Do Donbass ao Alemão: como a guerra da Ucrânia pousou nas favelas do Rio

Há imagens que demoram a ser processadas pela consciência coletiva porque rompem com tudo o que se acreditava possível. Uma delas circulou nos últimos dias, captada por uma câmera embarcada da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Sobre uma laje qualquer do Complexo do Alemão, cerca de dez homens cercavam um drone de quase três metros de envergadura. O equipamento, originalmente projetado para pulverizar lavouras no agronegócio, decolou carregado. Não levava defensivos agrícolas. Levava fuzis.

A cena seria meramente bizarra se não fosse simbólica. Ela marca, possivelmente, o instante em que o crime organizado brasileiro deixou de ser um problema de polícia para se tornar um problema de defesa nacional. E faz isso por uma via que ninguém previra com a devida seriedade. A rota que liga as trincheiras de Donetsk aos becos da Zona Norte carioca.

A revelação que ninguém quis ouvir antes

Segundo informações da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio, o Comando Vermelho passou a custear passagens aéreas e despesas de integrantes sem antecedentes criminais para que estes embarcassem rumo ao Leste Europeu. Lá, alistaram-se como voluntários no conflito entre Ucrânia e Rússia. O objetivo, segundo as autoridades, era estritamente operacional. Aprender, no campo de batalha mais tecnologicamente intenso do século XXI, técnicas de combate urbano, manuseio de armamento pesado e, sobretudo, operação de drones de carga.

Dois desses brasileiros já retornaram. Foram diretamente para o Complexo do Alemão. Um deles teria presenteado um chefe da facção com uma placa balística trazida do front europeu, peça padrão entre soldados profissionais. Outro estaria ministrando treinamentos regulares a quadros da organização.

Não se trata, portanto, de um episódio isolado, fruto da audácia de algum traficante mais ambicioso. Trata-se de um programa estruturado, financiado, executado e replicado. Uma facção brasileira investiu capital, planejamento e logística internacional para enviar quadros a uma zona de guerra, treiná-los e trazê-los de volta como instrutores. Isso tem nome em qualquer manual sério de segurança. Chama-se profissionalização paramilitar.

A militarização assimétrica das favelas

Por décadas, o tráfico carioca operou com um arsenal que, embora letal, era artesanal em sua lógica. Fuzis contrabandeados, granadas roubadas de quartéis, alguma munição traçante para impressionar adolescentes nas redes sociais. A vantagem do Estado era clara em termos de doutrina, treinamento e tecnologia. O criminoso tinha o território, mas o Estado tinha a técnica.

Esse equilíbrio acaba de ser rompido. E foi rompido por baixo, de forma silenciosa, enquanto o debate público brasileiro se ocupava de temas menores.

Drones agrícolas de fabricação chinesa, alguns avaliados em mais de duzentos mil reais, estão sendo adaptados para transportar até oitenta quilos de carga. Isso equivale a vinte fuzis FAL sem carregador. Em uma única decolagem, uma facção pode reabastecer um ponto de venda inacessível por terra, atravessar áreas patrulhadas sem expor um único traficante e ainda mapear, do alto, a movimentação policial em tempo real.

A isso se soma o que os instrutores recém-chegados da Ucrânia trazem na bagagem. Conhecimento sobre drones FPV, aqueles guiados por óculos de realidade aumentada, capazes de perseguir alvos em movimento. Noções de jamming, ou seja, bloqueio de sinais. Táticas de pelotão urbano testadas em Mariupol e Bakhmut. Uso de explosivos improvisados acoplados a veículos não tripulados.
Saltou-se uma geração tecnológica inteira. E saltou-se a favor do crime.

O paralelo internacional que o Brasil insiste em ignorar

Quem acompanha segurança internacional não se surpreende com o fenômeno. Surpreende-se apenas com a ingenuidade brasileira em fingir que estávamos imunes a ele.

O cartel de Sinaloa, no México, há anos envia operadores para serem treinados por ex-militares colombianos e veteranos de conflitos no Oriente Médio. Hoje, opera drones explosivos contra rivais e contra a própria Guarda Nacional mexicana. Em Michoacán, há registros de enxames de drones atacando posições policiais. O cartel Jalisco Nueva Generación foi além e estruturou unidades táticas com fardas, hierarquia e comunicações criptografadas indistinguíveis de uma tropa regular.

O Hezbollah libanês oferece o paradigma mais sofisticado dessa lógica. Não é coincidência que a organização xiita tenha enviado quadros para lutar ao lado de Bashar al-Assad na Síria durante mais de uma década. O retorno desses combatentes para o Líbano transformou a milícia em algo próximo de um exército estatal sombrio, com capacidades de inteligência, sabotagem e guerra eletrônica que envergonham várias forças armadas latino-americanas.

O padrão é sempre o mesmo. Uma organização criminosa ou paramilitar identifica um conflito ativo, envia recrutas, financia sua permanência, absorve o aprendizado de combate real e replica esse conhecimento em seu território de origem. O Comando Vermelho não inventou nada. Apenas copiou, com atraso de uma década, um manual que está aberto em qualquer biblioteca de estudos estratégicos do mundo ocidental.

A pergunta incômoda é por que tantos analistas brasileiros, especialmente os mais alinhados a certas vertentes ideológicas, demoraram tanto a admitir essa convergência. Talvez porque ela contraria o conforto narrativo de tratar o tráfico como mero produto da desigualdade. O tráfico é, antes de tudo, uma empresa criminosa transnacional, com lógica de mercado, ambição geopolítica e capacidade de aprendizado institucional. Reduzi-lo a coitadismo sociológico foi, e continua sendo, um erro estratégico do qual o Estado brasileiro paga o preço todos os dias.

A falha de inteligência migratória que ninguém quer assumir

Há outra dimensão do escândalo que merece atenção redobrada. Como dezenas de jovens brasileiros, ligados direta ou indiretamente a uma facção criminosa, conseguiram embarcar rumo a uma zona de guerra ativa, permanecer lá por meses, retornar ao Brasil e seguir diretamente para o Complexo do Alemão sem que nenhum órgão de inteligência soasse o alarme?

A Polícia Federal opera controle migratório em todos os aeroportos internacionais brasileiros. A Agência Brasileira de Inteligência, ao menos em tese, monitora fluxos suspeitos. O Itamaraty mantém consulados que poderiam, em tese, sinalizar a presença de nacionais em zonas de conflito. Nenhuma dessas estruturas funcionou.

Pior. Em alguns casos, os combatentes utilizaram rotas envolvendo escalas em terceiros países, exatamente o padrão clássico de movimentação clandestina já mapeado em manuais de contraterrorismo desde os anos 1990. Não é algo novo. Não é algo sofisticado. É apenas algo que exige Estado funcional, e o Estado brasileiro, nessa frente, simplesmente não funcionou.

Há aqui uma falha que combina três vetores. Primeiro, o sucateamento histórico das estruturas de inteligência, frequentemente vistas com desconfiança ideológica por governos que preferiram enfraquecê-las a aprimorá-las. Segundo, a recusa em adotar mecanismos modernos de cruzamento de dados, em parte por pressão de grupos que tratam qualquer iniciativa nesse sentido como ameaça a direitos. Terceiro, a fragmentação institucional entre União, estados e órgãos federais, cada um operando como feudo isolado.

O resultado é o que se viu. Brasileiros foram lutar uma guerra no outro lado do mundo, voltaram com placa balística e expertise em drones, e o primeiro a notar foi um operador de câmera da PM fluminense observando uma laje no Alemão.

O efeito retorno e a universidade involuntária do crime

Há um conceito útil nos estudos de segurança chamado blowback, ou efeito retorno. Refere-se às consequências não previstas de operações ou conflitos que terminam por se voltar contra os próprios países que os patrocinaram ou ignoraram. A Ucrânia, sem qualquer culpa nisso, está se tornando uma fonte involuntária desse fenômeno em escala global.

A guerra contra a agressão russa, justa em sua causa e legítima em sua resistência, é também o laboratório de guerra mais avançado da história contemporânea. Nunca antes tantos combatentes operaram tantos drones em tantas missões simultâneas. Nunca antes técnicas de guerra eletrônica foram testadas em tal escala. Nunca antes manuais de combate urbano foram reescritos com tamanha velocidade.

O Ocidente, ao apoiar corretamente a Ucrânia em sua defesa, precisa ter consciência de um desdobramento incômodo. Esse acúmulo de conhecimento militar vaza. Vaza por veteranos que retornam a seus países e se desentendem com a vida civil. Vaza por mercenários que vendem expertise ao maior pagador. Vaza, agora se descobre, por quadros enviados deliberadamente por organizações criminosas para absorver técnicas de combate.

Isso não é argumento contra o apoio à Ucrânia, e seria desonesto sugerir o contrário. A defesa de Kiev contra Moscou é uma das poucas linhas morais claras do nosso tempo, separando uma democracia agredida de uma autocracia agressora. Mas reconhecer a justeza da causa não dispensa o realismo sobre suas consequências secundárias. E o Brasil, que oscilou de forma constrangedora entre neutralidades pretensamente equidistantes e flertes diplomáticos com o Kremlin, agora colhe parte do preço de sua omissão estratégica.

Tivéssemos tido um governo mais alinhado, desde o início, ao bloco ocidental democrático, talvez houvesse canais de cooperação em inteligência que sinalizassem a presença de brasileiros suspeitos no front. Não havia, porque nosso país escolheu, em momentos decisivos, parecer cosmopolita em vez de ser confiável.

As consequências para a segurança pública do Rio e do Brasil

O que vem agora não é especulação. É consequência matemática.

Em primeiro lugar, a assimetria de poder de fogo entre tráfico e Estado tende a piorar rapidamente. Operações policiais em comunidades dominadas pelo Comando Vermelho passarão a enfrentar não apenas snipers em pontos altos, mas drones de vigilância em tempo real e, possivelmente em médio prazo, drones armados. Helicópteros policiais, que custam fortunas e são pilotados por agentes treinados durante anos, tornam-se alvos de equipamentos de prateleira operados por adolescentes com manual no YouTube.

Em segundo lugar, a logística do tráfico ganha autonomia inédita. Pontos de venda em áreas sitiadas por operações policiais podem ser reabastecidos por via aérea. A presença física do traficante deixa de ser necessária para a continuidade do negócio. Isso enfraquece a lógica clássica de ocupação territorial pelo Estado, que sempre se baseou em sufocar fisicamente as rotas.

Em terceiro lugar, o conhecimento se dissemina. O Comando Vermelho não manterá esse know-how em exclusividade. Por venda, por aliança ou por captura, as técnicas se espalharão para outras facções, incluindo o Primeiro Comando da Capital, milícias do Rio e organizações regionais no Norte e Nordeste. Em poucos anos, todo o crime organizado brasileiro terá saltado a mesma geração tecnológica.

Em quarto lugar, e talvez o mais grave, o exemplo institucional se consolida. Outras facções perceberão que enviar quadros a zonas de conflito é investimento de retorno alto. Outras guerras virão. Outros campos de treinamento involuntário se abrirão. O ciclo se retroalimenta.

O que fazer?

Não há resposta fácil, e qualquer análise honesta precisa reconhecer isso. Mas há caminhos que o Brasil teima em não trilhar.

Reforço imediato das estruturas de inteligência migratória, com integração obrigatória de bancos de dados entre Polícia Federal, Abin, Receita e órgãos estaduais. Cooperação internacional efetiva com agências ocidentais, em particular as dos Estados Unidos e da União Europeia, que monitoram fluxos de combatentes voluntários há anos. Reconhecimento legal de facções como organizações terroristas, debate que setores da política brasileira insistem em sabotar por razões ideológicas que não resistem a um olhar técnico. Investimento maciço em contra drones, tecnologia que polícias estaduais sequer possuem em quantidade simbólica. E, sobretudo, uma virada cultural na elite política brasileira, que precisa abandonar a romantização do criminoso e a desconfiança automática contra forças de segurança.

A laje do Complexo do Alemão filmada pela PM é um marco. Antes dela, podíamos fingir que a guerra moderna era um problema dos outros. Depois dela, não há mais como sustentar essa ilusão.

A guerra da Ucrânia pousou nas favelas do Rio. E quem ainda não percebeu o tamanho disso, provavelmente nunca vai perceber a tempo.


📖 Leituras recomendadas por O Prisma Vermelho

Para o leitor que deseja aprofundar a compreensão dos temas tratados nesta coluna, selecionamos obras essenciais. Os links abaixo são de afiliados Amazon. Ao adquirir por eles, você fortalece o trabalho independente desta coluna sem pagar nada a mais por isso.

Sobre o crime organizado brasileiro e o avanço das facções:

A Guerra: A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil — Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias  Como uma facção paulista se transformou em multinacional do crime.

🛒 [CONFIRA NA AMAZON] Compre aqui

 

 

 

 

 

 

 

CV - PCC: A Irmandade do Crime - Carlos Amorim
O livro é um mergulho no submundo. Além de descrever as operações de grupos armados como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), o livro investiga as origens históricas do crime organizado no país.

🛒 [CONFIRA NA AMAZON] Compre aqui

 

 

 

 

 

 


 

Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza - Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1719914108268416 

Comentários

Para comentar, faça login.

Entrar / cadastrar

Nenhum comentário publicado ainda.

Asher Comments v0.1.60 · Asher Consultoria · DIH em Foco

Acesso

Visitantes Online

Temos 144 convidados e um membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 17760

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.