
Introdução
A bota que carrega o soldado é tão crucial quanto a arma que ele empunha. Em meio aos campos minados da Ucrânia e às ruas empoeiradas de Gaza, a indústria de calçados táticos passa por sua maior revolução desde a Segunda Guerra Mundial. Esta reportagem investigativa analisa as certificações, os fornecedores e as tecnologias que definem a mobilidade hiperativa das tropas em 2025, contrastando os padrões da OTAN/ONU com a realidade das Forças Armadas Brasileiras.
1. O Teatro de Operações Moderno: A Exigência por Certificação CA (OTAN/ONU)
No campo de batalha contemporâneo, o soldado não usa mais uma simples "bota". Ele utiliza um equipamento de proteção individual (EPI) de alta complexidade, tecnicamente classificado como Military Combat Boot. Para circular nos círculos de logística da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da Organização das Nações Unidas (ONU), estes itens devem portar a Certificação CA sigla que, no jargão militar, atesta a Cooperação Administrativa ou a conformidade com as Condições de Aceitação do consórcio internacional.
De acordo com especificações técnicas disponíveis em manuais de fornecedores globais, como a chinesa 3515 (fornecedora de múltiplos exércitos), os coturnos utilizados pelas forças da OTAN na Ucrânia (em programas de treinamento e apoio) devem atender a rigorosíssimos padrões de segurança. Exige-se a conformidade com as normas ASTM F-2412-2005 (métodos de teste para proteção dos pés) e ASTM F-2413-2005 (requisitos de desempenho para proteção contra impactos e compressão) .
1.2 Especificações Técnicas no Teatro Oriental (Rússia vs. Ucrânia)
Enquanto a Ucrânia recebe equipamentos de padrão ocidental, a Federação Russa opera predominantemente com calçados de padrão GOST (sistema técnico-militar russo). A principal diferença observada por analistas de campo está na impermeabilização e no isolamento térmico.
· Padrão OTAN (Fornecidos à Ucrânia): Utilizam membranas como Gore-Tex (certificação NATO Stock Number - NSN). A sola deve ser resistente a derramamento de combustível e a temperaturas extremas que variam de -20°C a +40°C. O biqueiraço, embora seja de compósito (para não disparar detectores de metal), atende a padrões de compressão de até 2.500 libras .
·Padrão Russo: Historicamente focam na durabilidade da borracha vulcanizada e no couro cromado (Yuft), priorizando a resistência à lama e à umidade dos rasputitsa (estações de lama), mas com menor ênfase na leveza.
1.2 Oriente Médio: A Guerra Híbrida e a Hiper-Mobilização
No Oriente Médio (Israel, Faixa de Gaza e Cisjordânia), o cenário exige hiper-mobilidade e proteção contra fragmentação. As forças envolvidas, incluindo as Forças de Defesa de Israel (IDF) e forças paramilitares, utilizam coturnos com certificações focadas em perfuração e calor.
As solas utilizadas no deserto precisam ser resistentes a temperaturas de asfalto superiores a 70°C. As certificações da ONU para forças de paz na região (UNIFIL, por exemplo) exigem que o solado tenha resistência química a agentes utilizados em distúrbios civis (como gás lacrimogêneo em estado líquido). A principal queixa de tropas em campo, no entanto, é o peso versus proteção: coturnos com placas balísticas laterais (para proteção contra estilhaços de EOD Explosive Ordnance Disposal) frequentemente causam fadiga severa em patrulhas de 12 horas.
2. O Cenário Brasileiro: A Tríplice Fronteira dos Coturnos
No Brasil, o cenário é igualmente complexo. As três Forças Armadas Exército Brasileiro (EB), Marinha do Brasil (MB) e Força Aérea Brasileira (FAB) possuem especificações distintas, embora unificadas pelo crivo do Comitê Brasileiro de Couro e Calçados (CB-11) e do Comitê de Equipamentos de Proteção Individual (CB-32) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) .
Instituições como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) desempenham um papel crucial no desenvolvimento das especificações técnicas para os calçados de uso profissional das corporações militares brasileiras. O IPT atua como coordenador de comitês de estudo, garantindo que os insumos e produtos finais estejam em conformidade com as normas de segurança vigentes .
2.1 Fornecedores e Especificações ABNT
" O mercado brasileiro de defesa opera sob a égide da Lei de Licitações (Lei 14.133/2021) e das normas da ABNT NBR. As principais empresas fornecedoras das três Forças incluem consórcios nacionais e multinacionais com fábricas instaladas no Polo Industrial de Franca (SP) e no Sul do país.
Força Armada Principais Fornecedores (Indústria Nacional) Norma Técnica (ABNT) Especificações de ProteçãoExército
Brasileiro Atlântida (Calçados), Bull Terrier, Cofra (licenciada) NBR 15836 / NBR 15837 Biqueira de Compósito (Kevlar/fibra de vidro), sola com resistência à perfuração e absorção de energia na região do calcanhar.
Marinha do Brasil Usaflex (linha Operacional), Marlinge NBR 15293 Couro cromo vegetal (resistente à água salgada), sola antiderrapante para convés molhado e resistência à abrasão para ambientes de praia/rocha.
Força Aérea Datum, Vulcabrás (linha Aviação) NBR 16617 (proteção contra Eletricidade Estática) Anti-estática (ESD), sistema de fechamento rápido (velcro ou cordões auto ajustáveis) para evitar riscos de enroscamento em cockpits.
Análise da Proteção e Hiper-Mobilização:
O Exército Brasileiro tem migrado para o modelo Combat Jungle adaptado ao Cerrado e à Amazônia. Exige-se que o calçado tenha furos de drenagem (capacidade de esvaziar a água em menos de 30 segundos) e peso máximo de 1,8 kg o par. A certificação de hiper mobilização exige que o calçado não necessite de "amaciamento" (período de quebra), estando pronto para uso operacional imediato após o desembalado.
A Marinha, por sua vez, adota o Padrão Couro Molhado: o coturno não pode endurecer ou perder aderência ao ser submerso em água salgada, uma especificação de alta complexidade química que poucos fornecedores no mundo dominam. As solas seguem a norma NBR 15293, com coeficiente de atrito mínimo de 0,6 em superfícies molhadas.
3. Conclusão
A Doutrina do Coturno como Ferramenta de Guerra
A análise antropológica do conflito moderno revela que o soldado é, antes de tudo, um pedestre de alto risco. As certificações CA (OTAN/ONU) e as normas ABNT NBR não são meros selos burocráticos; são protocolos de sobrevivência.
No Brasil, enquanto a indústria nacional demonstra robustez técnica através do respaldo do IPT e de comitês internacionais, observa-se uma lacuna logística: a padronização total entre as três Forças ainda é um objetivo distante. Em contrapartida, nos campos de batalha do Leste Europeu, a lição é clara: um coturno que retém água ou perde o solado é uma sentença de amputação por "pé de trincheira" (frieira) ou incapacitação tática.
A próxima fronteira, tanto para a Rússia quanto para o Brasil, será a adoção em massa de solares termoplásticos biodegradáveis (para reduzir o peso logístico) e sensores de pressão embarcados, transformando o coturno em uma unidade de coleta de dados biométricos do combatente um salto que transformará a proteção dos pés em inteligência de campo.
31 de março de 2026
