O Emprego das Terras Raras (ETR) nos Equipamentos Bélicos e Tecnológicos de Guerra

1. Introdução

Os Elementos Terras Raras (ETR) correspondem a um grupo de 17 metais com propriedades físico-químicas singulares, que lhes conferem aplicações críticas em setores de alta tecnologia. Presentes em dispositivos cotidianos, como smartphones e motores elétricos, sua relevância expande-se de forma crucial no aparato militar contemporâneo, fornecendo a base material para a supremacia tecnológica no campo de batalha. Santos-Fuser (2023, p. 28) afirma que esses minerais são “essenciais para a indústria e a defesa dos grandes atores globais”. Partindo dessa premissa, este artigo investiga de que modo os ETR são aplicados nos principais vetores bélicos atuais e quais as implicações de uma cadeia de suprimentos tão concentrada.

2. O Papel das Terras Raras na Tecnologia de Defesa

A condução da guerra moderna é indissociável de um conjunto de materiais invisíveis aos olhos do público. De acordo com Abigail Hunter, diretora-executiva do Center for Critical Materials Strategy, “terras raras aparecem em quase todos os sistemas militares modernos: para guiar mísseis de precisão, lasers e sensores em aeronaves, comunicação para soldados, equipamentos de comunicação, óculos de visão noturna” (apud Kirby, 2026, tradução nossa). Essa onipresença decorre de características magnéticas, ópticas e catalíticas que nenhum outro material consegue replicar com a mesma eficiência em condições extremas.

O valor econômico e estratégico do setor concentra-se em quatro elementos magnéticos principais: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio (RARE EARTH EXCHANGES, apud NDTV, 2025). Segundo Ferreira e Nascimento (2013, p. 23-24), além da indústria de eletrônicos, “equipamentos aeroespaciais, tecnologias de micro-ondas e militares (como sistemas de radar de defesa)” figuram entre os consumidores mais expressivos, ao lado de munições autoguiadas.

2.1. Aeronáutica de combate e sistemas navais

A plataforma que melhor simboliza essa dependência é o caça furtivo F-35 Lightning II, que emprega anualmente cerca de 418 kg de ETR por unidade. Neodímio e praseodímio são essenciais para os ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), que controlam superfícies de voo, alimentam radares AESA e estabilizam sensores laser (Forte, 2025). O térbio, por sua vez, confere “resiliência térmica aos ímãs de neodímio-ferro-boro empregados em sistemas-chave de defesa como aeronaves, submarinos e mísseis” (U.S. DEPARTMENT OF DEFENSE, 2024, tradução nossa).

No ambiente naval, os números são ainda mais expressivos. Um único destróier da classe Arleigh Burke consome cerca de 2.600 kg de terras raras, enquanto o submarino nuclear da classe Virginia demanda aproximadamente 4.600 kg, utilizados em sonares, sistemas de guiagem de mísseis Tomahawk e propulsores de alto desempenho (Forte, 2025).

2.2. Mísseis, sensores e comunicações

A miniaturização e a potência dos ímãs de ETR são vitais para ogivas teleguiadas. Segundo Ali (2025), “esses metais são usados na mais ampla gama de usos militares devido às suas propriedades magnéticas únicas, que incluem jatos, mísseis, drones, lasers e uma gama de tecnologias de propulsão” (tradução nossa). A presença de escândio em ligas de alumínio também permite a construção de estruturas aeronáuticas mais leves e resistentes, ampliando alcance e capacidade de carga bélica (Ndtv, 2025).

3. Concentração da Cadeia Produtiva e Riscos Geopolíticos

O calcanhar de Aquiles dessa arquitetura tecnológica está na origem das matérias-primas. A China controla aproximadamente 91% da capacidade mundial de refino de ETR e 94% da fabricação de ímãs (INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY, apud Kirby, 2026). Mais de 99,9% do suprimento global de térbio, por exemplo, passa por refinarias chinesas. De acordo com Santos-Fuser (2023, p. 27), “a escassez de TR pode afetar a economia de grandes atores globais e gerar de tensões comerciais a conflitos militares”.

Essa concentração tornou-se arma geopolítica de fato: em abril de 2025, Pequim impôs licenças especiais para exportação de sete ETR e ímãs, gerando ameaças de paralisação em fábricas ocidentais (Kirby, 2026). Para mitigar tal vulnerabilidade, o Departamento de Defesa dos EUA investiu US$4,2 milhões apenas no desenvolvimento de produção doméstica de térbio a partir de lâmpadas fluorescentes recicladas, reconhecendo que “este prêmio adiciona uma fonte doméstica para um dos elementos terras raras mais difíceis de obter” (U.S. DEPARTMENT OF DEFENSE, 2024, tradução nossa).

Ali (2025) salienta que a reciclagem de ímãs de turbinas eólicas e discos rígidos antigos desponta como alternativa viável, exigindo investimento relativamente modesto e podendo atender a demanda militar estimada em apenas 0,1% do consumo civil total de ETR.

4. Conclusão

As terras raras constituem o alicerce material da superioridade bélica contemporânea. Sem neodímio, disprósio ou térbio, sistemas como o F-35, mísseis hipersônicos e redes de comunicação criptografada perdem potência, precisão ou simplesmente deixam de funcionar. A concentração da cadeia produtiva sob controle chinês representa risco estratégico imediato para as potências ocidentais, impulsionando políticas de diversificação de fontes, incentivo à mineração doméstica e reciclagem. A capacidade de garantir acesso estável a esses elementos definirá, em grande medida, o equilíbrio de poder militar nas próximas décadas.

Referências

ALI, Saleem. Recycling Rare Earth Minerals Can Address Military Demand. Forbes, [S.l.], 12 out. 2025. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/saleemali/2025/10/12/recycling-rare-earth-minerals-can-address-military-demand/. Acesso em: 10 maio 2026.

FERREIRA, Flávia Alves; NASCIMENTO, Marisa. Terras Raras: aplicações atuais e reciclagem. Rio de Janeiro: CETEM/MCTI, 2013. (Série Tecnologia Mineral, 91). Disponível em: https://mineralis.cetem.gov.br/bitstream/cetem/1827/1/stm-91.pdf.Acesso em: 10 maio 2026.

FORTE. Terras Raras: os minerais invisíveis que movem o poder militar dos EUA. Forças Terrestres, [S.l.], 4 ago. 2025. Disponível em: https://www.forte.jor.br/2025/08/04/terras-raras-os-minerais-invisiveis-que-movem-o-poder-militar-dos-eua/. Acesso em: 10 maio 2026.

KIRBY, Jen. Rare earth reboot: US on the hunt. Global Defence Technology, [S.l.], n. 157, primavera 2026. Disponível em: https://defence.nridigital.com/global_defence_technology_spr26/rare_earth_reboot_us_on_the_hunt. Acesso em: 10 maio 2026.

LOCKHEED, Martin.The F-35's Unrivaled Capabilities.Disponível em:https://www.lockheedmartin.com/en-us/products/f-35.html?hl=pt-BR. Acesso em: 11 mai. 2026.

NDTV. Magnets, fighter jets, golf clubs, smartphones: what are ‘rare earths’ for. NDTV World News, [S.l.], 3 dez. 2025. Disponível em: https://www.ndtv.com/world-news/magnets-fighter-jets-golf-clubs-smartphones-what-are-rare-earths-for-9740629. Acesso em: 10 maio 2026.

SANTOS-FUSER, Lucivânia Nascimento dos. A geopolítica das Terras Raras e a inserção do Brasil. Geopolítica(s): revista de estudios sobre espacio y poder, Madrid, v. 14, n. 1, p. 27-50, 2023. Disponível em: https://revistas.ucm.es/index.php/GEOP/article/download/79921/4564456564634. Acesso em: 10 maio 2026.

U.S. DEPARTMENT OF DEFENSE. DOD awards $4.2 million to increase production of terbium and other rare earth elements. Press Release, Washington, DC, 9 set. 2024. Disponível em: https://www.defense.gov/News/Releases/Release/Article/3898948/. Acesso em: 10 maio 2026.

  • Prof. Me. Carlos Luiz Dias - Engenheiro de Produção Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO). Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ). Membro do InstitutoTherezinha de Castro (Escola Superior de Guerra-ESG). Sócio Fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH/BRASIL). Assessor de Comunicação Social (ADESG-NACIONAL). GRUPOS DE PESQUISAS QUAL FAÇO PARTE; 1) Grupo de pesquisa: OBSERVATÓRIO DE SEGURANÇA E DEFESA Líder: Prof Pós Doutor Jacintho Maia Neto. Defesa Instituição do grupo: Instituto Therezinha de Castro - ITC.Escola Superior de Guerra - ESG. Endereço para acessar este espelho: dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/0444058833860117 2) Objetivos: O Observatório de Segurança e Defesa ao estudar e compreender a ambiência da área de Segurança e Defesa, sob a ótica da gestão, busca contribuir com o debate na área da Defesa. GEOPOLÍTICA DO BRASIL Líder: Prof. Pós-Doutor Guilherme Sandoval Góes. Área Predominante: Defesa e Geopolítca Instituição do grupo:Instituto Therezinha de Castro - ITC. Escola Superior de Guerra - ESG. Espelho: https://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/784267

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