O continente africano, em 2026, continua a ser um cenário de complexos desafios, com múltiplos conflitos e crises humanitárias que demandam atenção global. Da instabilidade política na Guiné-Bissau às insurgências violentas na República Democrática do Congo (RDC), Moçambique e Nigéria, passando pela catástrofe humanitária no Sudão e por inundações devastadoras, a situação exige uma análise aprofundada de suas causas e consequências.
Na República Democrática do Congo (RDC), a região leste permanece em um estado de intensa violência, impulsionada pelo conflito entre o governo e o grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23). Em um esforço para desescalar a crise, o Presidente de Angola, João Lourenço, também presidente da União Africana, propôs um cessar-fogo, aceito pelo Presidente da RDC, Félix Tshisekedi, em fevereiro de 2026. Angola foi mandatada para facilitar um “diálogo inter-congolês”, mas a eficácia da mediação é incerta, dada a violação de acordos anteriores. A presença do M23 em territórios ricos em minérios e as acusações de apoio do Ruanda ao grupo, com supostas pretensões territoriais, complicam o cenário. A transição da presidência da União Africana para o Burundi adiciona incerteza à continuidade da mediação [1].
O Sudão enfrenta a maior crise humanitária da atualidade. O conflito civil, iniciado em abril de 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), completou mil dias em janeiro de 2026, com mais de 150.000 mortes de civis. A ONU classificou a situação como uma “catástrofe evitável”, alertando para o risco de novos crimes de guerra e fome generalizada. A região de Darfur, em particular, tem sido palco de atrocidades. A complexidade do conflito e a dificuldade de acesso humanitário exacerbam o sofrimento de milhões de pessoas, que enfrentam deslocamento, escassez de alimentos e violência [2].
A Guiné-Bissau vive marcada pela instabilidade política após o golpe de Estado de novembro de 2025. A CPLP e a União Africana (UA) mediam a crise, mas a situação permanece volátil. A expulsão de embaixadores da UE da Casa dos Direitos por agentes armados evidencia a fragilidade do estado de direito. A nomeação de um mediador pela UA gerou críticas por um possível “branqueamento” do poder militar, e a UA suspendeu o país de suas atividades, sublinhando a gravidade da crise [3].
Em Moçambique, a província de Cabo Delgado é assolada por uma insurgência extremista desde 2017, que já causou quase 6.500 mortes. A segurança na região é precária, com ataques persistentes apesar da presença de forças de segurança. A violência gerou um deslocamento massivo e uma profunda crise humanitária [4].
A Nigéria também enfrenta uma insegurança persistente. Um ataque recente, em fevereiro de 2026, deixou pelo menos 162 mortos no estado de Kwara. A violência no país é multifacetada, envolvendo conflitos entre agricultores e pastores e a atuação de células terroristas, com mais de 40.000 mortos desde o início da insurgência [5].
A região do Sahel (Burkina Faso, Chade, Níger, Mali) é outro ponto crítico, caracterizada por conflitos prolongados, golpes de Estado e graves crises humanitárias, tornando-se um epicentro de violência extremista. A instabilidade política e a presença de grupos armados não estatais contribuem para o deslocamento de milhões de pessoas e a insegurança alimentar [6].
Além dos conflitos, Moçambique foi atingido por inundações devastadoras na província de Gaza em 2026, deixando milhares de desabrigados e destruindo infraestruturas. Mais de 550 km de estradas foram danificados, dificultando a ajuda humanitária. O governo prioriza a construção de uma barragem para mitigar futuras cheias, mas a recuperação será um desafio de longo prazo [7].
Em suma, o panorama africano em 2026 é de grande complexidade, com uma intersecção de conflitos, instabilidade política, crises humanitárias e desastres naturais. A mediação regional e internacional, embora essencial, enfrenta obstáculos significativos. A comunidade internacional tem um papel crucial no apoio aos esforços de paz, na assistência humanitária e na promoção do desenvolvimento sustentável para enfrentar as raízes profundas dessas crises. A atenção contínua e a colaboração multifacetada são imperativas para aliviar o sofrimento e construir um futuro mais estável para o continente.
Referências
[1] RFI. (2026, 10 de fevereiro). Reunião com Félix Tshisekedi em Luanda: “Angola é um mediador nato do conflito da RDC”. Disponível em: https://www.rfi.fr/pt/programas/convidado/20260210-reuni%C3%A3o-com-f%C3%A9lix-tshisekedi-em-luanda-angola-%C3%A9-um-mediador-nato-do-conflito-da-rdc
[2] ONU News. (2026, 9 de janeiro). Conflito no Sudão completa 1.000 dias com agravamento da crise humanitária. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2026/01/1852030
[3] RTP Notícias. (2026, 11 de fevereiro). UA lamenta retrocessos na estabilidade política e segurança no continente africano. Disponível em: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/ua-lamenta-retrocessos-na-estabilidade-politica-e-seguranca-no-continente-africano_n1718262
[4] Observador. (2026, 13 de fevereiro). Cabo Delgado. Quase 6.500 mortos desde início da insurgência. Disponível em: https://observador.pt/2026/02/13/quase-6-500-mortos-desde-o-inicio-da-insurgencia-em-cabo-delgado-segundo-organizacao/
[5] O Globo. (2026, 4 de fevereiro). Ataque armado na Nigéria deixa ao menos 162 mortos. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/02/04/ataque-armado-na-nigeria-deixa-ao-menos-162-mortos-celulas-terroristas-diz-governador.ghtml
[6] UN News. (2026, 29 de janeiro). Violence roiling Nigeria extends beyond religious lines. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2026/01/1166857
[7] Correio da Manhã Canadá. (2026, 5 de fevereiro). Moçambique considera prioridade construir barragem em Gaza para conter cheias. Disponível em: https://www.correiodamanhacanada.com/mocambique-considera-prioridade-construir-barragem-em-gaza-para-conter-cheias/
Autor: DIH em FOCO
- Graduado em Direito.
- Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional.
15 de fevereiro de 2026


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