Hoje, o planeta enfrenta uma pressão intensa, algo não visto desde os tempos finais da Guerra Fria. Já se passaram cinco anos do início do combate na Ucrânia, ainda sem sinais reais de calmaria. Na região de Gaza, a instabilidade cresce, puxada por envolvimentos que alcançam Irã, Líbano, Iêmen e também a Síria. No outro lado do globo, EUA e China aumentam suas disputas no espaço indo-pacífico; ali, lugares como Taiwan, o mar ao sul da China e a península coreana viram foco constante de choque. A África vive uma onda de instabilidade no Sahel. A América Latina enfrenta tensões na Venezuela e na Guiana, além do avanço do crime organizado transnacional. Esse quadro de múltiplas crises simultâneas redesenhou a percepção global sobre segurança e empurrou Estados a investirem em capacidades militares como não se via há décadas.
Os números traduzem essa nova realidade. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, conhecido como SIPRI, os gastos militares mundiais alcançaram US$ 2,887 trilhões em 2025. Foi o décimo primeiro ano consecutivo de crescimento, com alta real de 2,9 por cento sobre 2024. A carga militar global, medida como percentual do produto interno bruto mundial, chegou a 2,5 por cento, o maior patamar desde 2009. Em uma década, os gastos cresceram 41 por cento. Estados Unidos, China e Rússia concentram pouco mais da metade do total, somando US$ 1,48 trilhão. A Europa puxou o aumento mais expressivo em 2025, com avanço de 14 por cento, reflexo direto do rearmamento promovido pela OTAN diante da ameaça russa. A Ásia e a Oceania avançaram 8,1 por cento, impulsionadas por Japão, Coreia do Sul, Índia, Taiwan e Austrália.
Esse cenário criou uma demanda sem precedentes por equipamentos militares de toda natureza. Países europeus que reduziram drasticamente seus estoques após décadas de paz agora correm para repor munições, blindados, sistemas antiaéreos, aeronaves de transporte tático e mísseis. Os Estados membros da OTAN comprometeram-se com a meta de 2 por cento do PIB, hoje superada por mais de dois terços do grupo, e países como Polônia, Estônia e Letônia já operam acima de 4 por cento.
A indústria de defesa norte-americana, europeia, israelense, sul-coreana e turca trabalha com filas de pedidos que ultrapassam vários anos. Há gargalos críticos na produção de munição de artilharia calibre 155 milímetros, de mísseis interceptadores, de drones de variadas classes e de sistemas integrados de comando e controle. Essa saturação dos fornecedores tradicionais abriu uma janela inédita para players emergentes.
É justamente nessa janela que o Brasil começa a se posicionar de forma surpreendente. A Base Industrial de Defesa nacional, conhecida pela sigla BID, viveu em 2025 seu melhor momento histórico. Licenças para vender armas e serviços militares ao exterior somaram 3,1 bilhões de dólares. Esse valor sobe 74 por cento frente a 2024. Desde 2023, o aumento chega a 114 por cento. Hoje, essa área representa perto de 3,49 por cento do total produzido pelo Brasil. Quase três milhões de postos de trabalho estão ligados a esse ramo. Empresas envolvidas nisso são cerca de 80. Elas entregam mercadoria em aproximadamente 140 nações. Todos os continentes recebem esses produtos. Entre os que mais compram estão Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal. Essa lista chama atenção. Mostra clientes com forte base industrial. Também inclui países integrantes completos da aliança militar europeia.

O destaque dessa trajetória? É o KC-390 Millennium, produzido pela Embraer Defesa e Segurança. Esse avião militar, capaz de transportar cargas pesadas ou abastecer outras aeronaves no ar, voa hoje sob bandeiras como as de Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia - além do Brasil.
Enquanto isso, negociações seguem em estágio avançado com diversas nações por fora dessas listas. Para a indústria local, não há memória de algo parecido: ele enfrenta de igual para igual o C-130 Hercules dos EUA. Desempenho à parte, encara bem os temas de manutenção, eficiência nos gastos e capacidade de produção contínua.
Paralelamente, outro modelo da mesma empresa cumpre missões ao redor do mundo - o Super Tucano A-29. Mais de 15 exércitos aéreos já incorporaram essa aeronave às suas frotas.
A Avibras, apesar de suas dificuldades financeiras recentes, mantém o sistema Astros como referência em artilharia de foguetes. A Iveco produz no Brasil o blindado Guarani, exportado para a região.
Com apoio francês, a Marinha segue adiante no Programa de Submarinos, o PROSUB, trabalhando também na construção de um submarino movido a energia nuclear.
Já os novos caças F-39 Gripen chegam à Força Aérea por meio de acordo firmado com a Suécia, trazendo consigo importante troca técnica destinada à Embraer e outras companhias locais.

Fonte: Marinha do Brasil, Exército Brasileiro, FAB, Embraer, Avibras, Iveco e SIATT.
Mosaico: Alexandre Pacheco
As oportunidades à frente são consideráveis e merecem leitura cuidadosa. A primeira delas é a continuidade do ciclo global de rearmamento, que o próprio SIPRI projeta como persistente em 2026 e nos anos seguintes.
Depois vem a pressão sobre os velhos fornecedores, o que abriu brecha para opções seguras e sem vínculos políticos. Quase ninguém espera isso: o Brasil tem trânsito livre na política internacional, já que fica fora de guerras recentes, não faz parte de pactos militares rígidos e conversa bem com quase todo mundo. Por ali, muitos governos veem nele uma saída prática pra trocar armamento sem se prender a acordos complicados.
Ao mesmo tempo surge outra chance: África e América Latina, lugares onde máquinas herdadas da era comunista começam a falhar e exigem reposição urgente.
A quarta é o Oriente Médio, onde monarquias do Golfo buscam diversificar parceiros para além dos Estados Unidos e da França. A quinta é a Ásia, com países como Indonésia, Filipinas e Vietnã interessados em soluções de custo competitivo. A sexta, talvez a mais promissora, é o próprio bloco da OTAN, que já abriu suas portas para o KC-390 e pode demandar outros produtos brasileiros.
Há também oportunidades estruturais internas. O Programa Nova Indústria Brasil, lançado em 2024, dedica sua Missão 6 ao setor de defesa, com meta ambiciosa de elevar o domínio tecnológico nacional dos atuais 42 por cento para 75 por cento até 2033, em áreas como radares, satélites, foguetes, propulsão e cibernética. A retomada do investimento em ciência e tecnologia militar, somada ao protagonismo do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial e do Centro Tecnológico do Exército, recoloca o país em rota de autonomia em segmentos sensíveis. A Estratégia Nacional de Defesa, formulada ainda em 2008, começa finalmente a render frutos consistentes quase duas décadas depois de sua concepção.
Os óbices, contudo, são igualmente reais e não podem ser ignorados. O tamanho pequeno do orçamento de defesa do Brasil vem primeiro na lista - fica perto de 1,1 por cento do PIB, bem menor que a média mundial de 2,5 por cento, e insuficiente para segurar uma indústria sólida nesse setor. Já sem pedidos constantes dentro do país, as empresas locais encolhem, cobram mais pelos itens e travam diante dos valores pesados ligados à pesquisa e criação de novas tecnologias.
O segundo óbice é a carga tributária elevada sobre os produtos de defesa fabricados no país, que reduz a competitividade frente a concorrentes turcos, sul-coreanos e israelenses, beneficiados por regimes fiscais mais favoráveis. O terceiro é a fragilidade do financiamento à exportação, já que as agências de crédito brasileiras não conseguem oferecer condições comparáveis às da Coface francesa, da Sace italiana ou do Ex-Im Bank norte-americano, o que pesa em concorrências internacionais nas quais o pacote financeiro frequentemente decide o vencedor.
Outro obstáculo importante é a descontinuidade de políticas públicas. Programas estratégicos como o PROSUB, o Gripen, o KC-390, o sistema Astros e o satélite geoestacionário de defesa atravessam diferentes governos e sofrem com cortes orçamentários, contingenciamentos e prioridades cambiantes. A previsibilidade orçamentária é fator decisivo em uma indústria cujos ciclos de desenvolvimento se medem em décadas. A burocracia para autorizações de exportação, embora justificável do ponto de vista do controle de uso final, ainda é vista por muitas empresas como lenta e pouco coordenada com as estratégias comerciais. A concentração da pauta em poucos produtos, especialmente os fabricados pela Embraer, expõe o setor a riscos de mercado e tecnológicos. As pequenas e médias empresas que compõem a BID são, em sua maioria, descapitalizadas, com baixa capacidade de internacionalização e dificuldades para certificações exigidas pelos compradores estrangeiros.
Há ainda os óbices externos. A concorrência internacional ficou mais agressiva nos últimos anos. A Turquia transformou seus drones Bayraktar em fenômeno global. A Coreia do Sul exporta tanques K-2, obuseiros K-9 e aeronaves FA-50 com agilidade impressionante. Israel domina segmentos de alta tecnologia em sensores, mísseis e cibernética. A China oferece pacotes industriais completos a preços imbatíveis para países africanos e asiáticos. O Brasil precisa disputar mercados contra adversários muito bem posicionados, com apoio estatal vigoroso e estratégias agressivas de penetração. Os regimes internacionais de controle de exportação, como o Arranjo de Wassenaar e o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, também impõem limites ao que o país pode comercializar e a quem pode vender.
Diante desse quadro, três cenários se desenham para os próximos cinco a dez anos. Um cenário otimista supõe a continuidade do crescimento atual, com a indústria brasileira ampliando exportações para a faixa de US$ 5 a 7 bilhões anuais, conquista de novos contratos do KC-390 em mercados como Índia, Tailândia e Arábia Saudita, entrada efetiva em segmentos como drones de combate, satélites de uso dual e munição guiada de precisão.
Esse cenário exige aumento sustentado do gasto interno em defesa, política industrial coerente, financiamento competitivo às exportações e estabilidade institucional. Um cenário intermediário, talvez o mais provável, mantém o Brasil como exportador relevante em nichos específicos, especialmente aeronaves e treinamento, sem alcançar o status de player estratégico global, mas consolidando-se como fornecedor de média importância para parceiros selecionados.
Um cenário pessimista vê o desperdício da janela de oportunidade atual por descontinuidade política, cortes orçamentários, perda de competitividade frente a Turquia e Coreia do Sul, e retorno do setor à condição secundária que ocupou nas décadas de 1990 e 2000, quando a indústria de defesa brasileira praticamente desapareceu.
A diferença entre esses cenários não depende de fatores externos, depende de escolhas internas. O mundo seguirá demandando equipamentos militares em escala crescente nos próximos anos, isso é praticamente certo diante do quadro geopolítico. A pergunta verdadeira é se o Brasil saberá transformar esse momento conjuntural favorável em vantagem estrutural permanente. Isso exige compreender a indústria de defesa como ativo estratégico nacional, não como gasto militar isolado. Significa enxergar empregos qualificados, soberania tecnológica, divisas externas, modernização das Forças Armadas e projeção internacional como dimensões integradas de uma mesma política pública.
O Brasil tem credenciais raras para almejar o status de player estratégico mundial. Tem indústria aeroespacial consolidada, tradição em pesquisa militar aplicada, capital humano qualificado, neutralidade diplomática reconhecida, dimensão continental, riqueza em recursos naturais críticos e mercado interno relevante. Tem hoje, pela primeira vez em décadas, dados concretos que comprovam a competitividade internacional de seus produtos.
A janela está aberta. A questão é se o país terá a clareza estratégica, a coordenação institucional e a constância de propósito necessárias para atravessá-la. A indústria de defesa brasileira nunca esteve tão próxima de cumprir o destino que a Estratégia Nacional de Defesa de 2008 projetou para ela. Cabe ao Estado, ao empresariado e à sociedade decidir se essa promessa enfim se converte em realidade duradoura ou se mais uma vez será desperdiçada pela ausência de prioridade nacional.
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