A Centelha Digital: A Geração Z e a Nova Onda de Levantes Globais

Uma nova força disruptiva está remodelando o cenário geopolítico global. Nascida e criada na era da internet, a Geração Z, composta por indivíduos que hoje têm entre a adolescência e os vinte e poucos anos, emerge como protagonista de uma onda de protestos que desafia regimes autoritários e abala estruturas de poder consolidadas.

Do Nepal ao Marrocos, passando pelo Peru e Quênia, jovens hiper conectados estão transformando sua indignação digital em movimentos de rua potentes, com uma velocidade e um alcance sem precedentes. 

O estopim, em muitos casos, é a restrição à liberdade de expressão e o bloqueio de redes sociais, ferramentas que para essa geração são extensões de sua própria voz e identidade. Este fenômeno levanta uma questão crucial: estaríamos testemunhando uma nova era de revoluções, impulsionada pela primeira geração de nativos digitais, e quais seriam os reflexos dessa onda pelo mundo?

A recente onda de protestos que varreu o Nepal em setembro de 2025 serve como um estudo de caso emblemático. A decisão do governo de proibir 26 plataformas de redes sociais, incluindo WhatsApp e Instagram, sob o pretexto de combater desinformação, foi a faísca que incendiou a pradaria. Para a juventude nepalesa, a medida foi percebida como uma tentativa direta de silenciar uma crescente campanha anticorrupção, alimentada pela ostentação de riqueza dos chamados nepo babies – os filhos das elites políticas – em plataformas como o Instagram. 

Em apenas dois dias, as ruas de Katmandu foram tomadas por milhares de jovens, muitos em seus uniformes escolares, que, organizados por meio de coletivos anônimos e mensagens virais, forçaram a renúncia do primeiro-ministro e a revogação da proibição. A velocidade com que o governo cedeu ilustra a potência de um movimento que, embora sem liderança centralizada, demonstrou uma capacidade de mobilização avassaladora.

O padrão se repete em outras partes do globo, com adaptações locais. No Marrocos, desde o final de setembro de 2025, o movimento “GenZ 212” (uma referência ao código telefônico do país) tem levado milhares às ruas. Organizados principalmente através da plataforma de comunicação Discord, os jovens marroquinos demandam reformas nos sistemas de saúde e educação e protestam contra os gastos exorbitantes com a Copa do Mundo de 2030, que contrastam com a precariedade dos serviços públicos.

A repressão tem sido brutal, com mortes e centenas de prisões, mas o movimento persiste, utilizando como símbolo a bandeira do mangá One Piece, uma alegoria da luta pela liberdade contra um governo mundial tirânico. No Peru, a promulgação de uma lei que onera os jovens com um plano de previdência privado, somada à percepção de corrupção endêmica e insegurança, levou a protestos massivos que resultaram no afastamento da presidente Dina Boluarte em outubro. Assim como no Marrocos, a bandeira de One Piece se tornou um emblema da resistência.

Esses movimentos, embora geograficamente dispersos e culturalmente distintos, compartilham um DNA comum. A Geração Z, que representa mais de um terço da população mundial e chega a 50% em alguns países asiáticos, é a primeira a não conhecer um mundo sem internet. Para eles, as redes sociais não são apenas ferramentas de comunicação, mas ecossistemas onde a identidade é construída, a informação é consumida e a injustiça é exposta de forma crua e imediata. 

A especialista em Geração Z, Élodie Gentina, aponta que essa geração possui uma “necessidade radical de coerência dos políticos” e um profundo desprezo pela “hipocrisia institucional”. A corrupção, antes um conceito abstrato, torna-se palpável e pessoal quando visualizada em posts de Instagram que exibem mansões e artigos de luxo, contrastando com a realidade de desemprego e falta de oportunidades. As plataformas digitais atuam como “amplificadores emocionais e políticos”, transformando frustrações individuais em movimentos coletivos com uma lógica viral.

Contudo, essa dependência da esfera digital é uma faca de dois gumes. Regimes autoritários, que se apresentam como democracias enquanto minam as liberdades civis, estão cada vez mais sofisticados em suas táticas de guerra cognitiva. Eles não apenas bloqueiam o acesso à informação, como no caso do Nepal, mas também empregam exércitos de bots e trolls para disseminar desinformação, manipular o discurso público, unificar narrativas favoráveis ao regime e semear a discórdia dentro dos movimentos de oposição. 

A ausência de uma liderança centralizada, que confere agilidade e resiliência aos protestos, também os torna vulneráveis à fragmentação e à cooptação. Um estudo da Universidade de Harvard aponta uma queda na taxa de sucesso de campanhas não violentas, de 65% nas décadas de 1980 e 1990 para apenas 34% entre 2010 e 2019, sugerindo que a mobilização digital por si só não garante mudanças duradouras.

Os reflexos dessa nova onda de ativismo são globais e multifacetados. Por um lado, a rápida disseminação de táticas e símbolos, como a bandeira de One Piece, demonstra uma crescente solidariedade transnacional entre os jovens. A queda de governos no Nepal, Bangladesh (2024) e Sri Lanka (2022) em prazos cada vez mais curtos sugere uma aceleração do tempo político. Por outro lado, a reação dos Estados se torna mais coordenada e tecnologicamente avançada. A vigilância digital, a censura e a manipulação da informação são as armas de escolha na tentativa de neutralizar essa insurgência juvenil. 

O sucesso a longo prazo desses movimentos dependerá de sua capacidade de transcender o ativismo de hashtag e construir estratégias híbridas, que combinem a agilidade da mobilização online com a organização offline tradicional, a formação de alianças amplas e a elaboração de projetos políticos concretos. 

A Geração Z já provou que pode derrubar ditadores; o desafio agora é construir as democracias que desejam em seu lugar. A batalha pela liberdade de expressão no século XXI será travada tanto nas ruas quanto nas redes, e essa geração está na linha de frente.


 

Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Editorial DIH em FOCO

Comentários

Para comentar, faça login.

Entrar / cadastrar

Nenhum comentário publicado ainda.

Asher Comments v0.1.60 · Asher Consultoria · DIH em Foco

Acesso

Visitantes Online

Temos 140 convidados e um membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 17752

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.