Fuzileiros Navais, capacidade expedicionária a serviço da Ajuda Humanitária.

Em 24 de junho de 2026, terremotos devastadores atingiram a Venezuela e deixaram mais de seis mil mortos. Poucos dias depois, uma equipe brasileira que apoiava a Defesa Civil em São José da Barra, Minas Gerais, foi redirecionada para outro continente humanitário sem sair da América do Sul.

A operação começou em 26 de junho. No dia 27, cerca de cem militares embarcaram na Base Aérea do Galeão em um KC-390 da Força Aérea Brasileira. Eram sessenta Fuzileiros Navais e quarenta profissionais de saúde. Em 29 de junho, o hospital de campanha já operava em La Guaira, epicentro do drama.

Essa velocidade não é detalhe logístico. É a essência da capacidade expedicionária do Corpo de Fuzileiros Navais, a aptidão de projetar meios organizados a longa distância e colocá-los em funcionamento onde a infraestrutura local ruiu.

|"Em menos de setenta e duas horas, o Brasil montou um hospital com UTI e centro cirúrgico no epicentro de uma tragédia estrangeira. Isso é capacidade expedicionária."|

O que significa ser expedicionário

Uma força expedicionária existe para agir longe da base, com autonomia e por tempo determinado, sem depender da estrutura do local de destino. Ela leva consigo tudo o que precisa, então funciona mesmo quando estradas, energia e água potável desapareceram.

O complexo médico levado à Venezuela ilustra bem esse conceito. São 30 leitos de enfermaria e quatro de UTI, num total de 34 leitos, além de centro cirúrgico, laboratório de análises clínicas, equipamentos de raio-X e ultrassom, farmácia, odontologia e fisioterapia.

O espectro clínico impressiona. Há pediatria, ortopedia, obstetrícia com sala de parto apta a procedimentos cirúrgicos, assistência social e acompanhamento psicológico. Para garantir funcionamento ininterrupto, a unidade dispõe de estação própria de tratamento de água, cozinha de campanha e comunicação por satélite.

Esse desenho responde a uma pergunta simples. De que adianta enviar médicos se não houver onde operar, energia para manter a UTI ou água limpa para evitar infecção. A resposta expedicionária resolve o problema inteiro, não apenas parte dele.

FRIDA, o instrumento que deu forma à velocidade

A missão venezuelana foi conduzida pela Força de Resposta Imediata a Desastres Ambientais, a FRIDA, tropa de pronto emprego do Corpo de Fuzileiros Navais criada especificamente para atuar em calamidades e desastres.

O projeto foi apresentado publicamente em novembro de 2025, durante a primeira edição do Seminário Internacional de Operações Humanitárias e Resposta a Desastres. Em 1º de julho de 2026, um Acordo de Cooperação Técnica reuniu Marinha, BNDES, Cemaden e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil para fortalecer a força.
 
Essa arquitetura institucional importa. Ela une a base científica do Cemaden, responsável por monitoramento e alertas, à capacidade operativa do Corpo de Fuzileiros Navais e à coordenação da Defesa Civil. Ciência que antecipa e músculo que responde, integrados por desenho, não por improviso.
 

|"A FRIDA une ciência que antecipa e músculo que responde. Estrutura permanente sempre rende mais que boa vontade improvisada diante do desastre."|

A Venezuela foi a segunda ativação da FRIDA. A estreia ocorreu em fevereiro de 2026, nas enchentes de Cantagalo e Porciúncula, no Norte Fluminense. Em ambos os casos ficou evidente que uma tropa treinada para áreas alagadas, terreno destruído e acesso difícil serve tanto ao cidadão brasileiro quanto ao vizinho em desgraça.

Números que traduzem eficácia

Resultados concretos separam a intenção humanitária do resultado humanitário. Em 15 de julho, o hospital brasileiro havia atingido dois mil atendimentos, operando então com 43 profissionais de saúde e 56 Fuzileiros Navais.

|"Dois mil atendimentos em duas semanas mostram que ajuda humanitária eficaz não se mede por discurso, mas por vidas efetivamente socorridas."|

Havia distribuição diária superior a 400 medicamentos e realização de cirurgias. Um dado revela o alcance da atuação. O hospital brasileiro e um norte-americano eram as únicas estruturas internacionais com capacidade cirúrgica instalada no local, o que coloca o Brasil ao lado das principais potências ocidentais no esforço de socorro.

|"Apenas duas estruturas internacionais tinham capacidade cirúrgica em La Guaira. Uma era brasileira. Prestígio se conquista chegando primeiro e chegando pronto."|

A composição interforças reforça a maturidade da resposta. Ao efetivo da Marinha somaram-se médicos do Exército e da Força Aérea, num arranjo conjunto que multiplica capacidades e evita duplicação de esforço.

O reconhecimento internacional e o valor estratégico

Durante o II Seminário Internacional de Operações Humanitárias e Resposta a Desastres, realizado em 28 de agosto de 2026 na Ilha do Governador, o Ministério das Relações Exteriores confirmou que o hospital brasileiro poderá receber a classificação de nível 2 da Organização das Nações Unidas.

Essa classificação certifica que a unidade atende aos padrões da ONU para serviços de saúde em emergência. Não é medalha decorativa. É credencial técnica que habilita o Brasil a ser acionado em futuras crises internacionais com legitimidade e padronização reconhecidas globalmente.

Aqui reside o ponto estratégico frequentemente ignorado. Ajuda humanitária eficaz é também instrumento de política externa e de projeção de prestígio. Um Estado capaz de socorrer vizinhos em horas acumula capital diplomático, aprofunda laços regionais e demonstra confiabilidade como parceiro.

O Brasil chega a essa posição com tradição consolidada. Nos últimos seis anos, o Corpo de Fuzileiros Navais foi empregado em mais de onze crises humanitárias. Antes disso, os Fuzileiros Navais atuaram no Haiti e no Chile após terremotos devastadores, o que confere lastro histórico à atual capacidade.

Por que capacidade dupla é mais valiosa?

Uma força pensada para o combate que também salva vidas em desastres oferece retorno duplo sobre o investimento nacional. O mesmo preparo que sustenta operações anfíbias em ambiente hostil sustenta a montagem de um hospital em terreno arrasado.

A mesma força preparada para o combate salva vidas em terremotos. Capacidade dupla é o melhor retorno que um Estado pode obter de sua defesa.

O quadro abaixo sintetiza como a lógica expedicionária se traduz em capacidades práticas na resposta a desastres.

Requisito do desastre Solução expedicionária empregada
Infraestrutura hospitalar destruída Hospital de campanha com 34 leitos e centro cirúrgico
Falta de energia e água potável Estação própria de tratamento de água e cozinha de campanha
Comunicações interrompidas Sistema integrado por satélite
Necessidade de resposta imediata Tropa de pronto emprego mobilizada em horas
Coordenação com autoridades locais Atuação conjunta e cooperação com equipes internacionais

Essa versatilidade explica por que democracias ocidentais valorizam forças anfíbias e expedicionárias. Elas oferecem ao Estado um instrumento flexível, útil na defesa e na assistência, capaz de servir ao interesse nacional em contextos muito distintos.

Doutrina, ciência e cooperação como diferencial

Vale sublinhar o contraste entre respostas planejadas e improvisos. Regimes sem instituições sólidas costumam depender de ajuda externa porque não construíram capacidade própria de resposta nem doutrina consistente.

O caminho brasileiro segue direção oposta. Há doutrina de emprego, há parceria científica com o Cemaden para antecipar eventos extremos, há coordenação com a Defesa Civil e há cooperação com organismos como a Organização Pan-Americana da Saúde. Estrutura permanente rende mais que boa vontade episódica.
 
O II Seminário reuniu mais de mil participantes, entre civis e militares, com forte presença de estudantes de universidades e da Escola de Guerra Naval. Debateu-se medicina operativa, gerenciamento de risco, logística, busca e resgate e o papel das Forças Armadas em desastres. Formar quadros e disseminar conhecimento é investir na resposta de amanhã.

Uma síntese e um horizonte

O episódio venezuelano condensa uma lição clara. A capacidade expedicionária do Corpo de Fuzileiros Navais deixou de ser conceito abstrato de manual e virou resultado mensurável em vidas atendidas, cirurgias realizadas e reconhecimento internacional em vias de formalização.

O Brasil consolida assim um papel de ator estratégico responsável e relevante no hemisfério, alinhado à tradição humanitária das democracias e capaz de agir com velocidade quando o relógio da tragédia começa a correr.

Investir nessa capacidade é investir em soberania, prestígio e utilidade concreta. A pergunta que fica diz respeito ao futuro. Diante de desastres ambientais cada vez mais frequentes e severos, quanto vale para uma nação possuir uma força pronta para montar um hospital inteiro do outro lado da fronteira em questão de horas?


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Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza
Sobre o autor
Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza
Professora

Graduada em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Gama Filho/RJ; pós-graduada lato sensu em Enfermagem do Trabalho (UGF), Docência do Ensino Superior (Universidade Castelo Branco), Auditoria em Sistemas de Saúde (Universidade Estácio de Sá) e em Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos (Instituto Venturo/ADESG, 2026). Serviu como Oficial Enfermeira da Marinha do Brasil, atuando como docente na Escola de Saúde da Marinha, instrutora dos Cursos de Enfermagem Operativa e preceptora de residentes do Hospital Naval Marcílio Dias/RJ; foi Encarregada de Educação Continuada, Emergência e Medicina Operativa no Hospital Naval de Salvador/BA, integrando as equipes de Qualidade e de Controle de Avarias. Tem experiência em supervisão e gestão de enfermagem em hospitais de alta complexidade, com passagens pelo Hospital da UNIMED Maceió/AL, Hospital Naval Marcílio Dias/RJ e Hospital Quinta D’Or/RJ; atuou também como Enfermeira do Trabalho do SESI e docente no SENAI/SESI em Corumbá/MS. Recebeu as condecorações Medalha do Combate à Covid-19, Medalha Elza Cansanção, Medalha Sangue de Heróis, Medalha Comemorativa do Sexagenário de Criação da Polícia do Exército e Medalha Marechal Zenóbio da Costa; mantém atualização em urgência e emergência (AHA, 2022), infecção hospitalar, síndromes coronarianas, SAE e manipulação de cateter Swan-Ganz (HCAP/Bombeiros-RJ). ORCID: 

https://orcid.org/0009-0006-6506-5106 

  • Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza

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