
Por que o Ocidente precisa reaprender a dissuadir
1. O despertar tardio
Em fevereiro de 2026, o mundo amanheceu sem o New START. A expiração do último grande tratado de controle de armas estratégicas entre Washington e Moscou marcou, mais do que um vazio jurídico, o encerramento simbólico de uma era.
Era a era em que se acreditou, com fé quase teológica, que o comércio domesticaria tiranias, que instituições multilaterais bastariam para conter agressores e que a história, finalmente, havia escolhido um lado.
Três décadas depois da queda do Muro, o saldo é desconfortável.
A Ucrânia sangra. Taiwan vive sob ameaça permanente. O Mar Vermelho virou rota de risco. O Sahel desmoronou. Teerã enriquece urânio. Pyongyang exporta munição. Pequim constrói ilhas artificiais e portos estratégicos em todos os continentes.
A pergunta incômoda já não pode ser adiada. Como o Ocidente, vencedor da Guerra Fria, desaprendeu a arte que lhe garantiu a vitória?
2. O que é dissuasão, afinal
Dissuadir é convencer o adversário de que o custo de agir será maior do que o benefício esperado. Não é diplomacia, embora a inclua. Não é guerra, embora a evite.
Thomas Schelling, prêmio Nobel e pensador da estratégia nuclear, ensinou que a dissuasão repousa sobre três pilares.
O primeiro é a capacidade, ou seja, possuir meios militares, econômicos e tecnológicos críveis.
O segundo é a credibilidade, isto é, demonstrar vontade política de usar esses meios quando necessário.
O terceiro é a comunicação, traduzida em linhas vermelhas claras, inteligíveis e consistentes.
O Ocidente manteve, com altos e baixos, parte de sua capacidade material. Mas erodiu sua credibilidade e embaralhou sua comunicação. Adversários atentos perceberam.
3. A década da ingenuidade
A história recente é um catálogo de sinais mal lidos.
Em 2008, a Geórgia foi invadida. A resposta ocidental foi um suspiro diplomático.
Em 2013, uma linha vermelha química foi cruzada na Síria. A reação foi um recuo público que custou caro à credibilidade ocidental por toda uma década.
Em 2014, a Crimeia foi anexada. As sanções foram cosméticas, o gás russo seguiu fluindo para a Europa, e o agressor concluiu, com razão, que o preço da agressão era administrável.
Em 2021, a retirada caótica de Cabul foi assistida em tempo real por Pequim, Moscou e Teerã. A mensagem foi inequívoca.
Enquanto isso, a base industrial de defesa europeia atrofiou. Os arsenais esvaziaram. Cadeias de suprimento estratégicas, de semicondutores a terras raras, foram entregues a um único fornecedor sistemicamente hostil.
A prosperidade comercial foi confundida com pacificação política. Comprou-se a ilusão de que interdependência econômica produziria convergência de valores.
Produziu o oposto. Produziu vulnerabilidade.
4. O eixo autoritário aprendeu
Enquanto o Ocidente discutia o tom de suas próprias mensagens internas, quatro Estados convergiam silenciosamente. China, Rússia, Irã e Coreia do Norte não formam uma aliança no sentido clássico. Não há tratado, não há comando unificado, não há doutrina compartilhada.
Há, contudo, algo mais perigoso. Há uma coalizão de conveniência revisionista, articulada por um interesse comum em desmontar a ordem internacional baseada em regras.
A divisão funcional impressiona.
Pequim oferece músculo econômico, naval e tecnológico. Moscou aporta disrupção militar e energética. Teerã sustenta uma rede densa de procuradores regionais. Pyongyang fornece munição e know-how nuclear.
Os ganhos são compartilhados. Os custos são distribuídos. As táticas se aprimoram em tempo real, do uso de drones baratos contra navios de guerra trilionários até a instrumentalização de fluxos migratórios como arma híbrida.
O Ocidente, durante esse período, debateu pronomes. O adversário industrializou drones. A assimetria de seriedade estratégica é o dado mais grave do nosso tempo.
5. Reaprender a dissuadir, frente um, o músculo militar
A reconstrução começa pela base material. Os estoques de munição precisam ser recompostos em escala industrial. A guerra na Ucrânia expôs, sem piedade, que a Europa havia desarmado em silêncio. Produzir projéteis de artilharia em quantidade suficiente virou, ironicamente, uma fronteira tecnológica.
A modernização nuclear é incontornável. Sem New START, sem mecanismos de verificação, a previsibilidade desapareceu. O Ocidente precisa de uma tríade estratégica crível e modernizada, sob pena de ver a dissuasão erodir por obsolescência.
A divisão de encargos dentro da Aliança Atlântica não pode mais ser uma cortesia. O piso de dois por cento do PIB tornou-se anacrônico. A nova fronteira está em três a cinco por cento, e os países da linha de frente, do Báltico à Polônia, já o demonstraram.
Dissuadir exige duas capacidades complementares. Negar ao adversário a possibilidade de vitória rápida, especialmente em Taiwan e no flanco leste europeu. E impor custos retaliatórios suficientemente severos para que a agressão simplesmente não compense.
Ambas exigem investimento. Ambas exigem coragem política. Ambas foram negligenciadas por uma geração.
6. Reaprender a dissuadir, frente dois, a economia como escudo
A segunda frente é menos visível, porém igualmente decisiva. Cadeias de suprimento são, hoje, vetor de segurança nacional. Quem controla terras raras controla baterias, motores, mísseis e satélites. Quem controla semicondutores avançados controla o futuro da computação militar.
A concentração dessas cadeias em território de um único adversário sistêmico foi um erro de proporções históricas. Corrigi-lo será caro. Não corrigi-lo será fatal.
O caminho passa por três movimentos coordenados.
Primeiro, friend-shoring, ou seja, deslocar a produção crítica para países aliados e confiáveis.
Segundo, reservas estratégicas de minerais, insumos farmacêuticos e componentes eletrônicos.
Terceiro, controles de exportação inteligentes, que impeçam que tecnologia ocidental sensível alimente o complexo militar adversário.
Sanções, quando bem desenhadas, funcionam. Quando aplicadas com timidez ou sem persistência, apenas treinam o adversário a contorná-las. A coerção econômica é uma arte, não um gesto.
7. Reaprender a dissuadir, frente três, a guerra das narrativas
A terceira frente é a mais negligenciada e, talvez, a mais importante. Nenhuma civilização defende aquilo que não consegue mais articular. E o Ocidente, em parte considerável de suas elites, perdeu a capacidade de explicar por que vale a pena defender a si mesmo.
A ordem internacional baseada em regras, com todos os seus defeitos, produziu o período mais longo de paz entre grandes potências, a maior redução de pobreza absoluta da história e o mais amplo arco de liberdades individuais já conhecido.
Isso não é detalhe retórico. É patrimônio civilizacional. Reconhecê-lo não é nostalgia. É realismo.
A guerra cognitiva travada por redes estatais de desinformação, da RT à CGTN, passando por operações iranianas e norte-coreanas, busca exatamente isso, corroer a confiança das sociedades abertas em si mesmas.
Combatê-la exige clareza moral. Distinguir aliados de adversários. Distinguir democracias imperfeitas de autocracias predatórias. Distinguir crítica legítima de sabotagem patrocinada.
O relativismo estratégico é luxo que sociedades sob ameaça não podem pagar.
8. O Direito Internacional Humanitário no centro
Pode parecer paradoxal, mas a dissuasão crível é amiga do DIH, não sua inimiga. Agressores agem quando calculam que podem agir impunemente. A impunidade percebida é o combustível das maiores tragédias humanitárias contemporâneas, do Donbass a Darfur, da Síria ao Iêmen.
Quando a dissuasão funciona, a guerra é evitada. Quando a guerra é evitada, civis vivem. Logo, reconstruir capacidade dissuasória ocidental é, em sentido profundo, uma agenda humanitária.
Há, naturalmente, tensões jurídicas a enfrentar. A legítima defesa coletiva, prevista no artigo cinquenta e um da Carta da ONU, precisa ser aplicada com rigor, especialmente diante de ameaças por procuradores e em zonas cinzentas.
Sanções econômicas extraterritoriais exigem desenho jurídico cuidadoso para preservar legitimidade.
Novas tecnologias, de drones autônomos a operações cibernéticas e inteligência artificial militar, precisam de normatização. E o Ocidente deve liderar essa normatização. Caso contrário, será o adversário a ditar o padrão.
O DIH não sobrevive em um mundo onde agressores não pagam preço. Sobrevive, sim, em uma ordem na qual a força legítima permanece organizada, previsível e moralmente ancorada.
9. O hemisfério ocidental, o flanco esquecido
Há um teatro de operações frequentemente subestimado, o próprio hemisfério ocidental. A penetração chinesa em portos sul-americanos, redes de telecomunicações, projetos de mineração e satélites de observação não é fenômeno comercial banal. É reposicionamento estratégico de longo prazo.
A presença iraniana, articulada por meio do Hezbollah e de redes financeiras opacas, instalou-se silenciosamente em regiões de fronteira porosa.
Regimes alinhados ao eixo autoritário operam, no continente, como plataformas logísticas e diplomáticas. Caracas, Havana e Manágua não são acidentes geopolíticos. São posições avançadas.
A estabilidade hemisférica, historicamente um interesse vital ocidental, voltou a ser disputada. Ignorar essa disputa seria repetir, em escala continental, o erro europeu com Nord Stream.
Cooperação em defesa, inteligência compartilhada, segurança cibernética e proteção de infraestrutura crítica deixaram de ser temas técnicos. Tornaram-se temas existenciais.
10. A paz exige músculos
Si vis pacem, para bellum. Se queres a paz, prepara a guerra. A frase é antiga e desconfortável, especialmente para sensibilidades contemporâneas. Mas resistiu vinte séculos por uma razão simples. É verdadeira.
O Ocidente não venceu a Guerra Fria por gentileza diplomática. Venceu pela combinação de firmeza militar, vitalidade econômica e clareza moral. Quando essa combinação se desfez, em nome de uma ingenuidade confortável, os adversários voltaram à ofensiva.
Reaprender a dissuadir não é escolher a guerra contra a paz. É escolher a paz real contra a paz imaginária. É reconhecer que ordens internacionais não se sustentam sozinhas, que valores precisam de poder para sobreviver, que civilizações duram apenas enquanto estão dispostas a defender-se.
O século vinte e um, ao contrário das ilusões de seu início, será disputado. A questão não é se haverá disputa. A questão é se o Ocidente chegará a ela preparado ou anestesiado.
A ingenuidade estratégica é um luxo que apenas civilizações em decadência podem se permitir. E mesmo assim, apenas por pouco tempo.
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