Por que o Militar Precisa Entender de Inteligência Artificial ?

A transformação tecnológica que redefine o início do século XXI reposicionou de modo irreversível o papel do conhecimento técnico no exercício da profissão das armas. A Inteligência Artificial, antes confinada a laboratórios universitários e centros civis de pesquisa, projeta-se hoje sobre o campo de batalha, sobre os processos de planejamento e sobre a própria forma de pensar a guerra. Para o profissional militar contemporâneo, compreender os fundamentos conceituais, as aplicações práticas e os desdobramentos operacionais e doutrinários dessa tecnologia tornou-se requisito inadiável, parte essencial do arcabouço de capacidades e competências exigidas pela defesa moderna.

A IA constitui tecnologia genuinamente disruptiva por sua capacidade de processar volumes massivos de dados, reconhecer padrões, gerar previsões e apoiar decisões em velocidades antes inalcançáveis. Embora seu desenvolvimento ocorra majoritariamente em ecossistemas civis, onde convergem grandes bases de dados, poder computacional e investigação em algoritmos de aprendizado de máquina, suas aplicações militares ampliam-se em ritmo exponencial. Os conflitos recentes, com destaque para a guerra na Ucrânia, demonstram que a integração da IA aos sistemas de comando e controle, aos sensores e às plataformas autônomas redefine a velocidade do ciclo decisório e a própria geometria das operações.

A maturação dessa tecnologia ocorre em um ambiente internacional marcado por crescente competição entre potências. Estados que historicamente se posicionam como contestadores da ordem internacional baseada em regras, notadamente a República Popular da China e a Federação da Rússia, investem volumes consideráveis em capacidades militares de IA. Esse movimento tornou a corrida pela proficiência algorítmica um elemento central da equação estratégica global, com implicações diretas para países comprometidos com a estabilidade do sistema internacional e com a preservação de balizas normativas consolidadas após a Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, esse cenário materializou-se em iniciativas concretas e recentes. O Estado-Maior do Exército publicou em 2024 a Diretriz de Inteligência Artificial, instrumento que estabelece princípios éticos, objetivos estratégicos e orientações para a implementação da tecnologia em apoio à decisão, à análise de dados e aos sistemas operacionais. Em 2026, foi formalizada a criação do Curso Básico de Inteligência Artificial Aplicada para sargentos, com participação prevista da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira, indicando que a IA deixou de ser tema periférico e passou a ocupar posição estruturante na capacitação técnica das três Forças.

No cenário internacional, exemplos abundantes reforçam a centralidade do tema. O Comando do Estado-Maior Geral do Exército dos Estados Unidos, em Fort Leavenworth, lidera a integração de IA na educação militar profissional, criando exercícios de jogos de guerra baseados em agentes inteligentes alimentados por mais de cem mil pontos de dados doutrinários. A Força Aérea norte-americana publicou em 2025 nota doutrinária dedicada à IA, abordando temas como o trabalho conjunto entre humano e máquina, a distinção entre automação e autonomia e a construção de uma força preparada para operar com algoritmos. O Corpo de Fuzileiros Navais lançou estratégia própria centrada na obtenção de vantagem decisória, enquanto Suécia e Noruega conduziram, em parceria, o estudo Comprehensive Shield 2025 sobre o impacto da IA no processo de planejamento operacional. A consistência desses esforços entre democracias aliadas revela um padrão deliberado de cooperação tecnológica e doutrinária.

A primeira justificativa para a capacitação militar em IA encontra-se na dimensão operacional. A tecnologia acelera o ciclo decisório, comprime os tempos de adjudicação em jogos de guerra e amplia a consciência situacional do comandante. Sistemas baseados em IA fundem informações provenientes de sensores diversos, processam imagens de satélite, interpretam sinais de inteligência e cruzam fontes abertas em ritmo incompatível com o trabalho exclusivamente humano. O resultado é uma capacidade ampliada de antecipar movimentos do oponente, identificar oportunidades e mitigar riscos no que se convencionou chamar de Guerra Multidomínio.

A dimensão doutrinária impõe outra camada de exigência ao militar moderno. Compreender IA significa atualizar manuais, técnicas, táticas e procedimentos, além de revisar regras de engajamento em cenários nos quais sistemas algorítmicos participam da cadeia de decisão. O profissional precisa distinguir com clareza os conceitos de automação e autonomia, identificar a posição do humano no laço decisório, avaliar a maturidade tecnológica dos sistemas em aquisição e integrar a IA aos processos formais de planejamento operacional. Sem esse domínio conceitual, qualquer esforço de modernização corre o risco de produzir capacidades subaproveitadas ou empregadas de modo inadequado.

A dimensão ética e jurídica adiciona complexidade considerável e merece destaque particular em uma reflexão informada pelo Direito Internacional Humanitário. O emprego de sistemas com graus variáveis de autonomia levanta questionamentos profundos sobre responsabilidade, accountability e conformidade com as normas que regulam a condução das hostilidades. Os princípios da distinção, da proporcionalidade e da precaução, consolidados ao longo de décadas de prática internacional, precisam ser interpretados à luz de decisões algorítmicas frequentemente opacas. Esse esforço interpretativo é tarefa que cabe primordialmente aos Estados que constroem e respeitam o ordenamento internacional, e que dele extraem legitimidade para o uso da força. O militar profissional deve estar apto a questionar dados de treinamento, identificar vieses, compreender as limitações dos modelos e exigir transparência suficiente para justificar moralmente as ações executadas com apoio da máquina.

Há também uma dimensão propriamente profissional, que toca a essência da profissão das armas. Pesquisa publicada pelo Australian Army Research Centre identifica quatro aspectos profissionais afetados pela IA, entre os quais a expertise, a ética, a identidade cultural e a autorregulação da carreira. A IA pode alterar o caráter da guerra, mas não modifica sua natureza fundamentalmente humana. Por essa razão, o militar deve integrar fluência tecnológica ao julgamento tradicional, preservar a confiança e a coesão em equipes híbridas formadas por humanos e máquinas, liderar a definição de fronteiras morais e doutrinárias para o uso da IA e, sobretudo, moldar ativamente a tecnologia em vez de ser por ela moldado. Valores como serviço, coragem, respeito, integridade e excelência permanecem essenciais e devem orientar a profissão a atravessar esse período de transformação acelerada.

No plano estratégico, a IA tornou-se elemento central da disputa de poder. Para países como o Brasil, que aspiram a manter autonomia decisória e capacidade dissuasória crível, a formação de quadros militares fluentes em IA representa investimento de soberania. Não basta adquirir sistemas prontos no mercado internacional. É necessário desenvolver competência interna para avaliar, integrar, adaptar e, sempre que possível, produzir soluções próprias em cooperação com a base industrial de defesa, a academia e a iniciativa privada nacional. A proximidade institucional com parceiros tecnológicos confiáveis, sobretudo aqueles que partilham compromisso com a ordem internacional baseada em regras, oferece atalhos legítimos para encurtar curvas de aprendizado sem comprometer autonomia.

As competências requeridas variam conforme o nível hierárquico e funcional. Aos praças e sargentos cabe operar ferramentas baseadas em IA, alimentar bases de dados com qualidade e identificar inconsistências em saídas algorítmicas. Aos oficiais intermediários compete integrar a IA ao planejamento tático e operacional, liderar equipes mistas e propor adequações doutrinárias. Aos oficiais superiores e integrantes de estados-maiores cabe conceber doutrina, definir requisitos operacionais, julgar implicações éticas e jurídicas e conduzir programas de modernização. Aos oficiais-generais incumbe decidir investimentos estratégicos, negociar com a base industrial e parceiros internacionais e moldar políticas públicas de defesa. Estudo elaborado na Air University norte-americana sustenta, com razão, que a IA deve estar presente em todos os níveis da educação militar profissional, da formação inicial à preparação dos oficiais-generais.

A não capacitação dos quadros militares produz riscos consideráveis. O primeiro é a defasagem doutrinária frente a adversários que já operacionalizam capacidades baseadas em IA. O segundo é a dependência tecnológica acompanhada de incapacidade crítica de avaliação, situação em que o país adquire sistemas sem compreender plenamente suas limitações e vulnerabilidades. O terceiro envolve falhas operacionais decorrentes do excesso de confiança nos algoritmos ou, no extremo oposto, da subutilização de ferramentas valiosas. O quarto consiste em vulnerabilidades cibernéticas em sistemas mal compreendidos, suscetíveis a ataques adversariais que manipulam dados ou induzem erros nos modelos. O quinto compreende crises éticas e jurídicas decorrentes do uso impróprio de sistemas autônomos. O sexto, talvez o mais grave, é a perda da vantagem decisória, hoje principal centro de gravidade dos conflitos modernos.

Diante desse quadro, a formação militar precisa ser revista em múltiplas frentes. Os currículos das academias e escolas de formação devem incorporar fundamentos de ciência de dados, aprendizado de máquina e ética algorítmica desde os estágios iniciais. As escolas de aperfeiçoamento e os cursos de estado-maior precisam tratar a IA como matéria transversal, presente nos exercícios de planejamento, nos estudos de caso e nas pesquisas individuais. A educação continuada deve oferecer trilhas específicas para diferentes funções, contemplando desde a operação de ferramentas até a concepção de políticas. A cooperação com universidades civis, empresas de tecnologia e forças militares aliadas amplia o alcance e a qualidade dessa formação, evitando o isolamento doutrinário.

Os exercícios e jogos de guerra adquirem papel particularmente relevante nesse processo formativo. A experiência norte-americana em Fort Leavenworth mostra que pequenos grupos de estudantes e instrutores, utilizando ferramentas comerciais acessíveis, conseguem construir agentes inteligentes capazes de simular reações adversárias, avaliar cursos de ação e acelerar drasticamente o aprendizado. Esse modelo transforma escolas militares em verdadeiros centros de desenvolvimento de soluções, formando oficiais que chegam às unidades operacionais como agentes imediatos de mudança. Iniciativas semelhantes podem e devem ser replicadas no contexto brasileiro, aproveitando o talento existente nas Forças Armadas e o ecossistema crescente de tecnologia nacional.

Outro ponto fundamental envolve a construção de uma cultura institucional favorável à inovação responsável. Não basta capacitar indivíduos isoladamente. É necessário que a estrutura organizacional reconheça, valorize e recompense iniciativas que incorporem IA aos processos operacionais, administrativos e logísticos. Isso exige liderança esclarecida nos escalões mais altos, mecanismos ágeis de experimentação, tolerância calibrada ao erro em ambientes controlados e disposição para revisar procedimentos consagrados sempre que a evidência empírica indicar caminhos mais eficientes. A Diretriz de IA do Exército Brasileiro representa passo importante nessa direção, mas precisa ser acompanhada de implementação consistente e monitoramento permanente.

A formação humanística também merece destaque nesse contexto. Quanto mais sofisticadas se tornam as máquinas, mais relevante se torna o discernimento humano sobre os fins últimos da ação militar. O profissional capaz de pensar criticamente sobre o uso da força, de ponderar consequências de longo prazo e de articular a ação tática a objetivos estratégicos e políticos preserva a centralidade do humano em meio à proliferação tecnológica. A IA amplifica capacidades, mas não substitui o julgamento, a coragem moral e a responsabilidade que definem a profissão das armas desde suas origens. Esse equilíbrio entre potência tecnológica e moderação ética é, em si, um traço civilizacional digno de ser preservado.

Em síntese, conhecer IA tornou-se atributo profissional tão essencial quanto compreender táticas, logística, comunicações ou liderança. O militar do século XXI deve ser, simultaneamente, combatente preparado, líder inspirador e curador crítico de tecnologia. A construção desse perfil exige esforço coordenado de instituições de ensino, comandos operacionais, base industrial de defesa e formuladores de políticas públicas. O investimento na capacitação dos quadros em IA não é despesa supérflua nem modismo passageiro, mas condição de relevância estratégica, eficácia operacional e legitimidade ética para Forças Armadas comprometidas com a soberania nacional e com o respeito ao ordenamento internacional. A profissão das armas precisa moldar a Inteligência Artificial antes que seja moldada por ela, e essa tarefa começa, necessariamente, pela formação consciente, profunda e continuada de seus profissionais

Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza - Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1719914108268416 

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