
Há um tipo de profissional que, quando veste o uniforme — seja ele camuflado ou branco — traz não apenas instrumentos técnicos, mas uma convicção silenciosa: que cuidar é, por si só, um ato de construção da paz.
Enfermeiros brasileiros que trabalham em operações de paz e defesa sob a égide de organizações internacionais praticam e carregam esse conhecimento e habilidades com uma consciência que lhes foi incutida pelo mundo exterior.
A história do Brasil nessa área é ampla, difícil e, mais significativamente, um conhecimento digno de ser colocado na conversa sobre a posição da enfermagem nacional no nível mundial.
Uma tradição que se estende por décadas
O Brasil está entre os países fundadores das Nações Unidas e, mesmo antes de as operações de paz serem formalizadas em 1948, já era conhecido por ter uma longa inclinação para a ação multilateral.
Uma primeira experiência concreta vem do envio do chamado Batalhão de Suez, que serviu na Força de Emergência das Nações Unidas no Oriente Médio (UNEF I) de 1957 a 1967, mobilizando cerca de 6.300 militares durante um período de 10 anos.
Desde então, o país esteve envolvido em mais de 60 operações e missões de paz, estabelecendo uma presença que abrange capacidade operacional em complemento às sensibilidades humanitárias. Nessa trajetória, a contribuição da enfermagem, menos visível do que os contingentes de infantaria ou engenharia no passado, torna-se um pilar fundamental.
O Brasil já havia sido enviado para a Operação das Nações Unidas em Moçambique (ONUMOZ) na década de 1990, tendo enviado uma equipe de profissionais de saúde que cuidaram principalmente da população local e das tropas.
Na histórica Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) entre 2004 e 2017, enfermeiros militares brasileiros foram destacados como parte de equipes multidisciplinares encarregadas não apenas do apoio clínico e de emergência aos capacetes azuis, mas do cuidado direto às comunidades haitianas dizimadas por conflitos internos e, posteriormente, por um terremoto em 2010.
Isso explica o nível de complexidade no cuidado em zonas de conflito. Em qualquer prática de cuidado, um enfermeiro que trabalha em uma operação de paz trabalha de maneira significativamente diferente. O profissional atua em situações em que a infraestrutura sanitária é instável ou inexistente, quando os recursos são escassos e onde a instabilidade no contexto exige tomada de decisão rápida, muitas vezes sob pressão extrema.
As tarefas realizadas vão muito além do suporte de saúde típico de campo e incluem triagem em diversas situações de vítimas; estabilização dos feridos em ambientes hostis; prevenção/controle de surtos epidêmicos; assistência materna e infantil em comunidades pobres; e, mais recentemente, treinamento para equipes de saúde locais.
Nessa dimensão final, o treinamento de recursos humanos, pode ser a contribuição duradoura da enfermagem brasileira em tais missões. Quando um enfermeiro militar brasileiro treina agentes comunitários de saúde em um país africano ou caribenho, ele não está apenas transmitindo expertise; está plantando a semente da autonomia em saúde que estará viva muito depois que os capacetes azuis voltarem para seu país de origem. Isso é diplomacia em saúde em sua forma mais verdadeira e transformadora.
Interoperabilidade: atuar em dois mundos — falando múltiplas línguas, não apenas idiomas
A interoperabilidade é também um conceito importante para explicar a enfermagem em operações de paz. Refere-se à capacidade de trabalhar como membros de uma equipe integrada e eficaz, independentemente das nacionalidades, origens e doutrinas dos profissionais que colaboram em tal missão.
Um enfermeiro brasileiro em uma missão da ONU pode ser emparelhado com médicos paquistaneses, paramédicos franceses e voluntários de organizações não governamentais locais. A padronização de protocolos, a adaptabilidade aos protocolos internacionais e a função comunicativa são de importância tanto quanto a competência clínica.
O Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), na Vila Militar do Rio de Janeiro, com atuação tanto em níveis militares quanto civis, participa diretamente desse esforço. É aqui que profissionais de saúde, incluindo enfermeiros, passam por estágios de preparação que imitam os desafios reais das operações — desde dilemas táticos até situações éticas e culturais.
Mais recentemente, em 2025, o Brasil reafirmou sua visão de fortalecer essas capacidades ao participar da Reunião Ministerial sobre Operações de Paz em Berlim e se comprometer a sediar programas internacionais de treinamento e aumentar o número de pessoas em missões humanitárias.
Diplomacia em saúde como ferramenta de política externa
A diplomacia em saúde abrange um sentido maior do que a ajuda direta. Ela cobre como a cooperação em saúde pode ser enquadrada estrategicamente como uma ferramenta para avançar nas relações internacionais, construir confiança e comunicar mensagens humanitárias.
O Brasil há muito usa isso como parte de seu soft power — quando o pessoal de enfermagem é destacado em missões de paz, não apenas salva vidas humanas, mas também demonstra um tipo de conhecimento técnico e compromisso ético que é mais provável de fortalecer a reputação do país dentro do sistema multilateral.
Na prática, isso ocorre na forma de iniciativas como o cuidado de saúde de enfermeiros brasileiros em tempos de crise humanitária, cooperação em programas de vacinação em cenários de conflito e apoio à organização de sistemas básicos de saúde em países frágeis. Cada uma dessas ações é ao mesmo tempo um gesto de cuidado e uma instância de política externa — valores não opostos, mas de fato mutuamente avançados.
O presente e novos horizontes
Em 2025 e 2026, o Brasil aumentou seu papel nas operações da ONU focadas no treinamento de seu pessoal para a Missão de Estabilização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) e no estabelecimento de mais colaboração interministerial que aumentará o contingente brasileiro em missões no exterior.
Um novo Grupo de Trabalho Interministerial foi estabelecido em cooperação com os Ministérios da Justiça, Relações Exteriores, Defesa e o Exército Brasileiro como resposta à comunidade internacional que buscava um chamado claro para que o Brasil se engajasse mais ativamente na manutenção da paz global.
Isso cria oportunidades reais e significativas para a enfermagem. A necessidade de profissionais de saúde qualificados para operações de paz está aumentando, e a reputação do enfermeiro brasileiro — aquele cujo trabalho é baseado em um treinamento generalista rigoroso, que pode trabalhar efetivamente em ambientes adversos e cuja tradição de enfermagem pode ser vista como personalizando o cuidado — é especialmente valorizada.
Uma perspectiva de gênero incorporada mais plenamente nas missões da ONU também aprofundará esse espaço para enfermeiros que podem trazer sensibilidade e competência técnica para contextos de urgência e prioridade no que diz respeito à saúde de mulheres e crianças.
Um convite à reflexão — e à ação
A enfermagem brasileira constitui, em operações de paz e defesa, uma área de atividade entrelaçada com excelência técnica, impacto humanitário e significado geopolítico. O que vem com o conhecimento dessa trajetória não é apenas um exercício de reconhecimento profissional: desafia novos profissionais a pensar sobre como suas capacidades poderiam transcender fronteiras nacionais, tornando áreas inteiras estáveis e, em última análise, construindo um mundo em que o cuidado de saúde se torne não apenas um direito fornecido a um indivíduo, mas um direito disponível para todos.
Para aqueles que desejam observar de perto os muitos lados da profissão — desde o cuidado hospitalar até as trincheiras da paz — espaços que valorizam a enfermagem contemporânea, mesmo em debates e documentação em perfis que apoiam a categoria em plataformas sociais, são lugares essenciais para buscar inspiração e informação. Porque ver a enfermagem em sua totalidade é a primeira parte de transformar admiração em ação.
25 de março de 2026
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