O Fim do Soldado Ocidental

Havia 250 dias que o USS Abraham Lincoln não tocava um porto. Em agosto de 2026, familiares de marinheiros embarcados começaram a relatar o inimaginável para a maior potência naval da história. Falta de alimentos, contaminação da água potável, problemas de encanamento e uma deterioração tão severa da saúde mental que um marinheiro caiu ao mar no dia 3 de agosto, em circunstâncias ainda investigadas. Uma mãe descreveu o ambiente a bordo como "uma cena de 'American Horror Story', onde todo mundo já morreu, mas ainda não sabe".

Isso não aconteceu numa fragata velha de uma potência secundária. Aconteceu a bordo de um navio-capitânia da Marinha dos Estados Unidos, durante uma das operações militares mais intensas dos últimos anos no Oriente Médio, com cerca de 5.000 marinheiros e fuzileiros navais operando sob ataques constantes de drones e mísseis iranianos.

Cinco meses antes, em 12 de março de 2026, o USS Gerald R. Ford, o porta-aviões mais avançado e caro já construído pela humanidade, precisou ser retirado do Mar Vermelho para reparos em Creta. O motivo, publicado com constrangimento pela própria Marinha americana, foi um incêndio na lavanderia. O fogo destruiu 100 beliches, feriu dois marinheiros e forçou a evacuação emergencial de um terceiro. Era a continuação de uma série de problemas que incluíam 650 banheiros com falhas crônicas e colapso progressivo do moral a bordo, num navio com quase 4.500 tripulantes.

Um navio de US$ 13 bilhões, deslocado de combate por fiapos de secadora.

Esses dois episódios, lidos separadamente, parecem incidentes operacionais corriqueiros numa guerra longa. Lidos juntos, são a fotografia de um processo que o Ocidente reluta em encarar, porque enfrentá-lo exige reconhecer que a crise não começou no mar. Começou décadas antes, em terra, em decisões aparentemente racionais que foram, na prática, um desarmamento silencioso e acumulado.

Trinta Anos de Guerra Sem Disparar um Tiro

Em 2021, a própria OTAN publicou um relatório oficial, elaborado pelo seu Cientista-Chefe, definindo "guerra cognitiva" como a exploração da cognição humana para perturbar, minar, influenciar ou modificar a tomada de decisão, não de generais ou estrategistas, mas de populações inteiras. O documento não era alarmista. Era descritivo. A Aliança estava reconhecendo, com rigor técnico, um fenômeno que já durava décadas.

O Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, em análise publicada em 2025 sob o título "Smoke and Mirrors", foi mais direto. A "segurança cognitiva" emergiu como conceito urgente justamente porque o Ocidente acordou tarde demais para o que sofria. Um segundo estudo da mesma instituição, publicado em 2026, apontou a assimetria estrutural que deveria envergonhar qualquer planejador ocidental. Enquanto a China trabalha a cognição como condicionamento de longo prazo, por meio de suas três frentes de guerra, a de opinião pública, a psicológica e a legal, o Ocidente chegou ao debate em postura defensiva, reagindo ao que já foi perdido.

A guerra cognitiva moderna tem uma característica que a distingue de toda a propaganda anterior. Ela não precisa convencer o inimigo de que está errado. Basta convencer a própria sociedade de que defender-se não vale o sacrifício.

|"A guerra cognitiva não destrói tanques. Ela corrói a vontade de tripulá-los."\

Esse trabalho foi feito com paciência artesanal, ao longo de trinta anos, sem que a maioria das democracias ocidentais percebesse que era o alvo. O vetor de ataque mais eficiente nunca foi o míssil. Foi a deslegitimação cultural do ethos militar, a ideia de dever, a noção de sacrifício, o vínculo entre o cidadão e a defesa do espaço que habita. Quando esse vínculo se rompe, nenhum orçamento de defesa é suficiente para recompor o que foi perdido, porque o que se perdeu não é material.

O Ocidente Assinou um Cheque que Não Podia Pagar

Com a queda do Muro de Berlim, as democracias ocidentais se permitiram uma conclusão lógica, porém estrategicamente perigosa. A história havia chegado ao fim, e o fim era seguro. O "dividendo da paz", o corte sistemático em gastos de defesa para redirecionar recursos ao bem-estar social, pareceu uma decisão racional. Era, na verdade, um cheque a prazo assinado em nome das gerações seguintes.

A revista Foreign Policy registrou, em 2024, a consequência mais concreta. "Nos anos 1990 e 2000, as nações da OTAN cortaram tropas e pintaram seus tanques de deserto para 20 anos de guerra no Oriente Médio." Um diplomata sênior da Aliança foi mais lacônico: "A OTAN basicamente esqueceu que tinha um exército."

Esse esquecimento não foi apenas orçamentário. Foi cultural. O paradigma do cidadão-soldado, que construiu a civilização democrática ocidental com a ideia de que a defesa é uma obrigação moral compartilhada, foi gradualmente substituído pelo paradigma do consumidor de direitos. O Estado passou a ser visto como provedor incondicional, sem contrapartida cívica. A defesa virou serviço terceirizado. O soldado, um profissional de nicho. A guerra, um problema de outros.

A Alemanha extinguiu a conscrição em 2011. A Suécia a suspendeu entre 2010 e 2017, e só a restaurou por pressão da realidade. O Reino Unido terceirizou o recrutamento para a empresa privada Capita, acumulando déficit anual de 1.100 soldados. Em toda a Europa, a mesma tendência, com menos tropas, menos vocação e mais dificuldade de reter quem é treinado.

A AP News revelou, em março de 2025, o resultado concreto. A OTAN tem planos para mobilizar 300 mil homens em 30 dias e 800 mil em seis meses. O problema é que não tem pessoal para cumpri-los.

Quando uma Sociedade Para de Formar Guerreiros

O relatório da RAND Corporation, publicado em outubro de 2025 com o título provocativo "Suppose They Held a War and Nobody Came", é a radiografia mais precisa do problema. Aliados europeus e asiáticos sofrem escassez sistêmica de pessoal militar por declínio demográfico, fatores sociais e condições econômicas. O documento descreve forças "mais ocas e menos capazes", e as respostas governamentais como "semelhantes e ineficazes".

O IISS, em seu Strategic Dossier de 2025, confirma. A maioria dos exércitos europeus não atinge metas de recrutamento nem retém pessoal treinado. O debate sobre a restauração da conscrição voltou à pauta em Finlândia, Suécia, Dinamarca, Letônia e Lituânia, não por idealismo cívico, mas por desespero estratégico.

A publicação EUROMIL, em 2024, foi direta ao registrar que os problemas de recrutamento e retenção nas Forças Armadas europeias se intensificaram na última década e foram sistematicamente negligenciados pelos governos. A Almirante Lisa Franchetti, Chefe de Operações Navais dos Estados Unidos, resumiu com precisão o que os dados confirmam. "A questão não é recrutamento, é retenção. Precisamos reter também as famílias."

|"O soldado ocidental não foi derrotado em campo de batalha. Ele foi sendo dispensado, aos poucos, de toda obrigação que não fosse o próprio conforto. Até que o conforto acabou e o campo de batalha chegou."|

Mas por trás da retenção há algo mais profundo, que nenhum relatório consegue capturar completamente. Formação militar nunca foi apenas instrução técnica. Foi sempre, antes de tudo, formação de caráter. Resiliência diante do desconforto, abnegação diante do interesse pessoal, capacidade de suportar o tédio, o medo e o isolamento prolongado. Essas qualidades não se ensinam em seis semanas de treinamento básico. Elas se cultivam ao longo de anos, numa sociedade que as valoriza e as transmite nas famílias, nas escolas, no espaço público.

O problema não está apenas nas academias militares. Está na sala de aula. Está nos valores que uma sociedade decide priorizar quando não está em guerra, e que ela descobre, tardiamente, que não consegue improvisar quando a guerra chega.

A Fatura que Chegou no Mar Vermelho

O USS Gerald R. Ford partiu de Norfolk em junho de 2025. Em março de 2026, estava há 261 dias em operação. As catapultas eletromagnéticas, os reatores nucleares A1B e os sistemas de automação que justificaram um custo de US$ 13 bilhões não impediam que os banheiros entupissem com regularidade nem que o sistema de lavanderia operasse muito além da capacidade prevista. O especialista naval Sal Mercogliano resumiu o mecanismo. "Equipamentos que normalmente seriam revisados podem estar operando além do limite. Sempre que você ultrapassa as horas normais de operação, as chances de erro mecânico e humano aumentam."

O incêndio de 12 de março não foi uma falha de engenharia isolada. Foi o resultado previsível de homens e máquinas operando além do ponto de ruptura, numa missão que começou no Caribe, passou pelo Mediterrâneo e chegou ao Mar Vermelho sem interrupção. O Ford foi reparado em Creta. Mas o que foi consertado foi apenas o metal.

O USS Abraham Lincoln apresenta a dimensão humana do mesmo fenômeno. Duzentos dias no Oriente Médio, 250 desde o embarque inicial. Mais de 10.000 lançamentos de aeronaves em oito meses de operação. Ataques de drones e mísseis iranianos que exigem atenção constante, sem a cadência previsível de uma guerra convencional. E, no fundo do porão, em camarotes superlotados, marinheiros que não foram formados para esse nível de sacrifício prolongado, porque a sociedade que os enviou os educou para outro tipo de vida.

O senador Richard Blumenthal sintetizou a gravidade da situação em carta ao Secretário de Defesa Pete Hegseth. Os relatos levantam "uma questão mais ampla", nas palavras do próprio senador, sobre se a Marinha consegue sustentar o ritmo operacional agora exigido de sua força de porta-aviões. A pergunta é política. A resposta é civilizacional.

A Tecnologia como Anestesia Estratégica

Há uma ilusão confortável que as democracias ocidentais cultivaram nas últimas décadas. A de que a superioridade tecnológica pode compensar qualquer outra deficiência. É uma ilusão cara, literalmente. Os Estados Unidos investem mais em defesa do que os dez países seguintes combinados. O Ford custa mais do que o PIB anual de dezenas de nações. E ainda assim, como os acontecimentos de 2026 demonstram com clareza brutal, a tecnologia não resolve o problema fundamental.

O Ocidente construiu a arma mais sofisticada da história e não conseguiu formar o homem que a opera.

Armas não se operam sozinhas. Navios não se sustentam por automatização. A guerra, em última instância, é um empreendimento humano e depende de homens e mulheres com a disposição, o preparo e a resistência para suportá-la. Quando essa disposição falta, o navio mais sofisticado do planeta fica à deriva por problemas que uma manutenção preventiva adequada e uma tripulação descansada resolveriam.

A superioridade tecnológica do Ocidente tornou-se, paradoxalmente, uma forma de adiar o enfrentamento da questão real. Comprar armas mais caras compensa, por algum tempo, a dificuldade de formar soldados mais preparados. Mas não para sempre. A tecnologia do Ocidente avançou em progressão geométrica, enquanto a disposição de defendê-lo regrediu em proporção aritmética. Essa equação tem um ponto de colapso que nenhum orçamento consegue empurrar indefinidamente para o futuro.

O Clarão que Ilumina Trinta Anos de Combustão

O fogo que o Ocidente precisa apagar não é o da lavanderia do Ford nem o da exaustão do Lincoln. É o fogo mais antigo e mais difícil, que começou nas universidades, nos parlamentos e nas políticas públicas de três décadas de paz, e que o mar apenas tornou visível. (leia também: O Fogo que Não Começa no Mar)

Os dois porta-aviões não são o início do problema. São o clarão que finalmente ilumina a extensão do que foi queimado por dentro, silenciosamente, enquanto o Ocidente celebrava o fim da história.

O incêndio da lavanderia do Ford e o colapso humano do Lincoln fecham um ciclo que começou quando as democracias ocidentais decidiram que a defesa era um custo a cortar, que o soldado era um profissional a terceirizar e que a guerra era um assunto de especialistas, distante demais para exigir qualquer sacrifício coletivo. Agora, a 5.000 quilômetros de casa, 5.000 marinheiros exaustos carregam sozinhos o peso de uma decisão que toda a sociedade tomou.

E a pergunta que o Mar Vermelho faz ao Ocidente, com uma frieza que nenhum discurso político consegue neutralizar, é esta: quando a próxima conta chegar, quem vai estar disposto a pagá-la?


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

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