
A geopolítica não perdoa lacunas. Onde um Estado deixa de ocupar espaço seja no combate ao crime, na defesa das fronteiras ou na articulação diplomática, outros atores ocupam. É nessa chave analítica que os movimentos recentes do governo norte-americano em relação ao Brasil precisam ser compreendidos: não como um raio em céu azul, mas como uma consequência previsível de vulnerabilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas por parte do Estado brasileiro e, simultaneamente, como uma estratégia deliberada de construção narrativa que merece ser examinada com rigor.
O que é o Escudo das Américas
Em 7 de março de 2026, o presidente Donald Trump reuniu líderes de 12 países latino-americanos em seu resort em Doral, na Flórida, para lançar oficialmente o "Escudo das Américas" (Shield of the Americas), uma coalizão militar hemisférica voltada ao combate de cartéis de drogas, organizações criminosas transnacionais e imigração ilegal, além de conter a influência de potências extrarregionais numa referência direta a China e Rússia no continente. A iniciativa é coordenada por Kristi Noem, nomeada Enviada Especial para o programa após ser exonerada do cargo de Secretária de Segurança Interna.
Na prática, o Escudo das Américas funciona como uma aliança de segurança em que os países membros compartilham inteligência, coordenam operações militares e podem solicitar assistência dos EUA para desmantelar infraestruturas do crime organizado.
Participam Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Chile, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica e República Dominicana, todos com governos alinhados ideologicamente a Washington.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, declarou na conferência preparatória que os EUA estão "preparados para partir para o ataque sozinhos, se necessário", invocando expressamente o chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe, que reafirma a "proeminência" de Washington sobre o Hemisfério Ocidental.
Brasil, México e Colômbia não foram convidados, uma exclusão que, em termos geopolíticos, transforma os três maiores países da região em problema, e não em parte da solução.
A designação terrorista: o que está em jogo
Apenas 48 horas após a cúpula de Miami, o governo Trump sinalizou formalmente a intenção de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). A proposta, defendida pelo secretário de Estado Marco Rubio, já estaria em estágio avançado no Departamento de Estado.
Em nota oficial na terça-feira (10/3), Washington declarou considerar as duas facções "ameaças significativas à segurança regional devido ao envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional", embora sem confirmar a data da designação formal.
O chanceler Mauro Vieira ligou para Rubio na noite do domingo (8/3) para tratar do tema e da preparação de uma visita do presidente brasileiro a Washington num sinal de que Brasília compreende a gravidade do momento.
Tecnicamente, o governo brasileiro argumenta que as facções não se enquadram no conceito de terrorismo, por não possuírem motivação ideológica, uma distinção sustentada pelo ex-ministro Ricardo Lewandowski e por parte dos especialistas.
A legislação brasileira define terrorismo como atos violentos motivados por xenofobia, religião, ideologia política ou preconceito, com objetivo de provocar terror social generalizado. Organizações voltadas ao lucro, por essa leitura, configurariam crime organizado transnacional, não terrorismo.
Entretanto, é preciso reconhecer uma realidade incômoda: a objeção técnica não elimina o fato político. O PCC atua em pelo menos 28 países, segundo o Ministério Público de São Paulo. O CV projeta ramificações por toda a América do Sul e mantém conexões com redes europeias.
A letalidade dessas organizações, medida em dezenas de milhares de mortes anuais, supera a de muitos grupos formalmente classificados como terroristas. Washington não está construindo sua narrativa sobre o vazio, está explorando uma brecha real que o próprio Estado brasileiro não conseguiu fechar.
As vulnerabilidades que agravam o cenário
Aqui reside o ponto que nenhuma análise séria pode ignorar: o Brasil chega a este momento de pressão externa em condições de fragilidade interna que amplificam exponencialmente o risco.
A penetração do crime organizado nas estruturas do Estado é um fenômeno documentado por investigações policiais, operações do Ministério Público e relatórios de inteligência ao longo de anos. Não se trata de uma acusação ideológica, mas de uma constatação factual que perpassa governos de diferentes orientações: o tráfico de drogas movimenta cifras que rivalizam com setores inteiros da economia formal, e o poder corruptor desse capital atinge desde instâncias municipais até esferas federais.
Reconhecer essa realidade não é criminalizar a política brasileira, é admitir uma vulnerabilidade sistêmica que, se não enfrentada internamente, será inevitavelmente explorada externamente. E é exatamente o que está acontecendo.
Soma-se a isso décadas de negligência com a defesa nacional. O Brasil, historicamente marcado por uma baixa percepção de ameaça externa, fruto, paradoxalmente, de sua tradição pacífica e diplomática, subfinanciou sistematicamente suas Forças Armadas, suas agências de inteligência e seus sistemas de vigilância de fronteiras.
Com 16.886 quilômetros de fronteira terrestre, dos quais grande parte atravessa regiões amazônicas de difícil acesso, o país convive com rotas de tráfico internacional que operam com relativa liberdade. Quando um país não demonstra capacidade de controlar suas próprias fronteiras, fornece argumento a quem deseja ocupar esse vácuo.
A opinião pública como campo de batalha
Há um terceiro fator que complexifica o cenário e que não pode ser tratado com ingenuidade: uma parcela significativa da população brasileira recebe com simpatia a retórica norte-americana.
Pesquisas de opinião apontam consistentemente a segurança pública como uma das maiores preocupações dos brasileiros. Diante da percepção, muitas vezes justificada, de que o Estado falha em proteger seus cidadãos, o discurso de "guerra total ao crime" proferido por Trump encontra ressonância doméstica. Para uma parte da sociedade, a pressão externa não é vista como ameaça à soberania, mas como possível catalisador de mudanças que a política interna não entrega.
Esse sentimento é real e deve ser compreendido, não descartado como desinformação. Ele reflete uma frustração legítima com a violência cotidiana, com a percepção de impunidade e com a lentidão das respostas institucionais. Contudo, é precisamente essa frustração que a guerra cognitiva busca capturar.
Na lógica das operações de influência, a narrativa não precisa ser inteiramente falsa, basta que seja parcialmente verdadeira e estrategicamente direcionada. Ao identificar um problema real (o crime organizado no Brasil), enquadrá-lo em uma categoria que favorece seus interesses (terrorismo) e apresentar-se como solução (ação militar externa), Washington executa um movimento clássico de construção de legitimidade para uma intervenção.
O contexto estratégico mais amplo
A pressão sobre o Brasil não ocorre em isolamento. Insere-se em uma reconfiguração da estratégia de segurança norte-americana que, pela primeira vez, prioriza o Hemisfério Ocidental acima de todos os demais cenários.
O coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército, observou que nunca antes, em um documento dessa natureza, o hemisfério havia ocupado posição tão central. Isso significa mais atenção ao Brasil, à Amazônia e às rotas comerciais e energéticas sul-americanas.
Os ativos estratégicos brasileiros explicam essa atenção: o pré-sal, as terras raras, os 12% da água doce do planeta, o nióbio, o lítio, a biodiversidade amazônica e uma matriz energética diversificada. Em uma era de competição geopolítica por recursos críticos, o Brasil não é apenas um vizinho hemisférico, é um prêmio estratégico.
A participação do país nos BRICS, com suas relações aprofundadas com China e Rússia, apenas intensifica a urgência de Washington em garantir que esses recursos permaneçam acessíveis aos interesses ocidentais, preferencialmente sob termos ditados por Washington.
A cadeia de eventos como as ações na Venezuela, ameaças à Colômbia, endurecimento contra Cuba e agora pressão sobre o Brasil, revela um padrão: o governo Trump está redesenhando o mapa de influência hemisférica, usando o combate ao narcotráfico como vetor de projeção de poder. Cada nação que resiste ao alinhamento recebe uma camada adicional de pressão.
Projeção de cenários para o Brasil
Cenário 1 — Pressão negociada: Os EUA formalizam a designação terrorista do PCC e do CV, mas a utilizam principalmente como instrumento de barganha diplomática. A moeda de troca seria concessões brasileiras em áreas de interesse norte-americano como limitação de contratos com empresas chinesas em setores sensíveis, cooperação ampliada em inteligência e segurança de fronteiras, e postura mais alinhada a Washington em fóruns multilaterais. A visita do mandatário brasileiro a Trump, ainda sem data, seria o palco dessa negociação. É o cenário mais provável no curto prazo.
Cenário 2 — Fragmentação interna: A classificação terrorista é instrumentalizada no debate doméstico brasileiro, especialmente no contexto eleitoral de 2026. Setores da oposição, com trânsito junto ao governo Trump, conforme relatado pelo Estadão, utilizam a designação como evidência de incompetência governamental no combate ao crime. O tema da segurança pública, já dominante nas pesquisas, ganha uma dimensão internacional que polariza ainda mais o debate e dificulta uma resposta institucional coesa. A soberania se torna refém da política partidária.
Cenário 3 — Escalada operacional: Sob o guarda-chuva do Escudo das Américas e da classificação FTO, os EUA expandem presença de inteligência em áreas de fronteira amazônica, pressionam por operações conjuntas em termos assimétricos e utilizam o cerco regional, com aliados do Escudo ao norte e ao sul do Brasil, para condicionar o espaço de manobra brasileiro. A ameaça de Hegseth de "agir sozinho" ganha materialidade operacional. É o cenário mais extremo, improvável no curto prazo, mas que não pode ser descartado em um horizonte de médio prazo caso as vulnerabilidades internas brasileiras persistam.
O imperativo estratégico
O Brasil enfrenta, simultaneamente, uma ameaça externa que explora suas fraquezas e uma fragilidade interna que legitima a narrativa externa. Sair dessa armadilha exige ações em múltiplas frentes como fortalecer concretamente o combate ao crime organizado, não como concessão a Washington, mas como dever de Estado para com seus próprios cidadãos; recuperar o investimento em defesa e inteligência, de modo que a capacidade de vigiar e proteger as fronteiras não seja terceirizada por omissão; exercer diplomacia ativa e pragmática, mantendo canais abertos com os Estados Unidos sem abdicar da autonomia estratégica; e construir uma narrativa soberana sobre seus próprios desafios, antes que essa narrativa seja escrita por outros.
Não se trata de demonizar os Estados Unidos nem de idealizar a posição brasileira. Trata-se de reconhecer, com a objetividade que a análise geopolítica exige, que a guerra cognitiva opera nos espaços que a negligência deixa abertos. Se o Brasil não ocupar esses espaços com políticas públicas eficazes, com defesa robusta e com clareza estratégica, outros atores o farão. E os termos não serão os nossos.
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza - Bacharel