
O anúncio feito por Donald Trump em 30 de julho de 2026, trazendo a notícia de um acordo para o desarmamento completo do Hamas, recolocou no centro das atenções mundiais uma das etapas mais delicadas e complexas de qualquer jornada rumo à paz. O presidente norte-americano definiu o consenso alcançado no âmbito do Conselho de Paz como um avanço monumental para construir uma segurança duradoura na região. No dia seguinte, o próprio movimento palestino confirmou sua adesão a uma versão inicial desse roteiro, selando o encerramento de longos meses de intensas negociações conduzidas com o apoio fundamental de mediadores do Egito, do Catar, da Turquia e dos próprios Estados Unidos.
Essa importante aliança diplomática apoia-se diretamente nas diretrizes do plano de vinte pontos apresentado por Washington em setembro de 2025, além de contar com o respaldo institucional da Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A estrutura prevê o inventário e o armazenamento das armas pesadas remanescentes sob supervisão palestina, com transferência gradual do poder a um comitê de tecnocratas independentes. À medida que o processo avança, as forças israelenses se retirariam de forma faseada, enquanto uma Força Internacional de Estabilização atuaria ao lado de uma nova polícia palestina.
Para o leitor menos familiarizado com a linguagem técnica das operações de paz, convém esclarecer o conceito que sustenta toda essa arquitetura. O que está em curso em Gaza é, na essência, uma tentativa de aplicar o modelo conhecido pela sigla DDR, que significa Desarmamento, Desmobilização e Reintegração. Trata-se de um instrumento consagrado pela Organização das Nações Unidas ao longo das últimas décadas, empregado em contextos tão distintos quanto Serra Leoa, Colômbia, Libéria e Moçambique.
O primeiro pilar, o desarmamento, consiste na coleta, no registro, no controle e na eventual destruição das armas leves, pesadas e munições em posse dos combatentes. Não se trata apenas de recolher fuzis. Envolve mapear depósitos, túneis, sítios de produção militar e todo o arsenal acumulado ao longo de anos de conflito. A supervisão costuma ser confiada a uma terceira parte neutra, justamente para evitar que a entrega seja lida como rendição a um dos lados.
O segundo pilar, a desmobilização, refere-se à dissolução formal das estruturas militares e das cadeias de comando armadas. Os combatentes deixam oficialmente a condição de força beligerante, muitas vezes reunidos em locais de acantonamento onde passam por triagem e registro. É um momento simbólico e prático de enorme sensibilidade, pois desfaz identidades construídas durante anos de guerra e exige garantias de segurança para quem entrega as armas.
O terceiro pilar, a reintegração, é o mais longo e o mais difícil de todos. Consiste em reinserir os antigos combatentes na vida civil por meio de emprego, educação, apoio psicossocial e reconstrução do tecido comunitário. Sem essa etapa, o desarmamento e a desmobilização tornam-se meras formalidades, pois combatentes ociosos e sem perspectivas econômicas tendem a retornar às armas ou a migrar para novas milícias e redes criminosas.
A experiência internacional demonstra que a ausência de reintegração efetiva foi a causa de inúmeras recaídas em conflitos que pareciam encerrados. Estudos consolidados sobre o tema apontam que a fase de reintegração é frequentemente subfinanciada e tratada como apêndice secundário, quando na verdade determina o sucesso ou o fracasso de todo o esforço anterior. A literatura especializada é enfática nesse ponto.
Segundo Muggah e O'Donnell (2015), os processos de DDR fracassam com maior frequência não por falhas na coleta de armamentos, mas pela incapacidade dos atores externos de sustentar programas de reintegração ao longo do tempo, o que exige recursos, instituições funcionais e um horizonte político minimamente estável para os ex-combatentes.
Essa advertência é particularmente relevante quando se observa o cenário de Gaza. O território enfrenta destruição em larga escala, colapso de serviços básicos e uma população de mais de dois milhões de pessoas em condições humanitárias severas. Aplicar um modelo de reintegração em um ambiente sem economia funcional, sem instituições consolidadas e sem clareza sobre a governança futura representa um desafio de proporções raramente vistas em outras experiências.
Há ainda uma particularidade que distingue o caso palestino da maioria dos processos anteriores. Em Serra Leoa ou na Libéria, os combatentes eram, em regra, integrantes de facções que disputavam o poder interno. No caso do Hamas, trata-se de um movimento com dimensão política, social e religiosa profundamente entrelaçada, o que torna a separação entre estrutura armada e organização civil consideravelmente mais complexa do que os manuais preveem.
O próprio texto do acordo reflete essa complexidade. A liderança do movimento, agora sob o comando de Khalil al-Hayya, insistiu na fórmula de inventário e armazenamento das armas sob supervisão palestina, recusando qualquer entrega direta a Israel. A ordem estabelecida prevê a transferência inicial do armamento policial e, apenas ao final, das armas pessoais e pesadas, sinalizando cautela e desconfiança quanto ao cumprimento das etapas.
Do ponto de vista ocidental, o entendimento representa uma oportunidade concreta de estabilizar uma região que há décadas alimenta instabilidade em todo o Oriente Médio. A liderança diplomática exercida pelos Estados Unidos, ao articular um arranjo multilateral com apoio de potências regionais e respaldo do Conselho de Segurança, demonstra a capacidade ocidental de conduzir soluções negociadas em cenários de altíssima complexidade.
A legítima preocupação de Israel com a própria segurança também merece registro. O Estado israelense conviveu com ataques originados a partir do território de Gaza e possui razões concretas para condicionar sua retirada à verificação efetiva do desarmamento. A exigência de garantias sólidas antes de qualquer recuo militar reflete uma postura prudente diante de um histórico de compromissos que nem sempre foram integralmente honrados pela outra parte.
É natural, portanto, que existam vozes céticas quanto à viabilidade do acordo. Autoridades israelenses manifestaram dúvidas sobre a disposição real do movimento palestino em entregar seu arsenal, e o próprio Hamas condicionou o desarmamento pesado ao cumprimento integral dos compromissos assumidos no cessar-fogo firmado em Sharm el-Sheikh, em outubro de 2025. Essa desconfiança mútua constitui o principal obstáculo prático à implementação.
O impasse revela uma dinâmica clássica dos processos de paz, na qual cada parte condiciona seus próprios passos ao cumprimento prévio dos passos da outra. Esse dilema de segurança já foi documentado em inúmeros conflitos e explica por que tantos acordos naufragam na fase de execução, mesmo quando os termos formais parecem satisfatórios no papel. A confiança, nesses contextos, é um bem escasso e de difícil reconstrução.
A presença de uma Força Internacional de Estabilização surge exatamente como resposta a esse problema. Ao introduzir um garantidor externo, o arranjo busca oferecer às partes a segurança de que os compromissos serão monitorados e verificados por atores independentes. A eficácia dessa força, contudo, dependerá de seu mandato, de suas regras de engajamento e da vontade política dos países contribuintes em sustentar a missão por tempo suficiente.
Cabe recordar que missões internacionais de estabilização enfrentam desafios operacionais consideráveis. A definição de regras claras de atuação, a coordenação entre contingentes de diferentes nacionalidades e a articulação com a futura polícia palestina exigem planejamento minucioso. Falhas nesse desenho institucional podem comprometer a credibilidade de todo o processo e abrir espaço para o ressurgimento de grupos armados dissidentes.
Outro ponto sensível diz respeito à governança futura de Gaza. O acordo prevê a transferência do poder a um comitê tecnocrático, distanciado das estruturas militares. A viabilidade desse modelo dependerá da capacidade de construir instituições legítimas, capazes de prestar serviços básicos e de conquistar a confiança da população local. Sem legitimidade e eficiência administrativa, qualquer governo de transição estará fragilizado desde o nascimento.
A comunidade internacional acumulou aprendizado valioso sobre os requisitos de sucesso desses processos. Conforme observa Berdal (2009), o desarmamento sustentável depende menos da quantidade de armas recolhidas e mais da existência de um pacto político genuíno entre as partes, capaz de oferecer aos antigos combatentes um lugar reconhecido na nova ordem que se pretende edificar.
Essa lição impõe uma reflexão realista sobre o momento atual. O anúncio do acordo é, sem dúvida, um avanço diplomático relevante e um testemunho da persistência dos mediadores ocidentais e regionais. Contudo, transformar um roteiro em realidade demandará financiamento robusto, verificação rigorosa e, sobretudo, um compromisso político duradouro que resista às inevitáveis crises de confiança ao longo do caminho.
O tempo é, aliás, um fator determinante em qualquer processo de DDR. Experiências bem sucedidas costumam se estender por muitos anos, com investimentos contínuos e monitoramento permanente. A tentação de declarar vitória precocemente, antes de consolidada a reintegração, representa um dos erros mais recorrentes e mais custosos observados em conflitos anteriores ao redor do mundo.
Para o Ocidente, o êxito dessa empreitada tem valor estratégico que ultrapassa as fronteiras de Gaza. Um processo bem conduzido reforçaria a credibilidade das soluções negociadas e multilaterais, demonstrando que a diplomacia ancorada em instituições e em garantias verificáveis é capaz de produzir resultados concretos mesmo nos cenários mais adversos e polarizados do sistema internacional contemporâneo.
Resta, portanto, acompanhar com atenção as próximas etapas. Os prazos previstos para a preparação dos mecanismos de implementação, a composição da força internacional e a resposta definitiva de Israel serão indicadores decisivos. O caminho é longo e repleto de armadilhas conhecidas, mas o simples fato de as partes terem chegado a um roteiro comum já representa terreno raro nessa geografia marcada por décadas de desconfiança.
A história ensina que a paz não se decreta com anúncios, ainda que necessários e bem-vindos. Ela se constrói lentamente, arma por arma, instituição por instituição, confiança por confiança. O verdadeiro teste do acordo de 2026 não estará nas manchetes desta semana, mas na paciência e na constância com que a comunidade internacional sustentará seus compromissos nos anos vindouros.
Referências
BERDAL, Mats. Building peace after war. London, Routledge, 2009.
MUGGAH, Robert, O'DONNELL, Chris. Next generation disarmament, demobilization and reintegration. Stability: International Journal of Security and Development, v. 4, n. 1, 2015.
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