
Introdução
Nas primeiras horas de 13 de junho de 2025, o espaço aéreo iraniano foi violado por uma das operações militares mais complexas e audaciosas do século XXI. Designada pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) como Operação Am Kalavi (ou Leão Furioso, conforme diferentes fontes), a investida não apenas atingiu instalações nucleares estratégicas e bases de mísseis balísticos, mas também expôs uma nova doutrina de guerra aérea que combina inteligência humana no terreno, tecnologia stealth e uma logística de abastecimento reinventada.
Esta reportagem investigativa analisa, com base em fontes documentadas e renomadas incluindo relatórios do Jerusalem Post, Begin-Sadat Center for Strategic Studies (BESA) e publicações especializadas em defesa os detalhes das operações, os perfis dos pilotos envolvidos, os arsenais utilizados e os desafios logísticos superados para que caças israelenses alcançassem alvos a até 2.000 quilômetros de distância.
1. A Escalada: O Contexto da Operação
De acordo com análises do Begin-Sadat Center for Strategic Studies (BESA), o ataque de junho de 2025 não foi um evento isolado, mas sim o ápice de uma doutrina israelense de prevenção que remonta ao bombardeio do reator de Osirak no Iraque (1981) e à destruição do reator sírio em Deir ez-Zor (2007) .
O Dr. Dany Shoham, ex-analista sênior da inteligência militar israelense, destaca que, ao contrário das operações anteriores, o ataque ao Irã foi “extraordinariamente desafiador” devido à dispersão das instalações nucleares iranianas, que estavam operacionais e enriquecendo urânio, e à distância de aproximadamente 1.500 a 2.000 quilômetros das bases israelenses.
O gatilho imediato foi o término de um prazo de 60 dias estabelecido pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, para que o Irã renovasse um acordo nuclear. No dia seguinte à expiração do prazo, a Operação Am Kalavi foi deflagrada, visando “o coração do programa de enriquecimento nuclear iraniano em Natanz” e outros três locais fortificados, conforme declarou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
2. Os Pilotos: Identidades e a Contrapropaganda Iraniana
Em um movimento de inteligência e guerra psicológica, a República Islâmica do Irã, por meio da Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), divulgou em agosto de 2025 o que chamou de “perfis abrangentes” dos pilotos israelenses envolvidos nos ataques.
Segundo a agência Tehran Times, a inteligência iraniana afirmou ter acesso não apenas a nomes e detalhes de unidades, mas a “localizações residenciais precisas, imagens de satélite das residências e até registros de manuseio de equipamentos” .
Entre os nomeados está Major Yael Ash, comandante-adjunta do Esquadrão 119 — conhecido como “Esquadrão Morcego”. A divulgação de sua identidade, incluindo sua linhagem familiar (ela é neta do Major Shimon Ash, piloto desaparecido na Guerra do Yom Kippur), representou uma escalada na tentativa de Teerã de neutralizar o que chamou de “fachada de Hollywood” do regime israelense .
A divulgação das identidades, segundo analistas citados pelo IRIB, visa dificultar a segurança operacional da força aérea israelense, forçando a realocação de pessoal para “edifícios escolares e outras estruturas civis” como forma de proteção, uma alegação que não pôde ser verificada de forma independente .
3. Detalhamento das Operações: Táticas de Economia de Combustível e Supremacia Aérea
A principal inovação tática que viabilizou a operação em larga escala foi revelada pelo The Jerusalem Post em março de 2026: uma nova técnica de decolagem que elimina a necessidade crítica de reabastecimento para muitos caças.
“A nova tática é que os caças da força aérea acelerem para grande altitude em uma trajetória muito mais rápida e íngreme ao decolar de Israel para economizar combustível”, explicou a reportagem. Ao atingir altitudes elevadas rapidamente, o atrito com o ambiente atmosférico é reduzido, resultando em menor consumo de combustível.
O impacto operacional foi monumental:
Nos ataques anteriores (abril e outubro de 2024, junho de 2025), o reabastecimento era um “elemento crítico” que limitava o número de aeronaves.
Na nova campanha, a Força Aérea Israelense conseguiu enviar entre 50 e 100 aeronaves por surtida, carregando cerca de 250 bombas por missão, um aumento significativo em comparação com as 80-90 bombas por surtida em junho de 2025 .
Fontes da IDF citadas pelo Jerusalem Post afirmaram que, em 18 dias de campanha, a força aérea realizou o equivalente a um ano inteiro de ataques em circunstâncias normais. Este volume de fogo permitiu a destruição completa de alvos que anteriormente só haviam sido atingidos em 20% de sua extensão .
4. Os Caças e o Armamento: Precisão Cirúrgica e Letalidade
A Zona Militar, publicação especializada em defesa, detalhou o mix de aeronaves e armamentos empregados na Operação Leão Furioso. Aproximadamente 200 aeronaves de combate participaram, incluindo:
- F-35I Adir (stealth): Utilizados nas fases iniciais para supressão das defesas aéreas inimigas (SEAD).
- F-15D Baz e F-15I Ra’am: Responsáveis pela superioridade aérea e ataques com bombas guiadas GBU-31 (JDAM).
- F-16I Sufa: A “mula de carga” da operação, equipada com mísseis ar-ar AIM-120B AMRAAM e o novo míssil balístico ar-superfície RAMPAGE.
O Diferencial RAMPAGE
O míssil RAMPAGE, fabricado pela Elbit Systems, foi um dos protagonistas do ataque. Com peso de 580 kg e alcance entre 150 e 250 km, ele opera no conceito “fire-and-forget” (disparou e esqueceu), guiado por sistema inercial e por satélite com capacidade anti-bloqueio.
Segundo o fabricante, o RAMPAGE possui um erro circular provável (CEP) inferior a 10 metros, permitindo que os pilotos israelenses atacassem alvos iranianos sem adentrar o espaço aéreo mais densamente defendido .
Além disso, a Defensemirror reportou que o Ministério da Defesa israelense revelou que muitas das armas utilizadas, incluindo sistemas de inteligência artificial para tomada de decisão digital, foram desenvolvidas ao longo de “duas décadas especificamente para este cenário” .
5. Abastecimento e Logística: O Calcanhar de Aquiles
A distância entre Israel e o Irã impõe um dos maiores desafios logísticos da aviação militar: o reabastecimento em voo. A Israel Defense publicou uma análise detalhada sobre os gargalos enfrentados.
A Frota Envelhecida
Israel opera uma frota de tanques KC-707 que são considerados antigos e não totalmente compatíveis com as aeronaves F-35 modernas. Durante os 12 dias de combate, esses aviões-tanque tiveram que realizar centenas de reabastecimentos em voo ao longo de uma distância de aproximadamente 1.500 quilômetros .
A Negativa Americana
Um ponto de tensão diplomática surgiu quando o Departamento de Defesa dos EUA negou publicamente que aeronaves americanas tivessem fornecido reabastecimento para os caças israelenses. No entanto, especialistas em aviação internacionais expressaram ceticismo sobre como os antigos KC-707 conseguiram suportar a carga operacional sem assistência .
Soluções Criativas
Para contornar a limitação, a IAF utilizou três estratégias principais, conforme apurado:
1. Tanques de combustível conformais (CFTs): Utilizados em F-15 e F-16, aumentam o alcance sem sacrificar pontos de fixação de armas.
2. Software e ajustes nos F-35: Melhorias nos tanques internos de combustível e ajustes de software permitiram que o caça stealth voasse distâncias maiores sem reabastecer.
3. Técnica de decolagem íngreme: Como mencionado, a economia de combustível na subida foi decisiva para reduzir a dependência dos petroleiros.
6. A Operação Terrestre: Mossad Dentro do Irã
A matéria investigativa publicada pela NewsBreak (em parceria com o Axios) e pelo Washington Examiner revela um componente até então inédito na guerra entre Israel e Irã: a utilização de uma base secreta dentro do próprio território iraniano.
De acordo com fontes israelenses oficiais citadas por Barak Ravid, a Mossad estabeleceu uma base de drones perto de Teerã meses antes do ataque. Os drones foram desmontados e contrabandeados para o Irã, escondidos em estruturas que variavam de telhados de galpões a veículos modificados .
No momento do ataque principal:
- Comandantes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) se reuniram em um bunker para coordenar a resposta, mas Israel já conhecia a localização exata e destruiu o local, matando o comandante geral e os chefes das forças de drones e defesa aérea.
- Veículos armados posicionados perto de lançadores de mísseis superfície-ar foram ativados remotamente para destruir as defesas.
- A base de drones da Mossad lançou ataques contra lançadores de mísseis balísticos na base de Esfajabad, perto de Teerã, impedindo que fossem disparados contra Israel .
“O fato de não haver ninguém para dar a ordem neutralizou uma resposta imediata iraniana”, declarou um oficial israelense anônimo ao Axios .
7. Resultados e Retaliações
Em retaliação, o Irã lançou cerca de 100 drones contra Israel, que foram amplamente interceptados. No entanto, a Mehr News Agency (agência semi-oficial iraniana) reportou em março de 2026 que o exército iraniano realizou ataques de drones contra “instalações de abastecimento de combustível” e tanques de armazenamento no Aeroporto Ben Gurion, visando justamente a logística de reabastecimento que havia sido crucial para os ataques israelenses .
Do ponto de vista estratégico, o BESA Center concluiu que o ataque causou “danos severos, mas não a eliminação completa” do programa nuclear iraniano, classificando o resultado como “misto”. Enquanto Israel demonstrou uma capacidade operacional impressionante, o Irã reteve grande parte de seu know-how nuclear e sua capacidade de reconstrução .
Conclusão
Os bombardeios israelenses em território iraniano em 2025-2026 representam uma nova era na guerra aérea de longo alcance. Ao combinar inovações táticas (como a decolagem em alta velocidade para economizar combustível), armamentos de precisão de última geração (RAMPAGE, JDAM) e uma integração sem precedentes entre inteligência humana no terreno (Mossad) e poder aéreo, a IDF redefiniu os parâmetros do que é possível em um conflito regional.
A logística continua sendo o fator limitante. A dependência de tanques KC-707 envelhecidos e a negativa pública de apoio americano destacam a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos de Israel, que aguarda a chegada de novas aeronaves KC-46A para solidificar sua capacidade de projeção de poder.
Enquanto isso, a divulgação das identidades dos pilotos pelo Irã serve como um lembrete de que, na guerra moderna, os operadores por trás dos joysticks se tornaram alvos tão valiosos quanto as próprias plataformas que pilotam, inaugurando uma era de vigilância pessoal e guerra assimétrica que vai além do campo de batalha físico.
27 de março de 2026
Referências
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