Irã, Estados Unidos e Israel — Quando a Guerra Deixa de Ser Só Cinética e Passa a Ser Digital

Ao se analisar a relação entre Irã, Estados Unidos e Israel no contexto atual, nota-se claramente que a guerra deixou de ser entendida apenas como na tradicional arena do campo de batalha, e deixou de existir? Não, ela se ampliou. Hoje, parte significativa deste atrito se faz no silêncio, interminável e, muitas vezes, invisivelmente no domínio digital.

A mudança é estruturante. Por décadas, poder era equivalência a capacidade de destruição física, a exércitos, arsenais, presença de campo. Tal situação ainda existe, mas deixou de ser suficiente para explicar como se processam de fato os conflitos. O centro de gravidade morfou para algo menos tangível, mas mais decisivo: informação. Quem cedo entende decide melhor. Quem decide mais rápido ganha.

Israel construiu sua estratégia de segurança exatamente sobre esta lógica. Inserido em um ambiente regional de elevadíssima tensão, não pode contar somente com a capacidade reativa. Ele precisa antecipar. Isso faz com que um aparelho de inteligência de altíssima integração faça necessário, onde dados de diversas fontes, comunicações, movimentações, padrões de comportamento, são analisados em tempo real. E aqui o domínio digital se torna fundamental, pois aqui flui a informação, aqui ela é capturada aqui ela é transformada em conhecimento acionável. Neste sentido, redes e sistemas deixam de ser apenas infraestrutura técnica e passam a ser ativos estratégicos de primeira ordem.

Do outro lado, o Irã apresenta uma outra lógica, que se baseia na lógica da assimetria. Uma vez ciente de que não se encontra em condições equitativas em termos de força militar convencional, o Irã aposta numa estratégia de desgaste por meio do tempo. O espaço digital fornece exatamente esse tipo de oportunidade. Mais do que no mundo físico, nele, pode-se agir ativamente, persistente e dispersamente, e com o menor custo relativo. As ações nem sempre precisam ser espetaculares para terem efeito, pois muitas vezes têm, antes de tudo, a intenção de mapear sistemas, de testar limites, de coleta de informações, e de manter a oposição sob pressão permanente. Com isso cria-se, então, um ambiente de tensão constante, no qual o conflito nunca se interrompe completamente.

Os Estados Unidos são então a entrada para o nível da escala e da coordenação. Sua capacidade não é apenas a do poder do exército, mas, acima de tudo, à integração entre a tecnologia, a inteligência e a decisão estratégica. Para o espaço digital, isso quer dizer atuação no nível global, com a articulação dos dados com várias fontes e o apoio das respostas rápidas. O ponto forte dos EUA se encontra, portanto, nessa capacidade de relacionar as diferentes dimensões do poder, em termos militares, tecnológicos e informacionais, em um único fluxo estratégico.

O que torna então mais complicado o cenário e a própria natureza do ambiente digital. Ao contrário do campo, ele não possui fronteiras claras. Um ataque pode provir de muito longe, pode atravessar muitos países, pode, por fim, não apresentar autoria, ou ainda, ela não é identificável com facilidade. Daí resulta um campo de ambiguidade tal que transforma a própria lógica de resposta. Não é sempre possível responder imediatamente, e muitas vezes a resposta deve ser calibrada a partir da evidência incompleta.

Além disso, o conflito digital não requer de grandes eventos para sua ocorrência. Este é contínuo, refletido nas tentativas de acesso ao sistema, em atividades de espionagem silenciosa, operações de influência e pela luta constante pela informação. É uma espécie de guerra que não começa em um dia D ou se cessa com um tratado de paz. Apenas continua, com sua intensidade variando.

Outro fato importante é sobre a percepção. No espaço digital, nesta estrutura, disputa-se não apenas infraestrutura ou acesso, mas também narrativa. A interpretação, o compartilhamento e a compreensão dos eventos tornam-se parte do conflito. Isso tende a ampliar o espectro da guerra, saindo apenas da esfera dos governos para ir na direção da sociedade.

O que se percebe, ao fim, é a transformação da forma de se exercer o poder. A força, continua a ter seu sentido, mas já não é suficiente. Este diferencial encontra-se na habilidade de entender o ambiente, agregar informações e produzir efeitos rapidamente e com precisão. A guerra, neste sentido, deixa de ser apenas física e torna-se também, digital, mais silenciosa, mais constante e, em muitos sentidos, mais decisiva.

Esse é o novo padrão de confronto: menos visível, mais presente; menos episódico, mais contínuo. Uma guerra que ocorre todos os dias, mesmo quando não aparece.

Referências


  • Engenheiro Eletricista pela Universidad de Santiago de Chile, com especialização em Automação Industrial pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e pós-graduação em Gestão da Segurança da Informação pela Universidade de São Paulo (USP/IPEN). Possui MBA em Transformação Digital pela USP (POLI/LARC) e MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Atua há mais de 20 anos em Tecnologia da Informação, Segurança Cibernética e Governança de TI, com experiência em setores financeiros, telecomunicações e infraestrutura crítica. Especialista em inovação tecnológica, Inteligência Artificial aplicada à segurança e cyberwar, possui mais de 20 certificações e formações internacionais, incluindo programas da Yale University, Rochester Institute of Technology, Erasmus University Rotterdam, SUNY, CISCO Networking Academy, FIA Business School, Universidade Presbiteriana Mackenzie e o programa POLINAV – Seguridad de Redes de Comunicaciones, na Politécnica Naval da Armada de Chile.


     

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