França, Rússia e a Disputa Estratégica no Sahel

Um conflito geopolítico indireto vem se consolidando entre França e Rússia, especialmente no espaço estratégico do Sahel africano. Diferentemente de países como a Alemanha, historicamente dependentes do gás natural russo, a França construiu ao longo de décadas uma matriz energética baseada na energia nuclear (figura 1), o que lhe confere elevado grau de autonomia energética e maior liberdade estratégica em crises internacionais, como a guerra na Ucrânia iniciada em 2022.
A matriz energética francesa apresenta uma característica singular no contexto europeu: cerca de 70% de sua eletricidade é proveniente da energia nuclear. Essa opção estratégica, consolidada desde a década de 1970, permitiu ao país reduzir sua vulnerabilidade a choques energéticos externos e consolidar sua posição como o maior exportador líquido de eletricidade da Europa (figura 2).

Figura 1: Maiores fontes de energia em França, 2024.

 

Figura 2: Maior fonte de energia doméstica em França, 2024.

Esse fator ajuda a explicar por que a França apresentou menor hesitação relativa na adoção de sanções contra a Rússia quando comparada a economias europeias mais dependentes de hidrocarbonetos russos (figura 3). A Alemanha, por exemplo, manteve por anos uma relação estrutural de dependência energética com Moscou, o que condicionou suas respostas iniciais ao conflito.

Figura 3: Importações trimestrais da UE por origem (fonte: Bruegel based on ENTSOG, GIE and Bloomberg).

Entretanto, a autonomia nuclear francesa possui uma vulnerabilidade estrutural frequentemente negligenciada: a dependência externa do urânio. A França importa integralmente o combustível utilizado em seu parque nuclear, com destaque para fornecedores como Cazaquistão, Uzbequistão, Austrália e Níger (figura 4). Entre esses, o Níger possui importância estratégica particular por situar-se em uma região caracterizada por elevada instabilidade política.

Figura 4: França Importações naturais de urânio e seus compostos por país em 2023 (fonte: elaborado pelo autor baseado em World Integrated Trade Solution). 

Essa realidade desloca parte da questão energética francesa da Europa Oriental para a África Ocidental.

O Cazaquistão, principal fornecedor, apresenta relativa estabilidade institucional e política externa pragmática. Já o Níger insere-se em um ambiente estratégico muito mais volátil. O Sahel constitui hoje uma das regiões mais frágeis do sistema internacional, marcada pela sobreposição de fatores estruturais de instabilidade: fragilidade estatal, insurgências jihadistas, pressão climática, crescimento demográfico acelerado e economias pouco diversificadas (figura 5).

Figura 5: Região do Sahel (fonte: OCHA).
 
Nesse contexto, a presença francesa deve ser compreendida não apenas como herança colonial, mas como parte de uma estratégia de segurança ampliada voltada à contenção de ameaças assimétricas e à preservação de interesses estratégicos, incluindo segurança energética.

As operações Serval (2013) e Barkhane (2014–2022) representaram tentativas de estabilização regional por meio de projeção militar direta. Contudo, os resultados limitados dessas intervenções, combinados com o crescente sentimento anti-francês entre elites políticas e setores da sociedade civil africana, reduziram progressivamente a legitimidade da presença francesa.

Esse ambiente abriu espaço para a atuação russa.

A Rússia passou a expandir sua presença no Sahel a partir de uma estratégia de baixo custo e alta flexibilidade operacional, inicialmente por meio do Grupo Wagner e posteriormente através de estruturas mais formalizadas como o Africa Corps. Essa atuação segue um padrão já observado em outras regiões: apoio militar a regimes politicamente isolados em troca de acesso preferencial a recursos naturais e influência estratégica.

Importante destacar que a Rússia não depende economicamente do urânio africano. Seu interesse na região deve ser interpretado menos como necessidade energética e mais como estratégia de projeção de poder em um ambiente onde o custo de entrada é relativamente baixo e o retorno geopolítico potencialmente elevado.

  • Essa estratégia permite a Moscou simultaneamente:
  • reduzir a influência ocidental em regiões historicamente alinhadas à Europa
  • expandir mercados para sua indústria de defesa
  • consolidar parcerias políticas em fóruns multilaterais
  • ampliar sua presença em cadeias globais de recursos estratégicos

Nesse sentido, o Sahel tornou-se um teatro secundário da competição sistêmica entre potências.

Os golpes militares ocorridos em Mali (2020/2021), Burkina Faso (2022) e Níger (2023) não podem ser atribuídos diretamente à Rússia (figura 6). Contudo, Moscou demonstrou elevada capacidade de explorar o vácuo estratégico deixado pela retração francesa e pela limitada capacidade de resposta das organizações regionais.

Figura 6: Países do Sahel que sofreram golpes recentemente na década de 20 (fonte: elaborado pelo autor com base em World Bank trade database; Carnegie Endowment; Reuters – Orano; Reuters – urânio bloqueado; World Nuclear Association; SIPRI arms transfers report; SIPRI database).

A formação da Aliança dos Estados do Sahel por esses regimes militares simboliza uma tentativa de redefinição das parcerias estratégicas regionais, com afastamento progressivo da França e aproximação pragmática com a Rússia.

Até o momento, os efeitos econômicos diretos sobre o fornecimento de urânio à França permanecem limitados. A principal mudança não ocorreu no volume físico das exportações, mas no aumento do risco geopolítico associado ao fornecimento. O caso mais emblemático foi a nacionalização de ativos ligados à Orano no Níger, sinalizando maior assertividade política local através da estatização dos recursos estratégicos.

Por outro lado, observa-se crescimento nas importações de armamentos por esses países, com maior participação russa nesse mercado, reforçando a dimensão securitária dessa aproximação.

Assim, o impacto estratégico mais relevante não reside na interrupção do fluxo de urânio, mas na transformação do ambiente de segurança regional. O Sahel deixou de ser uma zona de influência predominantemente francesa para tornar-se um espaço de competição geopolítica aberta.

Em termos estratégicos, a França enfrenta hoje não uma perda material imediata, mas uma deterioração gradual de sua posição relativa na região. Já a Rússia, com investimentos relativamente modestos, conseguiu ampliar sua presença política e militar em um espaço historicamente dominado por potências ocidentais.

O caso do Sahel ilustra uma dinâmica mais ampla da geopolítica contemporânea: a competição entre potências ocorre cada vez menos por controle territorial direto e cada vez mais por influência política, segurança, acesso a recursos e redes de dependência estratégica.


 1. A Orano é uma empresa estatal francesa do setor nuclear que atua principalmente no ciclo do combustível nuclear, incluindo mineração de urânio, processamento e reciclagem. A Reuters informou que o Níger respondia por cerca de 15% do suprimento de urânio da Orano em plena operação; depois do golpe, houve bloqueio de exportações, perda de controle da mineração no norte do país, mas não chegou a colocar em risco estratégico o abastecimento do minério na França, pois este déficit foi compensado pela compra do minério no Canadá e Cazaquistão.

22 de março de 2026

  • Prof. Me. Anselmo Heidrich é um professor brasileiro de geografia e pesquisador em geopolítica e relações internacionais. Seu trabalho concentra-se na competição estratégica, geopolítica ambiental e economia política dos recursos naturais. Graduado em Geografia pela UFRGS e Mestre em Geografia Humana pela USP.

     

     

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