conquista não foi sorte: reflete planejamento meticuloso de Mascarenhas, coordenação com a 10ª Divisão de Montanha americana (que tomou o vizinho Monte della Torraccia) e o espírito indomável dos soldados, que superaram perdas de mais de 1.000 homens na campanha.
A vitória abriu caminho para outras ações da FEB, como a tomada de Castelnuovo e Montese, contribuindo para a rendição alemã em maio de 1945 e consolidando o Brasil como ator decisivo contra o nazifascismo. Os pracinhas não só combateram, mas inovaram: aprenderam táticas de guerra de montanha em tempo real, usaram mulas para transporte em terrenos intransitáveis e mantiveram moral elevada com sambas e cafezinho, apelidados de "cobras-fumantes da cobra preta" pelos Aliados.
O Reconhecimento do Povo Italiano
Enquanto os brasileiros voltavam como heróis esquecidos, os italianos os imortalizaram. Em Monte Castelo, uma placa e um museu perpetuam a memória: "Aos bravos soldados brasileiros que libertaram esta terra". Anualmente, cerimônias reúnem veteranos e locais, com hinos e flores aos túmulos no Cemitério Militar Brasileiro de Pistoia, onde repousam 453 pracinhas. Italianos idosos ainda contam histórias de como os FEB dividiam rações com civis famintos, curavam feridos e restauravam vilarejos, contrastando com a brutalidade alemã. Essa gratidão transcende gerações: em 2025, nos 80 anos da tomada, autoridades italianas e a FEB celebraram conjuntamente, reforçando laços que o Brasil oficial ignora.
O Esquececimento Orquestrado pelo Povo Brasileiro
No Brasil, porém, uma pátria que não cultua seus heróis condena-se ao oblivion de suas glórias. A FEB, com 9.324 combatentes mortos, feridos ou desaparecidos, foi vítima de uma guerra cognitiva pós-guerra: campanhas ideológicas durante a Guerra Fria e ditaduras minimizaram o episódio para evitar "militarismo" ou associá-lo a governos Vargas/Getúlio. Escolas omitem Monte Castelo dos currículos, mídia prioriza narrativas externas, e heróis como o tenente João Câncio ou o sargento Mário Martins são reduzidos a notas de rodapé. Essa orquestração deliberada, via censura, revisionismo histórico e priorização de outras narrativas nacionais, impede que os pracinhas sejam ícones como os aviadores da FAB ou figuras da Independência.
Uma pátria que não cultua seus heróis não honra sua essência combativa, permitindo que mitos de fraqueza substituam verdades de bravura. Eventos como os 80 anos em 2025, destacados pelo Superior Tribunal Militar e Exército, são exceções isoladas. Veteranos, hoje nonagenários, lutam por reconhecimento: monumentos no Rio e Brasília existem, mas sem o fervor popular. Essa amnesia cognitiva enfraquece a identidade nacional, contrastando com o orgulho italiano.
Legado e Reflexão
A tomada de Monte Castelo prova que brasileiros, quando desafiados, rivalizam com os melhores. Seus 25 mil enviados à Itália não foram "carne de canhão", mas libertadores respeitados por Eisenhower e Clark. Recuperar essa memória exige romper a guerra cognitiva: educação, mídia e políticas públicas que elevem os pracinhas a heróis eternos. Só assim o Brasil honrará quem sangrou por liberdade global e pátria distante. Uma pátria que não cultua seus heróis arrisca esquecer como vencer.
Autor: DIH em FOCO
- Graduado em Direito.
- Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional.
21 de fevereiro de 2026