
Nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, as Nações Unidas marcam o Dia Internacional para a Prevenção do Extremismo Violento enquanto Conducente ao Terrorismo, data criada pela Assembleia Geral para aumentar a consciência pública e reforçar a cooperação internacional sobre um fenômeno que atravessa fronteiras, ideologias e plataformas digitais.
Na mensagem oficial, o secretário-geral António Guterres insiste em dois pontos que, juntos, desmontam um erro recorrente: não basta reagir com polícia e inteligência, e não se combate extremismo ignorando suas causas sociais, políticas e tecnológicas.
A escolha do verbo “prevenir” é decisiva. Em geral, o debate público sobre terrorismo tende a começar no fim da linha, no atentado, na prisão, na operação. A ONU, ao institucionalizar a data (por meio de resolução da Assembleia Geral), sinaliza que a resposta precisa começar antes: no terreno onde se formam vulnerabilidades, onde se alargam ressentimentos e onde a propaganda encontra audiências disponíveis.
A prevenção não é “soft”. É estratégia. E, quando feita com rigor, evita o ciclo de radicalização–recrutamento–violência–repressão que costuma produzir mais trauma e, paradoxalmente, mais terreno fértil para novos extremos.
A mensagem de Guterres chama atenção para como grupos terroristas exploram contextos de instabilidade, fragilidade socioeconômica e tecnologias sem controle adequado para intimidar e recrutar, atingindo sobretudo os mais vulneráveis. Essa tríade ajuda a entender por que o extremismo violento não é um “vírus ideológico” que aparece do nada: ele se acopla a crises reais (desemprego, insegurança, desigualdade), a crises percebidas (humilhação, perda de status, sentimento de injustiça) e a ecossistemas digitais que encurtam o caminho entre a frustração e a adesão a narrativas radicais.
Há um recorte especialmente sensível: jovens e até crianças, cada vez mais expostos a processos de radicalização via redes sociais e ambientes digitais não regulados, incluindo plataformas de jogos. Esse alerta é mais atual do que parece.
A radicalização contemporânea não depende necessariamente de um “líder local” ou de encontros presenciais. Ela pode acontecer por imersão gradual: consumo de conteúdos, comunidades fechadas, memes que normalizam violência, trilhas algorítmicas que reforçam identidade de grupo e hostilidade ao “outro”. Em muitos casos, o recrutamento se apresenta como pertencimento, missão, aventura, reconhecimento, em especial para quem se sente invisível.
É aqui que a ONU faz uma virada importante: medidas de segurança, por si só, não resolvem. Essa formulação não é retórica. Ela está alinhada a marcos da própria organização. Em 2026, a Estratégia Global das Nações Unidas contra o Terrorismo completa 20 anos; e o Plano de Ação da ONU para Prevenir o Extremismo Violento, uma década.
A experiência acumulada sugere que operações de repressão podem ser necessárias para conter ameaças imediatas, mas são insuficientes quando não vêm acompanhadas de políticas que diminuam a oferta de “motivos”, “meios” e “oportunidades” para a radicalização.
Prevenir, então, significa tratar causas estruturais sem cair em simplificações. A mensagem fala em queixas reais ou percepcionadas e em condições que favorecem o terrorismo. Essa distinção é crucial: mesmo quando uma queixa é baseada em desinformação, ela pode produzir efeitos reais na vida social e na disposição para a violência.
E quando a queixa é real, abuso, corrupção, discriminação, violência estatal, ausência de serviços, falta de futuro, o espaço para discursos extremistas cresce. Em termos práticos, a prevenção eficaz precisa combinar redução de vulnerabilidades (proteção social, oportunidades, inclusão) com redução de atratividade das narrativas violentas (educação crítica, diálogo comunitário, mediação de conflitos, construção de confiança institucional).
Guterres aponta três eixos bem concretos: reforçar sistemas educativos, ampliar o espaço cívico e promover diálogo e confiança dentro e entre comunidades. Educação aqui vai além de conteúdo escolar: envolve alfabetização midiática e digital, habilidades socioemocionais, capacidade de lidar com frustração e conflito, e especialmente, ferramentas para reconhecer manipulação, simplificações e desumanização.
Espaço cívico, por sua vez, significa permitir que demandas legítimas encontrem canais pacíficos: associação, participação, imprensa livre, proteção a defensores de direitos. Quando esses canais são fechados, o radicalismo costuma se vender como “a única voz possível”.
O quarto elemento é o mais espinhoso e, ao mesmo tempo, inevitável: o setor privado e as empresas de tecnologia. A ONU chama esse ator para a mesa porque a dinâmica de disseminação mudou. Plataformas não são apenas “meios neutros”; elas organizam atenção, recomendam conteúdo, conectam comunidades e definem o alcance de mensagens.
Se grupos extremistas exploram lacunas regulatórias e mecanismos de viralização, a prevenção precisa discutir mecanismos de proteção: moderação proporcional e transparente, resposta rápida a conteúdo violento, sinalização e redução de alcance para material de recrutamento, cooperação com pesquisadores e autoridades dentro de limites legais, e medidas de design que reduzam incentivos à escalada (por exemplo, recomendação automática para conteúdos cada vez mais extremos).
Há, porém, um limite que a mensagem da ONU faz questão de fixar: todos os esforços devem estar ancorados em direitos humanos e Estado de direito. Isso não é detalhe. Políticas “antiterror” podem facilmente virar atalhos para vigilância indiscriminada, criminalização de dissenso, perseguição a minorias e abuso de poder e isso, além de injusto, pode ser contraproducente: violações de direitos alimentam ressentimento, quebram confiança e fornecem narrativa pronta para recrutadores.
A própria resolução que institui o Dia Internacional reafirma que o terrorismo não deve ser associado a qualquer religião, nacionalidade ou grupo específico. É uma proteção contra estigmas e contra respostas que punem coletivos inteiros pelo crime de poucos.
No fim, o apelo de Guterres é por comunidades resilientes e inclusivas: lugares onde o extremismo não encontre espaço. Resiliência, nesse contexto, é capacidade de absorver choques (crises econômicas, conflitos, desinformação) sem fraturar em ódio e violência. Inclusão é garantir pertencimento sem exigir uniformidade. Entre uma e outra, há um trabalho cotidiano: escola, família, mídia, lideranças locais, políticas públicas e também escolhas de plataforma, tudo isso compõe a prevenção.
Para o Brasil, esse debate é especialmente relevante porque vivemos em ambiente de alta polarização, forte circulação de desinformação e desigualdades persistentes. Prevenir extremismo violento não é importar pânico; é reconhecer riscos e construir “anticorpos” sociais: educação de qualidade, oportunidades reais, instituições confiáveis e tecnologia com responsabilidade. É ação coletiva e é, no fundo, uma política de futuro.
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza - Bacharel