O ano de 2025 será lembrado na história da diplomacia brasileira não pelo seu protagonismo, mas pela sua ambiguidade custosa e pela sua teimosia ideológica. Em um cenário internacional de profundas transformações e realinhamentos geopolíticos, a política externa do Brasil optou por um caminho de isolamento moral, preferindo a companhia de regimes autocráticos e expansionistas em detrimento de seus aliados naturais no Ocidente. Sob o olhar crítico de “O Prisma Vermelho”, a retrospectiva de 2025 revela um Itamaraty que, ao tentar ser “amigo de todos”, acabou por se tornar um parceiro pouco confiável para as democracias liberais.
A postura brasileira diante dos conflitos globais mais sensíveis é o primeiro e mais doloroso sintoma dessa miopia ideológica. No que tange à guerra entre Israel e o Hamas, o governo brasileiro manteve uma linha de crítica desproporcional ao Estado de Israel, uma democracia consolidada e um aliado histórico do Ocidente. A insistência em uma "equivalência moral" entre um Estado que defende seus cidadãos e um grupo terrorista que usa civis como escudo humano e prega a destruição de Israel não apenas tensionou as relações diplomáticas, mas também revelou uma falha ética fundamental. A defesa contínua do cessar-fogo e do reconhecimento do Estado Palestino, embora legítima em princípio, foi ofuscada pela omissão em condenar o terrorismo do Hamas de forma contundente. Essa escolha, alinhada à narrativa do chamado “Sul Global”, custou ao Brasil credibilidade junto a nações ocidentais que entendem a luta contra o terrorismo como um pilar da segurança internacional.
De forma análoga, a posição brasileira em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia continuou a ser marcada por uma “ambiguidade estratégica” que, na prática, se traduziu em conivência com o autoritarismo de Vladimir Putin. Enquanto a comunidade ocidental impôs sanções e forneceu apoio militar e humanitário a Kiev, o Brasil manteve uma “neutralidade colaborativa”, participando de iniciativas de paz que, em última análise, serviram mais para legitimar a presença russa na mesa de negociações do que para defender a soberania ucraniana. A recusa em condenar a Rússia como agressora nas instâncias internacionais, como a ONU, é um abandono dos princípios de direito internacional que o próprio Brasil historicamente defendeu. Para uma perspectiva pró-Ocidente, essa postura é indefensável, pois sinaliza que o Brasil está disposto a relativizar a agressão militar em nome de uma agenda geopolítica que privilegia o eixo sino-russo.
O cenário no Oriente Médio se transformou drasticamente com a queda do regime de Bashar al-Assad na Síria no final de 2024/início de 2025. O Brasil, que por anos manteve relações com o ditador sírio, demorou a reconhecer a natureza brutal do regime e a se posicionar claramente sobre a influência desestabilizadora de Irã e Rússia na região. A política externa brasileira, presa a um multilateralismo abstrato, ficou à margem das grandes transformações que se seguiram à queda de Assad. O Itamaraty limitou-se a emitir alertas para a saída de brasileiros, demonstrando uma falta de visão estratégica e de preparo para lidar com a implosão de um regime que o próprio Brasil, de forma equivocada, tentou legitimar.
No entanto, é na América do Sul que a política externa brasileira em 2025 enfrentou seu teste mais crítico: a ameaça expansionista da ditadura de Nicolás Maduro contra a Guiana. A retórica belicista de Caracas sobre o Essequibo, combinada com a crise humanitária e a cleptocracia que assola a Venezuela, exigia uma postura firme e inequívoca do Brasil. Infelizmente, a “diplomacia da paciência” prevaleceu, com o Brasil tentando uma mediação que Maduro consistentemente ignorou. A fragilidade dessa abordagem ficou evidente quando a pressão internacional se intensificou.
A chegada de uma administração americana mais assertiva, com figuras como Marco Rubio no Departamento de Estado, reconfigurou o tabuleiro hemisférico. A política de pressão máxima dos Estados Unidos contra a Venezuela, com sanções e a designação de grupos ligados ao regime como terroristas, colocou o Brasil em uma posição insustentável. A participação do Brasil em exercícios militares conjuntos com os EUA na Guiana em maio de 2025 foi um reconhecimento tácito da falência da diplomacia puramente “sul-sul” e da necessidade de um alinhamento pragmático com Washington para conter a ameaça bolivariana.
Essa nova dinâmica americana não se limitou à Venezuela. A pressão dos EUA contra a Colômbia de Gustavo Petro, devido à sua política de combate ao narcotráfico e à sua proximidade com regimes autoritários, como a própria Venezuela, também expôs a fragilidade da política externa brasileira. O Brasil se viu em uma saia justa diplomática, tentando manter a neutralidade enquanto seus vizinhos eram confrontados por Washington. A crítica de figuras americanas proeminentes a Petro, chegando a chamá-lo de “traficante”, é um sinal claro de que a tolerância americana com a “onda rosa” na América Latina se esgotou.
A lição de 2025 é clara: a política externa brasileira precisa urgentemente abandonar sua nostalgia ideológica e abraçar um pragmatismo moral que a alinhe inequivocamente com os valores ocidentais de democracia, liberdade e Estado de Direito. A tentativa de equilibrar-se entre democracias e ditaduras não resultou em protagonismo, mas em irrelevância e desconfiança. O Brasil tem a oportunidade de se posicionar como um líder regional que coopera ativamente com os Estados Unidos para desmantelar o eixo autoritário na América do Sul e defender a estabilidade hemisférica. A continuidade da ambiguidade é um luxo que o Brasil, e a segurança regional, não podem mais se permitir. É hora de escolher um lado, e esse lado deve ser o da liberdade.
Autor: DIH em FOCO
Graduado em Direito.
Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional.