Guerra Cognitiva na Era Digital. Como Potências Rivais Usam o Debate sobre Data Centers para Enfraquecer os Estados Unidos

A inteligência artificial transformou-se no eixo central da competição estratégica global do século XXI. Dominar sua infraestrutura não é apenas uma questão econômica, mas um imperativo de segurança nacional.

Dentro desse contexto, um padrão perturbador emergiu nos últimos meses, atores estatais vinculados à China, à Rússia e ao Irã têm sistematicamente amplificado tensões domésticas nos Estados Unidos em torno da construção de data centers, com o objetivo de minar o avanço americano no campo da inteligência artificial.

Essa dinâmica não representa um fenômeno isolado. Ela é a versão mais recente de um manual de guerra cognitiva testado e refinado ao longo de décadas, cujos efeitos mais devastadores foram sentidos não nos campos de batalha, mas nas salas de deliberação democrática.

A guerra cognitiva difere das formas tradicionais de conflito porque não busca destruir o inimigo pela força. Ela atua sobre percepções, narrativas e decisões coletivas. Seu objetivo é semear a dúvida, ampliar fraturas existentes e induzir o adversário a tomar decisões prejudiciais a si mesmo por meio de sua própria dinâmica política.

Quanto mais aberta e plural for a sociedade-alvo, mais vulnerável ela tende a ser a esse tipo de operação. Os Estados Unidos, com seu sistema democrático robusto, imprensa livre e amplo debate público, reúnem precisamente as condições que tornam esse vetor de ataque eficaz.

Em junho de 2026, a OpenAI divulgou um relatório detalhando duas campanhas encobertas conduzidas por agentes vinculados à China que utilizaram a própria plataforma ChatGPT para gerar conteúdo destinado a inflamar a opinião pública americana contra a expansão de data centers.

A primeira campanha, denominada "Data Center Bandwagon", produziu imagens e comentários em redes sociais atribuindo o aumento nas contas de luz das famílias americanas à construção de centros de dados para IA.

A segunda articulou narrativas que enquadravam as tarifas americanas como um ato de dominação tecnológica, evitando deliberadamente qualquer menção ao líder chinês Xi Jinping, de modo a projetar a crítica exclusivamente sobre Washington.

As contas operavam com VPNs, utilizavam o idioma chinês simplificado internamente e publicavam conteúdo em inglês, simulando ser cidadãos americanos preocupados com questões locais (OpenAI, 2026).

A empresa de inteligência Alethea, que monitora operações de influência estrangeira, identificou no mesmo período que China, Rússia e Irã mencionaram data centers coletivamente mais de 700 vezes na mídia estatal, entre janeiro e junho de 2026.

O relatório da Alethea ressalta que o padrão observado segue uma lógica bem conhecida, identificar um debate genuíno e emocionalmente carregado, inundá-lo com conteúdo que ecoa o que as pessoas já sentem e deixar que a própria dinâmica social amplifique a polarização. O alvo não é criar a controvérsia do zero, mas tornar um ponto de tensão local em uma ferida nacional que sangra por conta própria (Alethea, 2026).

O paralelo histórico mais revelador para compreender o alcance estratégico desse tipo de operação encontra-se na Alemanha. Por décadas, Moscou cultivou redes de influência dentro do espectro político alemão, financiando e apoiando movimentos que, sob a bandeira de causas legítimas como o pacifismo e a proteção ambiental, serviam indiretamente aos interesses energéticos russos.

O resultado foi uma Alemanha profundamente ambígua em relação à energia nuclear e crescentemente dependente do gás russo. Quando Berlim decidiu pelo desligamento das suas usinas nucleares, culminando no fechamento das últimas três unidades em abril de 2023, o país se tornou estruturalmente vulnerável a pressões externas, com mais de 55% de seu gás natural proveniente da Rússia antes da invasão da Ucrânia em 2022 (Kędzierski, 2022).

A Energiewende, a grande transição energética alemã, foi em parte moldada por uma narrativa antinuclear que Moscou tinha todo o interesse em alimentar. Não havia necessidade de hackear reatores quando bastava financiar a percepção de que eles eram perigosos.
A Friedrich Naumann Stiftung documentou em detalhes as redes de influência russas na Alemanha, descrevendo como Moscou operou por meio de instrumentos políticos, econômicos e midiáticos para aprofundar a dependência alemã do gás.

O relatório "Networks of Power", publicado em dezembro de 2024, mapeou como entidades vinculadas ao Kremlin penetraram setores-chave da economia e da política alemã para garantir que a narrativa sobre segurança energética permanecesse favorável ao gás natural russo e hostil à energia nuclear (Vladimirov, Köppen e Osipova, 2024).

O resultado prático foi uma nação que, ao tentar ser ambientalmente responsável, entregou voluntariamente sua autonomia energética a um adversário estratégico.

O mecanismo é similar ao que se observa hoje nos Estados Unidos, com a diferença de que o objeto da disputa não é o gás, mas o dado. Os data centers são a infraestrutura crítica da era da inteligência artificial. Eles alimentam modelos de linguagem, sistemas de reconhecimento, análise de inteligência e operações militares autônomas. Retardar sua construção nos Estados Unidos, seja por regulações ambientais, seja por resistência comunitária inflamada artificialmente, equivale a desacelerar o desenvolvimento tecnológico americano enquanto a China avança sem essas restrições.

Pesquisa Gallup de maio de 2026 mostrou que 71% dos americanos se opõem à construção de um data center próximo às suas residências. Esse dado, por si só, é uma munição estratégica nas mãos de quem deseja transformar sentimentos genuínos em obstáculos sistêmicos ao poder nacional americano.

O que torna essa operação particularmente sofisticada é o seu uso de vozes autênticas. Conforme observou Ben Nimmo, investigador principal da OpenAI, o modelo não consiste em criar um debate, mas em se agarrar a um debate preexistente e manipulá-lo por meio de contas falsas que simulam ser cidadãos comuns (Nimmo, 2026). 
Lobistas, figuras do setor energético e organizações ambientalistas foram também identificadas como vetores involuntários dessa narrativa. A Alethea documentou como conteúdo originado de operações secretas russas começa a circular em segmentos da sociedade civil americana sem que seus membros saibam que estão amplificando uma agenda externa.

O paralelo com a desinformação climática é igualmente revelador. Um estudo publicado pelo Instituto de Política Climática da Friedrich Ebert Stiftung em abril de 2026 demonstra que Moscou se beneficia da desinformação energética de múltiplas formas simultâneas, preserva receitas de combustíveis fósseis, enfraquece a coesão europeia e forja alianças com atores políticos que, por razões distintas, compartilham o interesse em retardar transições tecnológicas que reduziriam a influência russa no mercado global de energia.

A narrativa contra os data centers nos Estados Unidos opera com a mesma lógica, combinando preocupações legítimas sobre consumo elétrico e impactos ambientais com uma agenda oculta de sabotagem competitiva (Marsili, 2025).

Os Estados Unidos reconhecem crescentemente essa ameaça. A Diretoria de Inteligência Nacional monitorou os esforços de influência estrangeira durante a administração Biden, e o governo Trump desmontou equipes que acompanhavam operações de influência, o que gerou preocupações entre analistas sobre lacunas na defesa cognitiva do país.

Jessica Brandt, ex-funcionária do Diretor de Inteligência Nacional, destacou publicamente que atores estrangeiros não estão fabricando o debate americano sobre IA, mas explorando-o. A distinção é fundamental para a resposta adequada. Suprimir o debate seria antidemocrático e contraproducente. Identificar e neutralizar os vetores de amplificação estrangeira, por outro lado, é uma necessidade estratégica.

O que os casos alemão e americano têm em comum é a exploração da própria abertura democrática como vetor de vulnerabilidade. Sociedades que debatem, que permitem manifestações, que toleram a discordância são mais criativas e mais resilientes no longo prazo, mas também mais permeáveis a operações que se vestem de pluralismo para servir ao autoritarismo.

O antídoto não é fechar o debate, mas tornar o ambiente informacional mais transparente, investir em alfabetização midiática e fortalecer as instituições que monitoram a influência estrangeira sem sufocar a voz cidadã legítima.

A corrida pela inteligência artificial não se decide apenas em laboratórios e servidores. Ela se decide também nas câmaras municipais que aprovam ou rejeitam licenças de construção, nas redes sociais onde cidadãos formam opiniões e nas redações que escolhem quais histórias merecem atenção.

Quem compreender que o campo de batalha mais decisivo da competição estratégica contemporânea é cognitivo terá uma vantagem que nenhum algoritmo, por mais poderoso que seja, poderá substituir.


REFERÊNCIAS

ALETHEA SID TEAM. All Politics are Local, Until There's a Foreign Megaphone: How State Actors & AI Slop Are Amplifying the Homegrown Data Center Revolt Ahead of the Midterms. Alethea Insights, 9 jul. 2026. Disponível em: https://alethea.com/insights/how-state-actors-and-ai-slop-are-amplifying-data-center-revolt. Acesso em: 12 jul. 2026.

KĘDZIERSKI, Michał. A dangerous dependence on Russia: Germany and the gas crisis. OSW Commentary, Varsóvia, 23 fev. 2022. Disponível em: https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/osw-commentary/2022-02-23/a-dangerous-dependence-russia-germany-and-gas-crisis. Acesso em: 12 jul. 2026.

MANKOFF, Jeffrey. Russian Influence Operations in Germany and Their Effect. CSIS Commentary, Washington, 3 fev. 2020. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/russian-influence-operations-germany-and-their-effect. Acesso em: 12 jul. 2026.

MARSILI, Marco. Cognitive Warfare, Disinformation, and Corporate Influence in Europe's Energy Transition. Applied Cybersecurity & Internet Governance, v. 4, n. 1, dez. 2025. Disponível em: https://www.acigjournal.com. Acesso em: 12 jul. 2026.

OPENAI. PRC-linked influence operations are targeting AI debates in the US. OpenAI Global Affairs, 10 jun. 2026. Disponível em: https://openai.com/index/prc-linked-influence-operations-ai-debates/. Acesso em: 12 jul. 2026.

VLADIMIROV, Martin; KÖPPEN, Marius; OSIPOVA, Daria. Networks of Power: Russia's Shadow Influence in Germany. Friedrich Naumann Stiftung für die Freiheit, Potsdam, dez. 2024.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

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