Entre Contenção e Primazia: os Objetivos dos EUA e a Reconfiguração da Ordem Pós-Guerra

A disposição dos Estados Unidos em conter o avanço chinês e russo, ao mesmo tempo em que buscam recuperar a condição de potência capaz de moldar resultados em escala global, não deve ser lida apenas como reflexo de preferências ideológicas de um governo ou de ciclos partidários.

Trata-se, sobretudo, de uma resposta estratégica a uma mudança estrutural: o mundo do pós-Guerra Fria, no qual Washington operava com ampla liberdade, baixa contestação e instrumentos multilaterais frequentemente alinhados a seus interesses, vem sendo substituído por um ambiente mais competitivo, no qual o poder se distribui de maneira menos concentrada e as alianças se tornam mais transacionais.

Nesse contexto, ações em múltiplos domínios (econômico, informacional, diplomático e militar) compõem um esforço de readequação do papel norte-americano na arquitetura internacional.

Os objetivos centrais dos EUA podem ser organizados em três camadas interdependentes. A primeira é a contenção de rivais sistêmicos: impedir que China e Rússia transformem vantagens regionais em capacidade de alterar regras globais.

No caso chinês, o foco é evitar que Pequim converta superioridade industrial, controle de cadeias de valor e ascendência tecnológica em primazia normativa (padrões, infraestrutura digital, regras de comércio e de dados).

No caso russo, o objetivo é limitar a capacidade de Moscou de revisar fronteiras pela força e de se consolidar como polo energético-militar capaz de fragmentar a coesão europeia.

A segunda camada é a preservação de credibilidade: a percepção de que garantias de segurança, compromissos e dissuasão norte-americana “valem” na prática. Credibilidade não é mero prestígio; ela reduz custos futuros, porque dissuade adversários e tranquiliza aliados.

A terceira camada é doméstica, ainda que tenha expressão externa: proteger bases materiais de poder (emprego industrial, liderança tecnológica, segurança energética) e reduzir vulnerabilidades que alimentam polarização interna e limitam a continuidade estratégica.

É nessa combinação que se inserem as pressões e reposicionamentos em relação a Europa, Venezuela, Groenlândia e Irã, ainda que cada caso tenha racionalidades específicas.

Na Europa, o componente militar é explícito: reafirmar a centralidade da OTAN, induzir aumento de gastos de defesa e garantir interoperabilidade sob liderança norte-americana. O componente econômico aparece tanto na reorganização de cadeias de suprimento (com preferência por parceiros “confiáveis”) quanto em políticas industriais e tecnológicas que, na prática, competem com setores europeus.

Sob um viés neutro, pode-se dizer que Washington busca uma Europa alinhada na contenção à Rússia e cautelosa em relação à China, mesmo que isso implique custos de curto prazo para parte da indústria europeia. Para os EUA, a coesão atlântica é um multiplicador de poder: quando a Europa se fragmenta, a capacidade norte-americana de definir sanções, padrões e prioridades diminui.

Na Venezuela e em partes da América do Sul, o objetivo norte-americano costuma articular segurança regional, energia e sinalização geopolítica. A pressão diplomática e econômica sobre Caracas, combinada com posturas de dissuasão e cooperação com parceiros regionais, responde a três preocupações: reduzir espaços para presença russa, chinesa e iraniana; conter instabilidades que gerem fluxos migratórios e redes ilícitas; e influenciar a governança energética e financeira do hemisfério.

Ao mesmo tempo, o efeito colateral é recorrente: sanções prolongadas podem aprofundar crises sociais e aumentar o custo humano, além de oferecer a adversários narrativas de “cerco externo” que reforçam a coesão do regime. Para Washington, porém, a lógica é que permissividade gera precedentes e erosiona a ideia de um entorno estratégico relativamente estável.

Groenlândia, por sua vez, simboliza a convergência entre competição geoeconômica e geoestratégia do Ártico. A região concentra rotas marítimas emergentes, oportunidades minerais e valor militar (vigilância, projeção e defesa antimísseis). O interesse norte-americano em ampliar influência ali, inclusive por meio de investimentos, acordos e presença, deve ser entendido como tentativa de evitar que a China transforme dependências econômicas em presença política e que a Rússia capitalize sua vantagem geográfica e militarização do Ártico.

Não se trata de um “capricho territorial”, mas de antecipação: quem define regras e infraestrutura no Ártico tenderá a influenciar fluxos comerciais e o equilíbrio militar nas próximas décadas.

No Irã, o núcleo é impedir a consolidação de uma capacidade nuclear militar e limitar o raio de ação regional de Teerã, especialmente via aliados e milícias proxies em teatros sensíveis. A estratégia norte-americana combina sanções, diplomacia (ainda que os canais oscilem) e dissuasão militar, buscando equilibrar dois riscos: a proliferação nuclear e uma escalada regional ampla.

O custo, contudo, também é conhecido: sanções extensas podem consolidar economias paralelas, aproximar o Irã de China e Rússia e tornar a negociação mais difícil, além de alimentar volatilidade energética com impactos globais. A instabilidade político-social observada no Irã neste momento, pode representar uma oportunidade dos Estados Unidos em derrubar o regime hostil ao norte americanos.

A dimensão informacional, “difundir e sustentar uma narrativa”, é, nesse cenário, tão relevante quanto a militar. Para operar com aliados, impor sanções, justificar custos e mobilizar coalizões, os EUA precisam construir enquadramentos legítimos: defesa da ordem baseada em regras, soberania, liberdade de navegação, direitos humanos, integridade territorial.

Mesmo quando tais princípios são aplicados de forma seletiva (uma crítica frequente), eles funcionam como linguagem comum para organizar alianças e reduzir fricções internas no bloco liderado por Washington. Paralelamente, ao deslegitimar narrativas rivais e expor práticas coercitivas (dívida, espionagem, repressão), os EUA tentam restringir o “mercado” de influência de China e Rússia.

As consequências para a estrutura do mundo pós-guerra e, especialmente, para o arranjo consolidado após 1945 e ampliado após 199, tendem a ser ambivalentes. De um lado, há reforço de elementos tradicionais: alianças militares, dissuasão, projeção naval, primazia tecnológica, e centralidade do dólar e do sistema financeiro ocidental.

De outro, a forma de manutenção dessa ordem está mudando. A ordem liberal-institucional do pós-guerra se apoiava em instituições multilaterais com pretensão universal e em benefícios compartilhados (com assimetrias). Agora, cresce um “multilateralismo de blocos”, em que regimes de sanções, controles de exportação, acordos de tecnologia e redes de infraestrutura se organizam por afinidade estratégica, não apenas por eficiência econômica.

Isso sugere um mundo mais segmentado: cadeias de suprimento redundantes e mais caras; maior disputa por padrões tecnológicos; e pressão sobre países médios para escolherem lados em temas específicos (5G, semicondutores, segurança marítima, moedas digitais, voto em organismos internacionais).

Para regiões como a América do Sul, a consequência provável é o aumento do valor geopolítico e, simultaneamente, do risco de instrumentalização. Oportunidades podem surgir em negociações de energia, minerais críticos e alimentos, mas o espaço de autonomia dependerá da capacidade de formular políticas consistentes e evitar dependências excessivas em um único polo.

Em síntese, os “verdadeiros objetivos” norte-americanos não se reduzem a expansão por si mesma, mas a evitar a perda de centralidade em um sistema que se torna competitivo e menos permissivo. As ações coordenadas em múltiplos campos buscam preservar credibilidade, controlar gargalos econômicos e tecnológicos, e sustentar uma coalizão de aliados capaz de impor custos a adversários.

A consequência maior para o mundo pós-guerra é a transição de uma ordem universalizante, ainda que imperfeita, para uma ordem mais disputada, com fronteiras econômicas, tecnológicas e narrativas mais nítidas. O paradoxo é que, ao tentar preservar a arquitetura construída sob sua liderança, Washington pode acelerar sua transformação: a defesa da ordem, em um ambiente de rivalidade, tende a produzir uma ordem diferente daquela que se pretende manter.

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