As Democracias Estão Falhando?

A paciência estratégica dos regimes fechados e o desafio de preservar a liberdade sem abrir mão da eficiência!

Nenhum analista sério defenderá que os regimes fechados são superiores às democracias. Mas nenhum analista sério pode ignorar que, em termos de continuidade estratégica, eles operam com vantagens que as democracias precisam reconhecer e enfrentar. A pergunta que abre este artigo não é retórica. Ela é um alerta.

Os fatos são objetivos e estão documentados por think tanks ocidentais, centros de estudos estratégicos da OTAN e analistas do próprio Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O diagnóstico não é ideológico. É operacional.

O que os números revelam

Em fevereiro de 2026, a Coreia do Norte realizou o Nono Congresso do Partido dos Trabalhadores. Kim Jong Un codificou o programa nuclear na doutrina do partido, isolou o arsenal de qualquer negociação futura e desenhou uma arquitetura institucional projetada para sobreviver a qualquer estrutura diplomática que Washington venha a conceber. Em maio do mesmo ano, emendas constitucionais selaram a postura estratégica do regime. Três gerações da mesma família conduzem o mesmo projeto de dissuasão nuclear há mais de sete décadas. O país possui hoje entre 60 e 100 ogivas nucleares e continua expandindo a produção de material físsil. Nenhuma eleição, nenhuma alternância de poder, nenhum debate público interferiu nessa trajetória.

Em março de 2026, a China publicou o esboço do 15º Plano Quinquenal para o período 2026 a 2030. O documento formaliza o que Pequim chama de "guerra total", conceito adotado pelo Partido Comunista Chinês desde pelo menos 2021 e incorporado à Estratégia de Segurança Nacional para o período 2021 a 2025. A "guerra total" é a mobilização nacional para converter vantagens institucionais civis em capacidades de combate. O objetivo declarado é derrotar o "inimigo forte", os Estados Unidos, em competição de longo prazo ou, se necessário, em conflito militar. O plano quinquenal estabelece metas até 2030 para fusão militar e civil, modernização de capacidade de combate e integração de tecnologias civis ao Exército de Libertação Popular. A Marinha chinesa já ultrapassou a americana em número de navios. Pequim planeja em horizontes de 30 a 50 anos. O Belt and Road, o domínio de semicondutores até 2049 e a expansão da presença militar além da primeira cadeia de ilhas no Indo-Pacífico são camadas do mesmo projeto. Nenhuma eleição interrompe esse planejamento.

A Rússia de Putin entrou no quinto ano de guerra contra a Ucrânia. A teoria da vitória russa nunca foi exclusivamente militar. Foi sempre uma aposta na paciência estratégica. O Kremlin acredita que não precisa vencer no campo de batalha. Precisa apenas sobreviver ao interesse ocidental no conflito. Em julho de 2026, Putin declarou que a Rússia "venceria a guerra" e que os ataques ucranianos com drones, embora "criassem problemas", não alterariam o quadro geral. A Rússia sacrificou centenas de milhares de vidas e submeteu sua economia a sanções devastadoras. Mas o projeto estratégico de Moscou não mudou desde 2014. A liderança é a mesma. A direção é a mesma. Não há oposição interna que force correção de rumo.

O Irã financia proxies e redes de influência regionais há mais de quatro décadas. A Guarda Revolucionária Islâmica opera no Líbano, na Síria, no Iêmen e no Iraque independentemente de quem ocupa a presidência da República Islâmica. O projeto de projeção de poder regional sobreviveu a presidentes reformistas e conservadores, a sanções econômicas e a pressões militares. A continuidade estratégica é a regra, não a exceção.

O problema não é a alternância de poder

Nenhum desses fatos sugere que regimes fechados sejam desejáveis. A alternância de poder pelo voto é uma conquista civilizacional irreversível. O debate público é o oxigênio da inovação. A transparência é a vacina contra o arbítrio. A liberdade de imprensa, de associação e de contestação são o que distingue sociedades abertas de prisões a céu aberto.

O problema não é a alternância de poder. O problema é a descontinuidade estratégica que às vezes a acompanha.

Quando cada novo governo desfaz o que o anterior construiu, a política externa e a política de defesa perdem credibilidade. Quando prioridades de segurança nacional são renegociadas a cada quatro ou cinco anos, os adversários aprendem a esperar. Quando o orçamento militar de uma potência se torna refém de impasses legislativos temporários, o planejamento de longo prazo se torna um exercício de ficção.

A China sabe que um presidente americano pode endurecer sanções e o seguinte pode suspendê-las. A Rússia sabe que o apoio militar ocidental à Ucrânia pode oscilar conforme o ciclo político em Washington ou em capitais europeias. A Coreia do Norte sabe que a pressão por desnuclearização pode ser intensa em uma administração e quase inexistente na seguinte. Esses atores não precisam vencer o Ocidente. Precisam apenas esperar.

O preço da "eficiência" autoritária

Antes de examinar como as democracias estão respondendo, é indispensável registrar o que os regimes fechados sacrificam para obter essa continuidade estratégica.

A repressão interna não é um efeito colateral do sistema autoritário. É o seu pré-requisito. A Coreia do Norte mantém campos de prisioneiros políticos e uma população submetida à fome crônica. A China opera um sistema de vigilância em massa sem paralelo na história, com crédito social, censura algorítmica e desaparecimento forçado de opositores. A Rússia silencia, prende e elimina vozes dissidentes dentro e fora de suas fronteiras. O Irã enforca manifestantes e pune com a morte mulheres que desafiam o código de vestimenta.

Regimes fechados são estruturalmente incapazes de correção de rumo por feedback social. Sem imprensa livre, sem oposição política, sem sociedade civil, eles avançam em linha reta até encontrarem um obstáculo intransponível. Quando colapsam, colapsam inteiros. A União Soviética não se reformou. Desmoronou. O mesmo aconteceu com o regime de Ceausescu na Romênia, com Mobutu no Zaire e com tantos outros.

A inovação real depende de liberdade intelectual. O Vale do Silício não nasceu em Pequim. A internet livre, a inteligência artificial generativa e a revolução biotecnológica são produtos de sociedades onde o pensamento pode circular sem medo. Regimes fechados são bons em copiar, reengenhar e aplicar tecnologia existente. São péssimos em inventar o novo.

A resposta das democracias

A pergunta que dá título a este artigo não ficou sem resposta. As democracias estão respondendo. E a resposta é robusta.

A OTAN aprovou na Cúpula de Haia, em 2025, um compromisso vinculante de investimento de 3,5% do PIB em defesa até 2035, com mais 1,5% em segurança e defesa em sentido amplo. Só em 2025, aliados europeus e o Canadá aumentaram em mais de 139 bilhões de dólares os investimentos em capacidades essenciais de defesa. Na Cúpula de Ancara, em julho de 2026, os aliados anunciaram mais de 50 bilhões de dólares em novas aquisições e se comprometeram a expandir a capacidade industrial coletiva, eliminar barreiras comerciais de defesa entre os membros e acelerar a inovação. A aliança não apenas declarou intenções. Está financiando capacidades.
Os Estados Unidos criaram mecanismos como o AUKUS, parceria estratégica com Reino Unido e Austrália que inclui a transferência de tecnologia de submarinos nucleares. O horizonte do projeto é medido em décadas. O Quad, reunindo EUA, Japão, Índia e Austrália, estrutura a cooperação de segurança no Indo-Pacífico com horizonte de longo prazo. Nenhum desses arranjos depende do resultado de uma única eleição.

A União Europeia lançou a Bússola Estratégica, documento que estabelece uma visão comum de defesa e segurança com metas vinculantes. O Japão rompeu décadas de tabu constitucional e aprovou o aumento expressivo de seu orçamento de defesa com amplo apoio parlamentar suprapartidário. A Alemanha fez o mesmo. O Zeitenwende, ponto de inflexão anunciado pelo chanceler Scholz em 2022, não foi revertido pela alternância política de 2025. A política de defesa alemã tornou-se política de Estado.

O Brasil, no seu próprio ritmo e escala, também demonstra que é possível construir políticas de Estado na área de defesa. A Estratégia Nacional de Defesa, o Programa de Submarinos, o desenvolvimento do Gripen e a modernização das Forças Armadas são projetos que sobrevivem a governos porque foram ancorados em capacidades, doutrina e orçamento, e não em preferências partidárias.

Democracias não são lentas por natureza

A evidência reunida pela ciência política comparada mostra que democracias são perfeitamente capazes de planejamento estratégico de longo prazo. A Guerra Fria foi vencida por uma aliança de democracias que sustentou uma estratégia de contenção por mais de quatro décadas, atravessando administrações democratas e republicanas, governos trabalhistas e conservadores, coalizões de centro-esquerda e de centro-direita. A chave não era a rigidez autoritária. Era a construção de consensos estratégicos duradouros ancorados em instituições, e não em lideranças.

O que as democracias precisam não é abandonar seus valores para imitar a "eficiência" dos adversários. O que precisam é corrigir a descontinuidade estratégica sem sacrificar a liberdade. Instituições fortes, alianças vinculantes, orçamentos plurianuais blindados, mecanismos de coordenação interpartidária em política externa e de defesa. Estes são os instrumentos que as democracias já possuem e estão aperfeiçoando.

A OTAN existe há 77 anos. Sobreviveu ao fim da Guerra Fria, à dissolução do Pacto de Varsóvia e a inúmeras crises internas. A aliança transatlântica é a prova viva de que democracias sabem jogar o jogo longo.

Vantagem operacional não é superioridade moral

Regimes fechados possuem uma vantagem operacional real. Eles planejam em décadas. Não enfrentam oposição interna capaz de alterar o curso estratégico. Não prestam contas a parlamentos, à imprensa ou à opinião pública. Essa vantagem é real. Mas ela tem prazo de validade.

Sistemas que suprimem o feedback social são sistemas que não aprendem. Sistemas que não aprendem são sistemas que quebram. A questão nunca foi se o modelo autoritário é mais eficiente. A questão é por quanto tempo ele consegue sustentar a ilusão de eficiência antes que a realidade o alcance.

As democracias não estão falhando. Estão sendo testadas. O teste não é novo. Já foi aplicado nos anos 1930 e as democracias venceram. Já foi aplicado durante a Guerra Fria e as democracias venceram.

A tarefa agora é garantir que vençam de novo. Não imitando o autoritarismo, mas corrigindo o que nelas precisa ser corrigido. A liberdade não é o obstáculo à eficiência estratégica. A descontinuidade é. E descontinuidade se resolve com instituições, não com repressão.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza

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Especialista Álex Sandor 10/08/2026 01:34

Regimes autoritários como o da Coreia do Norte utilizam o sigilo estrito e o isolamento estratégico para desenvolver capacidade de dissuasão real (como o programa nuclear), impedindo interferências externas diretas. Por outro lado, a transparência inerente às democracias e a vulnerabilidade à espionagem dificultam o desenvolvimento de projetos soberanos de alta sensibilidade sem o conhecimento de grandes potências.

A questão central é: como o Brasil pode desenvolver um poder de dissuasão bélico e tecnológico à altura de suas riquezas — como a Amazônia e os recursos hídricos —, garantindo autonomia estratégica sem se submeter aos interesses geopolíticos de grandes potências (EUA, China, Rússia)?

Diante da crescente disputa global por recursos naturais, o Brasil corre o risco de passar por um processo de exploração similar ao que ocorreu no continente africano caso não consolide uma infraestrutura de defesa forte e independente.

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