Exército Brasileiro: O Guardião Silencioso da Pátria Continental

Há instituições que se confundem com a própria história da nação que servem. No caso brasileiro, falar do Exército é falar do Brasil em sua essência mais profunda, em sua formação mais íntima, em sua configuração geográfica e humana.

Neste 19 de abril, data em que se celebra o Dia do Exército Brasileiro, em homenagem à Batalha dos Guararapes, travada em 1648, considerada a certidão de nascimento da Força Terrestre e, simbolicamente, do sentimento de brasilidade, cabe uma reflexão sobre o papel desta instituição quase quadricentenária, na construção e preservação daquilo que hoje chamamos orgulhosamente de Brasil.

A Gênese de uma Nação nos Campos de Guararapes

Quando, nos morros dos Guararapes, nas planícies de Pernambuco, europeus, africanos e indígenas, liderados pelos comandantes Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Filipe Camarão, derrotaram o invasor holandês, uma vitória militar que gerou uma consciência de que esse vasto, plural e multiétnico território era uma nação que começava a se reconhecer como uma única entidade.

Assim, a Batalha de Guararapes é o marco inicial da formação de uma identidade nacional, um autoreconhecimento forjado na defesa coletiva e sacrificial do território.

Existe uma ligação inextricável entre o Brasil e seu Exército. Enquanto seus vizinhos se desintegraram em nações menores após a independência e lutaram acirradamente por fronteiras e territórios que ainda influenciam os desfechos e a formação dos países que hoje ocupam a América espanhola, o Brasil permaneceu uma unidade ininterrupta. De Oiapoque a Chuy, da costa atlântica às fronteiras profundas da Amazônia com Peru e Colômbia, essa configuração colossal e estrategicamente favorável não foi alcançada de forma precipitada.

O Exército e a Integridade Territorial: Um Continente Unificado

Como o maior país da América do Sul, o Brasil é o quinto maior do mundo, com uma área de aproximadamente 8,5 milhões de km². O Brasil possui 16.000 km de fronteiras terrestres com 10 países e 7.500 km de litoral ao longo do Atlântico.

A integridade política, cultural e linguística desse país é constantemente desafiada e defendida, e o Exército Brasileiro é o protagonista central nessa empreitada histórica e hercúlea.

O soldado brasileiro enfrentou diversos desafios, marchou com os bandeirantes para garantir que o império expandisse e consolidasse seu domínio nos vastos territórios da Amazônia, desafiando a aridez do sertão até as regiões centrais e do sul do Brasil. Foi o Exército imperial que, sob a orientação sistemática de pessoas como Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, e Patrono do Exército Brasileiro, construiu ainda mais o tecido nacional, reforçado diante dos desafios da unificação nacional.

Aqui está o trecho reajustado, mantendo os dois parágrafos, com tom mais acadêmico e adequado a um artigo de opinião, sem perder a fluidez humana:

Caxias é, sem dúvida, a figura que melhor encarna essa missão de preservar a unidade nacional, e não por acaso entrou para a história com a alcunha de "Pacificador". Percorreu boa parte do território brasileiro debelando insurreições que ameaçavam esgarçar o tecido imperial, sufocou a Balaiada no Maranhão, restabeleceu a ordem diante das revoltas liberais de Minas Gerais e São Paulo, em 1842, e, por fim, enfrentou o mais delicado de todos os desafios, a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul. É neste episódio, contudo, que reside o traço mais notável de sua grandeza política.

Caxias recusou a lógica da aniquilação do adversário, embora dispusesse de meios para tanto, e preferiu a via da conciliação, incorporando os antigos combatentes farroupilhas às fileiras do Exército imperial com todas as honras devidas a soldados valorosos.

A hipótese contrafactual é reveladora, bastaria um comandante menos afeito à prudência política, mais inclinado à punição, para que o Rio Grande do Sul seguisse a trajetória fragmentária dos vizinhos platinos, transformando-se em mais uma pequena república sul-americana.

O Brasil contemporâneo, em sua configuração continental, deve parte substancial de sua existência à lucidez estratégica e ao senso de Estado de Luís Alves de Lima e Silva.

Décadas mais tarde, o Exército brasileiro seria submetido ao maior teste de sua história até então, a Guerra do Paraguai, o mais longo e sangrento conflito já travado em solo sul-americano. Daquela campanha emergiram figuras cuja memória permanece viva nas tradições da Força Terrestre.

Manuel Luís Osório, o Marquês do Herval, converteu-se em símbolo da bravura pessoal do comandante, um general que não se limitava à retaguarda dos gabinetes, mas conduzia pessoalmente a cavalaria gaúcha no calor das investidas, conquistando pelo exemplo a lealdade de seus subordinados.

Caxias, já então experimentado pelas campanhas anteriores, assumiu o comando das forças aliadas e conduziu a guerra até sua resolução. Há, porém, uma figura coletiva cujo protagonismo merece reconhecimento equivalente ao dos grandes marechais, o Voluntário da Pátria.

Trata-se do soldado comum, frequentemente oriundo das camadas populares, muitas vezes negro, não raro cativo que obteve a liberdade em troca do engajamento nas fileiras imperiais. Foram milhares, e sua contribuição para a vitória final é parte indissociável daquela epopeia.

O retorno desses combatentes teria, ademais, consequências históricas que extrapolam o campo estritamente militar. Homens que haviam servido sob a mesma farda, enfrentado os mesmos perigos e derramado o mesmo sangue pela nação dificilmente poderiam, depois disso, ser reconduzidos à condição servil sem provocar um abalo moral profundo na sociedade brasileira.

Não é coincidência, portanto, que o movimento abolicionista ganhe densidade justamente nas duas décadas subsequentes ao conflito. O Exército, ainda que sem propósito declarado nesse sentido, plantou uma semente cívica que germinaria até alcançar seu desfecho simbólico no 13 de maio de 1888.

Fronteiras de Paz: Uma Singularidade Brasileira

Um dos aspectos mais notáveis da história brasileira e, que poucos países no mundo podem apresentar com tanta clareza, é a inexistência de contenciosos fronteiriços pendentes.

O Brasil resolveu suas questões limítrofes de forma pacífica, sobretudo graças à visão genial do Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, cuja atuação diplomática foi possível justamente porque apoiada na solidez territorial garantida pelo Exército.

Rio Branco, o Patrono da Diplomacia Brasileira, obteve para o país a incorporação definitiva do Acre, das regiões do Amapá e das disputas do Sul com a Argentina, tudo pela via da negociação, arbitragem e demonstração de soberania efetiva sobre os territórios.

Mas essa diplomacia só foi eficaz porque havia, por trás dela, uma força terrestre capaz de fazer-se presente nos rincões mais remotos, de marcar presença efetiva em cada palmo de terra.

Sem o Exército nos pelotões de fronteira, sem os destacamentos amazônicos, sem a lenta e persistente ocupação militar do interior, a diplomacia brasileira não teria os argumentos concretos que lhe garantiram tantas vitórias.

Hoje, enquanto outros continentes vivem conflitos fronteiriços centenários, pense-se na Caxemira entre Índia e Paquistão, nas fronteiras entre as repúblicas do Cáucaso, entre os países da África pós-colonial, ou mesmo entre vizinhos sul-americanos como Chile e Bolívia, Venezuela e Guiana, o Brasil desfruta de fronteiras pacíficas e reconhecidas. Esta é uma conquista silenciosa, quase invisível no cotidiano, mas de valor civilizacional inestimável.


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A Nação de Uma Só Língua e Mil Culturas

Caminhe-se do Amazonas ao Rio Grande do Sul, do Piauí ao Mato Grosso, e encontrar-se-á sempre o mesmo idioma, o português, falado com sotaques variados, mas mutuamente inteligível.

Esta unidade linguística, em um território continental, é fenômeno raríssimo. A Índia tem 22 línguas oficiais, a China convive com dezenas de línguas e dialetos muitas vezes incompreensíveis entre si, a Europa fragmenta-se em dezenas de idiomas nacionais, a própria África abriga mais de dois mil idiomas distintos.

O Brasil fala uma só língua porque o Brasil se manteve uno. E se manteve uno porque teve, desde os primórdios, uma instituição vocacionada à preservação dessa unidade: o Exército.

Os quartéis espalhados pelo território nacional foram, durante séculos, polos de brasilidade, pontos de encontro onde o jovem do sertão nordestino convivia com o rapaz da fronteira sulina, onde o filho do imigrante italiano do Sul travava amizade com o descendente de indígena do Norte. O serviço militar obrigatório, uma experiência formadora da cidadania, foi um dos mais poderosos instrumentos de integração nacional já conhecidos.

Uma Sociedade de Harmonia Inter-Racial e Religiosa

Ao examinarmos o mapa atual de conflitos mundiais, vemos conflitos religiosos rasgando o Oriente Médio, guerras sectárias sunitas e xiitas, o confronto hindu e muçulmano no subcontinente indiano, e guerras cristãs-muçulmanas nas regiões africanas, além de perseguições religiosas no Oriente Médio e Ásia Oriental.

Sociedades dilaceradas por conflitos raciais também são evidentes, como os Estados Unidos, onde o racismo ainda é uma grande divisão nacional, ou na Europa, onde a integração de minorias continua sendo uma grande preocupação.

O Brasil, com todas as suas imperfeições, que são muitas e devem ser sempre enfrentadas, construiu uma sociedade singular em sua capacidade de convivência. Somos o maior país católico do mundo, mas abrigamos a segunda maior comunidade protestante das Américas, vibrantes religiões afro-brasileiras, comunidades judaicas centenárias, muçulmanas históricas, espíritas numerosíssimas, budistas, e mais recentemente expressivos contingentes de outras tradições. Todas convivem, em regra, pacificamente.

Somos uma nação miscigenada em que a cor da pele não determina, por si só, destinos inescapáveis de ódio sectário.

O Exército, como instituição nacional, refletiu e promoveu essa harmonia. Em suas fileiras, desde os tempos de Henrique Dias, o comandante negro dos Guararapes, e de Filipe Camarão, o líder indígena potiguara, brasileiros de todas as origens serviram lado a lado.

A farda verde-oliva não distingue cor, credo ou classe, distingue apenas o compromisso com a Pátria. O soldado de Canudos, o expedicionário da FEB que combateu o nazifascismo na Itália sob o comando do Marechal Mascarenhas de Moraes, o militar brasileiro que serve hoje nas missões de paz da ONU no Haiti ou no Líbano, todos representam esse Brasil plural que cabe numa só farda.

Vultos que Iluminam a Caminhada

Ao lado de Caxias, Osório e Rio Branco, outros nomes do Exército Brasileiro merecem ser evocados neste 19 de abril. Marechal Deodoro da Fonseca, soldado de toda uma vida, herói do Paraguai, figura essencial da transição institucional brasileira. Marechal Floriano Peixoto, o "Consolidador".

Marechal Rondon, o sertanista maior, que levou o Brasil aos rincões amazônicos com a célebre máxima "morrer, se preciso for; matar, nunca", integrando povos indígenas à nação com respeito e humanidade, desbravando milhares de quilômetros de selva, instalando linhas telegráficas que uniram o país e fundando o Serviço de Proteção aos Índios.

Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, que conduziu 25 mil pracinhas brasileiros à vitória nos campos italianos, em Monte Castello, Montese e Fornovo, colocando o Brasil definitivamente no mapa das nações que derrotaram o nazifascismo.

General Euclides Zenóbio da Costa, General Olívio Gondim, e tantos outros comandantes cujos nomes deveriam ser ensinados em todas as escolas brasileiras.

Não se pode esquecer os pracinhas anônimos que tombaram em solo italiano e cujos ossos repousam no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra, no Rio de Janeiro. Nem os soldados anônimos das fronteiras, que ainda hoje sustentam, em pelotões isolados na Amazônia, a presença do Estado brasileiro em regiões que, sem eles, seriam terra de ninguém.

Os Desafios do Futuro

É importante olhar para o futuro enquanto se comemora o Dia do Exército. O século XXI está cheio de desafios multifacetados que auxiliam na determinação dos próximos níveis de adaptação e modernização das Forças Terrestres Brasileiras em relação ao futuro.

A Amazônia é o maior obstáculo estratégico nacional. Juntamente com as ameaças perenes do crime organizado transnacional e do tráfico de drogas, rivais estrangeiros, mineração ilegal, desmatamento destrutivo e a criminalidade organizada sempre presente.

Uma solução militar que seja presente, inteligente e tecnologicamente avançada é necessária. A modernização do Comando Militar da Amazônia e do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) são passos iniciais tomados na direção certa.

A guerra cibernética é outro desafio importante. Os conflitos do século XXI estão sendo cada vez mais travados na arena digital. Ataques à infraestrutura crítica, guerra da informação, operações de influência e psicológicas, etc. O Exército Brasileiro tem aumentado a capacitação de suas tropas por meio do Comando de Defesa Cibernética, mas os novos desafios exigem mais.

Para as ameaças do século atual, o Exército precisa urgentemente modernizar sistemas como o Guarani e o ASTROS, fortalecer a Brigada de Operações Especiais, aprimorar a aviação do Exército e desenvolver a indústria de defesa nacional.

Outra dificuldade é como manter o Exército como uma `escola de cidadania, como uma organização que ensina aos jovens brasileiros os valores do patriotismo, disciplina, hierarquia, respeito à lei e à democracia. Em nosso mundo, onde os laços sociais estão se desfazendo sob o ataque do individualismo consumista, o Exército é um dos poucos lugares onde jovens de origens muito diferentes aprendem que há uma entidade maior que o indivíduo: a Pátria.

Conclusão: O Braço Forte, a Mão Amiga

"Braço forte, mão amiga", o lema do Exército Brasileiro resume com precisão poética a dupla face desta instituição que, ao longo de quase quatro séculos, tem sido simultaneamente a garantia de nossa soberania e a presença solidária do Estado nos momentos mais difíceis.

Braço forte nas guerras externas e na defesa das fronteiras, mão amiga nas enchentes, nas secas, nas pandemias, nas obras de infraestrutura que levam estradas, poços, escolas e hospitais aos recantos mais esquecidos do país.

Neste 19 de abril, a coluna O Prisma Vermelho rende sua homenagem ao Exército Brasileiro. Rende-a com a consciência de que, sem esta instituição, o Brasil que conhecemos, continental, unido, pacífico em suas fronteiras, uno em seu idioma, plural em sua gente mas um em sua alma, simplesmente não existiria.

Que as próximas gerações de soldados, oficiais e praças honrem o legado de Caxias, Osório, Rondon e Mascarenhas, e que o Exército Brasileiro continue, por muitos séculos ainda, a ser o que sempre foi: o guardião silencioso da Pátria, a espinha dorsal do Brasil.

Salve, 19 de abril! Salve, o Exército Brasileiro!


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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