Clausewitz na Era Digital: A Guerra Ainda é a Continuação da Política?

“A guerra é simplesmente a continuação da política por outros meios.” Esta máxima, cunhada pelo estrategista prussiano Carl von Clausewitz há quase duzentos anos, continua a ser o alicerce da teoria estratégica moderna. Mas será que ela sobrevive ao teste da era digital? Na última coluna do ano, revisitamos o clássico “Da Guerra” para questionar se a sua sabedoria perdura num mundo de guerra cibernética, desinformação e armas autônomas.

A Trindade Clausewitziana no Século XXI

Clausewitz concebeu a guerra como uma “trindade paradoxal” composta por: 1) a paixão primordial e a violência (associada ao povo); 2) o jogo do acaso e da probabilidade (associado às forças armadas); e 3) a sua natureza subordinada como instrumento da política (associada ao governo). Argumentamos que esta trindade permanece notavelmente relevante.

- “A paixão” é hoje amplificada pelas redes sociais e pela propaganda viral. Plataformas digitais reduzem o custo de mobilização emocional e tornam a indignação um recurso estratégico. Narrativas cuidadosamente fabricadas — ou simplesmente oportunistas — podem radicalizar percepções, transformar incidentes isolados em “provas” de agressão e criar uma sensação de urgência que pressiona líderes a reagirem.

- “O acaso” é exacerbado pela complexidade dos sistemas tecnológicos e pela “névoa da guerra” digital. Dependências invisíveis (cadeias de suprimento de software, bibliotecas abertas, provedores de nuvem, satélites, sensores) multiplicam pontos de falha. Pequenas alterações em código, configurações ou atualizações podem gerar efeitos cascata difíceis de antecipar.

- “E a política”… é aqui que o desafio se torna mais complexo. A velocidade e a natureza difusa da guerra digital ameaçam a subordinação da guerra à política, porque deslocam decisões para níveis técnicos e operacionais em que os incentivos são “mitigar danos já”, mesmo que isso signifique escalar.

A trindade, portanto, não desaparece: ela muda de forma. O “povo” não é apenas a população nacional, mas audiências globais segmentadas por algoritmos; as “forças armadas” incluem operadores cibernéticos, empresas contratadas, laboratórios e plataformas; e o “governo” disputa controle com burocracias técnicas, atores privados e normas internacionais ainda incipientes.

 

Fricção e Névoa na Guerra Digital

Contrariamente à crença de que o ciberespaço é um domínio de precisão e clareza, os conceitos clausewitzianos de “fricção” (a diferença entre a guerra no papel e a guerra na realidade) e “névoa da guerra” (a incerteza do campo de batalha) são ainda mais intensos na era digital. A dificuldade de atribuição de um ciberataque, o risco de escalada não intencional e a imprevisibilidade das interações entre algoritmos complexos criam uma nova e densa camada de névoa.

Atribuir um ataque é, muitas vezes, um exercício de probabilidade e política: evidências técnicas podem ser ambíguas, falsificáveis ou deliberadamente plantadas. Mesmo quando há convicção nos bastidores, raramente há transparência suficiente para convencer o público e aliados. Essa lacuna alimenta teorias conspiratórias, acusações precipitadas e respostas simbólicas — sanções, retaliações limitadas, operações encobertas — que podem ser menos orientadas por eficácia estratégica e mais por gestão doméstica de reputação.

A fricção digital também é institucional. A coordenação entre agências civis, militares e o setor privado é lenta, enquanto o ataque ocorre rápido. Planos de contingência frequentemente assumem linhas claras entre “paz”, “crise” e “guerra”, mas no ciberespaço há um contínuo de intrusões, espionagem e sabotagem que dificulta calibrar respostas. No limite, a própria distinção entre “uso da força” e “interferência” fica esgarçada: um ataque a infraestrutura crítica pode ter efeitos estratégicos sem um único disparo.

 

A Política no Comando?

O maior desafio à máxima de Clausewitz vem da velocidade. Um ataque cibernético pode paralisar uma nação em minutos. Um sistema de armas autônomas pode tomar centenas de decisões de engajamento por segundo. Conseguem os processos políticos, deliberativos por natureza, manter o controlo sobre uma guerra travada à velocidade da luz? Ou arriscamo-nos a uma era em que a tecnologia dita o ritmo e a lógica da guerra, arrastando a política atrás de si?

Em termos clausewitzianos, o perigo é a inversão de fins e meios. Se o meio técnico (responder automaticamente, bloquear, contra-atacar, “caçar” intrusos) passa a definir o que é politicamente aceitável, a política deixa de ser o guia e torna-se a justificativa posterior. A tentação de automatizar é compreensível: humanos não escalam com a complexidade, e erros custam caro. Mas automatização também comprime tempo de decisão e torna mais provável a escalada por engano, sobretudo quando dois lados dependem de sistemas que interpretam sinais incompletos.

Armas autônomas, por sua vez, colocam pressão adicional: mesmo que haja “humano no circuito”, a realidade operacional pode empurrar para “humano sobre o circuito” (supervisão) e depois para “humano fora do circuito” em momentos críticos. A pergunta decisiva deixa de ser apenas “podemos?” e volta-se ao núcleo de Clausewitz: “para quê?”. Que objetivo político justifica delegar letalidade, risco reputacional e potencial de erro a sistemas que aprendem e se adaptam de maneiras pouco explicáveis?

 

O Retorno da Estratégia: Objetivos, Limites e Responsabilidade

Se há um ponto em que a era digital confirma Clausewitz, é a centralidade do propósito. Desinformação, ciberataques e autonomia não são “novas guerras”; são novos instrumentos em disputas políticas antigas: coerção, dissuasão, subversão, competição por legitimidade e influência. A questão, então, não é abandonar Clausewitz, mas operacionalizá-lo: como garantir que a política realmente comande?

Três caminhos são particularmente relevantes. Primeiro, doutrinas e regras de engajamento adaptadas ao digital, com limiares claros para resposta e mecanismos de “pausa” deliberativa — inclusive no ciberespaço — quando há risco de escalada. Segundo, governança e integração público-privada: parte significativa do “campo de batalha” é operada por empresas, e sem coordenação prévia a política vira espectadora. Terceiro, auditoria e responsabilidade em sistemas autônomos, exigindo rastreabilidade, validação e limites explícitos de emprego; sem isso, o poder político perde a capacidade de explicar decisões e sustentar legitimidade.

 

Conclusão

A máxima de Clausewitz não está obsoleta, mas está sob uma pressão sem precedentes. A guerra continua a ser um ato político, mas a nossa capacidade de a manter subordinada à política está em risco. A lição de Clausewitz para o século XXI é um aviso: se não projetarmos as nossas tecnologias e doutrinas para manter o controlo político e humano sobre a força, arriscamo-nos a que a guerra deixe de ser a continuação da política para se tornar a continuação da tecnologia por outros meios. E esse é um futuro que Clausewitz, o realista supremo, nos advertiria a evitar a todo o custo.

 

Autor: DIH em FOCO

 

28 de dezembro de 2025

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