
Em fevereiro de 2026, a guerra na Ucrânia completa quatro anos e entra em seu quinto. Como analisam Rebecca Lissner e John Kawika Warden na edição de março/abril da Foreign Affairs, o conflito contrariou todas as expectativas: não foi curto nem decisivo para nenhum dos lados.
A Ucrânia demonstrou capacidade extraordinária de inovação e resistência; a Rússia, apesar do desempenho militar inicial desastroso, regenerou forças, adaptou táticas e sustentou sua economia. Militares do mundo inteiro debruçam-se sobre as lições dos campos de batalha ucranianos, drones autônomos, guerra eletrônica, inteligência artificial, satélites comerciais empregados em tempo real. Todos buscam entender a nova forma de guerra do século XXI.
Todos, aparentemente, menos o Brasil.
Enquanto o mundo estuda a Ucrânia, o Brasil assiste à erosão silenciosa de suas próprias Forças Armadas com uma passividade que beira a negligência estratégica. Os dados são inequívocos e públicos. Em outubro de 2025, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, declarou ao Senado que as Forças Armadas brasileiras dispõem de munição para apenas 30 dias de combate e que a Venezuela já possui caças mais eficazes que os nossos.
A Força Aérea Brasileira opera à beira do colapso: a entrega dos caças Gripen avança a conta-gotas enquanto os F-5, projetados nos anos 1960, são aposentados sem substituição adequada. Na Marinha, 43 embarcações, cerca de 40% da frota, serão desativadas até 2028 sem garantia de reposição, e o submarino de propulsão nuclear brasileiro, concebido em 2008, teve seu prazo empurrado para 2040.
O Exército mantém quase 300 tanques em seu inventário, mas a maioria é composta por modelos adquiridos de segunda mão entre as décadas de 1990 e 2000, com sérios problemas de peças e manutenção. O orçamento das Forças Armadas sofreu redução de 24% nos últimos cinco anos.
A obsolescência do material militar brasileiro não é, portanto, um risco futuro, é uma realidade presente. E a guerra na Ucrânia demonstrou com clareza brutal o que acontece quando um país enfrenta um adversário tecnologicamente superior com equipamentos defasados: trincheiras, atrito, destruição massiva e perdas humanas inaceitáveis.
A inovação ucraniana, que transformou drones comerciais de R$ 2 mil em armas capazes de destruir blindados de R$ 20 milhões, só foi possível porque existia uma base industrial e tecnológica mínima, aliada a uma cultura de adaptação e pensamento crítico que as forças armadas ucranianas cultivaram. Sem essa base, a criatividade não tem onde florescer.
E aqui reside o segundo problema estrutural brasileiro: a crise de pessoal. As inscrições para a Escola de Sargentos das Armas caíram 52% nos últimos quatro anos, com a menor nota de corte da história. A CNN Brasil revelou que Marinha e Exército perderam juntos mais de 5.200 profissionais de carreira na última década, com picos recordes em 2024 e 2025.
O mais alarmante é que a evasão não se restringe mais aos jovens recém-formados: majores com mais de 20 anos de serviço estão pedindo baixa, oficiais experientes que representam décadas de investimento em formação.
Cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras receberão em 2026 soldo inferior a R$ 1.500 — menos que o salário mínimo. A carreira das armas tornou-se, para muitos, uma sentença de empobrecimento e frustração profissional, não uma vocação viável.
A guerra na Ucrânia mostrou que conflitos modernos exigem não apenas tecnologia, mas capital humano motivado, bem treinado e capaz de pensar criticamente sob pressão.
A adaptação tática ucraniana, de unidades descentralizadas usando drones first person view (FPV) a operadores de guerra eletrônica improvisando soluções em campo, só foi possível porque havia espaço para o pensamento criativo na cadeia de comando.
No Brasil, a cultura institucional das Forças Armadas opera na direção oposta: uma estrutura hierárquica rígida onde o pensamento crítico é frequentemente confundido com insubordinação, onde diagnósticos francos sobre deficiências são evitados por conveniência política, e onde a gestão prioriza cerimônias e tradições enquanto as capacidades operacionais se deterioram. Como sintetizou o analista Nelson During, da DefesaNet: "Falta tudo e não sobra dinheiro para nada; mas há excesso de orgulho."
E há, por fim, a dimensão geopolítica que os decisores brasileiros parecem se recusar a enxergar. O Brasil possui a maior reserva de água doce do planeta, vastos recursos minerais estratégicos, incluindo nióbio, terras raras e lítio, a maior biodiversidade do mundo e o pré-sal.
Em um século de disputas por recursos naturais, mudanças climáticas e reconfiguração da ordem global, acreditar que a vastidão territorial e a tradição pacífica são, por si sós, garantias de segurança é uma forma sofisticada de ingenuidade.
A Ucrânia também acreditava que a diplomacia e os memorandos internacionais, como o de Budapeste, de 1994, garantiriam sua integridade territorial. Descobriu da forma mais dura possível que compromissos de papel não detêm tanques.
Lissner e Warden argumentam que Washington não deve esperar o fim da guerra para extrair conclusões. A mesma urgência vale para Brasília, talvez até mais, dada a profundidade da crise.
As lições da Ucrânia para o Brasil não são sobre comprar drones ou copiar táticas. São sobre construir uma cultura de defesa que combine capacidade tecnológica, valorização do capital humano, pensamento estratégico e, acima de tudo, honestidade institucional para reconhecer problemas antes que eles se tornem catástrofes.
A guerra na Ucrânia é um espelho. O Brasil pode escolher olhar para ele e agir, ou pode continuar distribuindo medalhas enquanto suas Forças Armadas se dissolvem em silêncio. A história, como a Ucrânia aprendeu em 24 de fevereiro de 2022, não costuma avisar duas vezes.
Autor: DIH em FOCO
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Graduado em Direito.
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Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional.
21 de fevereiro de 2026

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