ESG 2.0 e a Nova Ordem Global da Segurança

Em 2025, o pêndulo da prioridade global oscilou de forma decisiva. A sigla ESG, que por duas décadas representou o farol do investimento consciente focado em Meio Ambiente, Social e Governança, sofreu uma metamorfose impulsionada pelas duras realidades de um mundo fraturado. Estamos testemunhando a ascensão do ESG 2.0, um novo filtro onde as letras agora significam Economia, Segurança e Geopolítica. Esta não é uma mera evolução semântica; é uma reconfiguração fundamental que redefine as ações de empresas e governos, o fluxo de capital e a própria arquitetura da paz mundial. Como disse Anita McBain, diretora do Citi Research, “Se esta conversa fosse há cinco anos, eu falaria de sustentabilidade. Hoje falo de segurança.” 1 O ano de 2025 marca o ponto de inflexão onde o discurso de “salvar o mundo” cedeu espaço à busca pragmática por resiliência.

Este movimento foi gestado ao longo de uma sequência de choques sistêmicos. A pandemia de COVID-19, iniciada em 2020, foi o primeiro grande abalo, expondo a fragilidade das cadeias de suprimentos globais otimizadas para eficiência, mas desprovidas de redundância. Lockdowns e fechamentos de fronteiras revelaram a vulnerabilidade de um sistema que priorizava custos em detrimento da segurança. 2

A crise sanitária forçou empresas e governos a repensarem suas dependências estratégicas. O movimento se consolidou dramaticamente com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, que transformou a geopolítica em uma força estruturante. A Rússia weaponizou o gás natural, mergulhando a Europa em uma crise energética sem precedentes. 3 Os custos de energia dispararam, tornando-se até cinco vezes mais caros que na China, minando a competitividade industrial europeia. 3

O economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco dos BRICS, capturou o novo zeitgeist ao afirmar que “as considerações ESG sobre Economia, Segurança e Geopolítica hoje prevalecem sobre Meio Ambiente, Social e Governança.” 3

A Europa, que havia reduzido suas emissões de carbono em 37%, pagou um preço alto em empregos perdidos e fábricas fechadas, apenas para ver esse sacrifício anulado por um aumento global de 54% nas emissões. 3 A lição aprendida é que a sustentabilidade ambiental não pode existir sem a sustentabilidade econômica e a segurança nacional.

A mudança mais profunda reside na transformação da própria lógica da tomada de decisão econômica. No paradigma anterior, a racionalidade de mercado ditava que se comprasse de quem vendesse mais barato, maximizando eficiência e minimizando custos. No ESG 2.0, essa equação foi radicalmente reescrita. Agora, empresas e governos compram daquele que representa o menor risco geopolítico, mesmo que isso signifique pagar mais caro. A questão não é mais apenas “quanto custa?”, mas “de quem estamos dependendo?” e “o que acontece se essa fonte for cortada ou weaponizada?”. 4

Essa recalibração está remodelando cadeias de suprimentos globais, com países e corporações buscando ativamente diversificar fornecedores, realocar produção para aliados confiáveis e até aceitar custos mais elevados em troca de segurança estratégica. O conceito de friendshoring – priorizar parceiros comerciais alinhados geopoliticamente – tornou-se central nas estratégias corporativas e nas políticas industriais nacionais.

O impacto dessa transformação está no redirecionamento massivo do capital global. O mercado está se movendo do campo da ética para o da eficiência estratégica. Os números são eloquentes. Desde a invasão da Ucrânia, o índice europeu de aeroespaço e defesa da Morningstar viu uma valorização de 249%, superando em muito os 26% do mercado geral. 5

Fundos europeus classificados como “light green” mais do que quadruplicaram sua exposição ao setor de defesa, saltando de 0,6% no início de 2022 para 2,5% em meados de 2025. 5 Essa realocação foi legitimada por iniciativas como o plano "ReArm Europe" da Comissão Europeia, que destinou até 800 bilhões de euros para a indústria de defesa. 5

O capital está fluindo para o que o Citi Research define como os novos pilares da segurança sistêmica: segurança energética, minerais críticos como ativos de segurança nacional, segurança alimentar e hídrica, infraestrutura resiliente, economia digital e defesa. 1

Para empresas e governos, a era do ESG 2.0 exige uma recalibragem estratégica completa. As cadeias de suprimentos tornaram-se o novo campo de batalha geopolítico, onde cada elo representa não apenas um custo, mas um vetor de risco. 4

A governança corporativa precisa evoluir para um sistema operacional integrado que conecte inteligência geopolítica diretamente à gestão de risco. A regulação tornou-se a expressão geopolítica do ESG. 4

Vemos uma fragmentação crescente, com a União Europeia unificando ESG e defesa, os Estados Unidos divididos entre agendas pró e anti-ESG, e a Ásia alinhando sustentabilidade com competitividade nacional. A conformidade regulatória transforma-se em um exercício geopolítico, e a divulgação de informações, em um ato político.

A proposta de evoluir para "ESGT", adicionando a Tecnologia como um quarto pilar, reconhece que a inteligência artificial, a cibersegurança e a guerra eletrônica são dimensões indissociáveis da nova equação de risco. 4

As consequências para a paz e a segurança mundial são profundas e paradoxais. Por um lado, o aumento do investimento em defesa pode ser visto como uma resposta necessária a um ambiente global mais perigoso, fortalecendo a capacidade de dissuasão. Por outro, ele carrega o risco de alimentar uma nova corrida armamentista e normalizar o conflito como vetor de crescimento econômico.

A weaponização de energia, finanças, dados e cadeias de suprimentos cria um mundo de interdependências hostis. A competição por recursos críticos, desde minerais para a transição energética até a água potável, torna-se fonte primária de tensão. A relação entre os povos é testada em uma era de crescente nacionalismo econômico, onde a segurança de um país pode ser vista como ameaça por outro.

O desafio monumental para 2025 e além será navegar neste novo paradigma, buscando um equilíbrio tênue entre a necessidade imperativa de segurança e o objetivo duradouro de uma paz global sustentável. O Prisma Vermelho da geopolítica agora refrata todas as decisões, e o mundo observa, com a respiração suspensa, as cores que emergirão dessa nova luz.

Referências

[1] Brazil Journal - Esqueça o ESG. O mundo agora precisa de "defesa e segurança"
[2] J.P. Morgan Asset Management - ESG Supply Chain
[3] FLJ - 'Novo ESG' foca Economia, Segurança e Geopolítica, avalia Troyjo, ex-chefe do Banco dos BRICS
[4] Inside Practice - Geopolitics & ESG: The Convergence That Will Define Corporate Risk in the Decade Ahead
[5] Sustainalytics - EU ESG Funds' Exposure to Defense Continues to Increase


Autor: DIH em FOCO

  • Graduado em Direito.
  • Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional.

30 de novembro de 2025

Acesso

Visitantes Online

Temos 97 convidados e nenhum membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 4638

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.