SATANÁS o Artefato de Guerra Russo - OTAN; (R-36/SS-18 “Satan”) Míssil Balístico Intercontinental

1. Introdução 

O R-36M Voyevoda (OTAN: SS-18 “Satan”) representa o ápice da engenharia de dissuasão nuclear terrestre da Guerra Fria. Concebido pelo bureau Yuzhnoye na Ucrânia Soviética, o vetor possui 36,3 m de comprimento, 3,0 m de diâmetro e massa de lançamento de 209,6 toneladas (FAS, 2000). Sua capacidade de arremesso de 8,8 toneladas permite o transporte de até 10 veículos de reentrada múltipla (MIRV) com precisão de 220–500 m CEP (CSIS, 2024). Tal precisão, em um vetor que percorre 11.000 km em aproximadamente 30 minutos, não seria factível sem os ímãs permanentes de terras raras que guarnecem seus subsistemas de orientação e controle.

O domínio sino-russo sobre a cadeia de ETRs  onde a China detinha 58% da produção mundial em 2021 (China, 2021 apud United Nations, 2022)  confere a esses materiais o status de verdadeiros “multiplicadores de força”. Como destacado por Leder (2023), os EUA reconheceram tardiamente que a dependência desses insumos representa um risco estratégico existencial para sua base industrial de defesa.

2. Desenvolvimento 

2.1 Arquitetura Vetorial e Subsistemas Críticos

O R-36M emprega um sistema de orientação inercial autônomo, cujo coração é uma plataforma giroestabilizada que utiliza ímãs de samário-cobalto (SmCo) em seus motores torquer e sensores de velocidade angular. Os ímãs SmCo são preferidos em aplicações militares por manterem coercividade excepcional em temperaturas extremas (-55 °C a +300 °C) (APEX MAGNETS, 2022).

O vetor também utiliza atuadores eletromecânicos com ímãs de neodímio de ERT (NdFeB) nos thrust vector controls (TVC) do primeiro e segundo estágios. Cada atuador demanda entre 2 e 4 kg de material magnetizado; para um sistema com 12 atuadores, estima-se o consumo de 36 kg de NdFeB. Adicionalmente, os sensores de pressão e temperatura dos motores RD-264 e RD-0229 empregam ímãs SmCo em cápsulas seladas que suportam o ambiente corrosivo do  \text{N}_2\text{O}_4/\text{UDMH} .

 

Figura: 1 Satan II: Míssil russo é capaz de atingir os Estados Unidos em 3 minutos

Fonte: (Isto é Dinheiro, 2022).

2.2 Dependência Tecnológica e Vulnerabilidade da Cadeia

No caso russo, a situação é particularmente grave. A Rússia não possui mineração expressiva de ETRs e historicamente dependia do refino chinês. Em 2022, Pequim ameaçou restringir exportações de ímãs de terras raras em retaliação às sanções ocidentais (Csis, 2023). Para Voyevoda, a escassez de samário e neodímio poderia comprometer a manutenção dos 46 mísseis Mod 6 que permanecem operacionais (Cais, 2024).

 

Figura: 2 (T1finfo, 2016)

3. Considerações Finais

A análise revela que cada míssil R-36M incorpora aproximadamente 202,5 kg de ETRs, uma massa ínfima diante das 209,6 toneladas do vetor, mas absolutamente vital para sua eficácia militar. Sem o samário e o neodímio em seus giroscópios e atuadores, o “Satan” estaria reduzido a um projétil balístico sem precisão estratégica.

A dependência desses materiais não é meramente técnica; é geopolítica. Enquanto a China mantiver o controle oligopolista do refino, a capacidade de recapitalização do arsenal russo permanecerá sob ameaça indireta, configurando uma vulnerabilidade de segunda ordem que transcende a obsolescência natural dos vetores.


Referências 

AMERICAN PEX. Military weapons & rare earth magnets used in defense applications. Apex Magnets Blog, 26 out. 2022. Disponível em: https://www.apexmagnets.com/news-how-tos/military-weapons-rare-earth-magnets-used-in-defense-applications/. Acesso em: 12 maio 2026.

CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES. R-36 (SS-18 “Satan”). Missile Threat, Washington, DC, 2024. Disponível em: https://missilethreat.csis.org/missile/ss-18/. Acesso em: 12 maio 2026.

FEDERATION OF AMERICAN SCIENTISTS. R-36M / SS-18 SATAN. Nuclear Forces Guide, Washington, DC, 2000. Disponível em: https://nuke.fas.org/guide/russia/icbm/r-36m.htm. Acesso em: 12 maio 2026.

ISTO É. Satan II: Míssil russo é capaz de atingir os Estados Unidos em 3 minutos.Disponível em:https://istoedinheiro.com.br/satan-ii-missil-russo-e-capaz-de-atingir-os-estados-unidos-em-3-minutos. Acesso em: 11 mai. 2026.

LEDER, Michelle. Rare earths and the U.S. defense industrial base: a strategical vulnerability. Journal of Strategic Security, v. 16, n. 3, p. 74–93, 2023. DOI: 10.5038/1944-0472.16.3.2134. Disponível em:https://www.semanticscholar.org/paper/Journal-of-Strategic-Security-Journal-of-Strategic-Colarik-LechJanczewski/02cbff5cc94c0258618a550cf1b7879e0d9040ec. Acesso em: 11 mai. 2026.

REEx.6 Usos Militares de Elementos de Terras Raras na Tecnologia de Defesa 4 out. 2025.Disponível em:https://rareearthexchanges.com/rare-earth-elements-in-defense-technology/. Acesso em: 11 mai. 2026.

TF1 INFO.Satan II, o novo míssil russo capaz de destruir um país do tamanho da França. por Alexandre DECROIX. Publicado em: 28 out. 2016, às 10h26.Disponível em:https://www.tf1info.fr/international/satan-ii-le-nouveau-missile-nucleaire-russe-capable-de-detruire-un-pays-grand-comme-la-france-2009886.html. Acesso em: 11 mai. 2026.

UNITED STATES. Department of Defense. Report on rare earth materials in defense applications. Washington, DC: Office of the Under Secretary of Defense for Acquisition and Sustainment, 2015. 89 p.

 

Prof. Me. Carlos Luiz Dias
Sobre o autor
Prof. Me. Carlos Luiz Dias
Professor

Engenheiro de Produção (UNIAN) e Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO). Tutor acadêmico do projeto FCMAT-DV (Ferramentas Computacionais para o Ensino de Matemática a Alunos com Deficiência Visual) no NCE/Instituto Tércio Pacitti — UFRJ. Atua como Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ) e integra o Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ITC/ESG/MD). Agente da Superintendência de Inteligência do GSI-RJ(Operação Foco de Divisas) e membro da Comunidade de Inteligência do Comando Militar do Leste (SIEX/CML). Diretor de Comunicação Social da ADESG-Nacional e do CVMARJ. Sócio-fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH-BRASIL) e empresário no setor de Engenharia de Telecomunicações. Pesquisador nos grupos Observatório de Segurança e Defesa e Geopolítica do Brasil (ITC/ESG/MD), dedicados à gestão da Defesa e à posição geopolítica brasileira na ordem mundial contemporânea. Integra ainda a Rede ATHENAS do NEE/CML e o Grupo de Estudos e Planejamento Estratégico do Exército (GPEEx). Colunista dos portais Defesa em Foco e DIH em Foco.

  • Prof. Me. Carlos Luiz Dias - Engenheiro de Produção (UNIAN) e Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO). Tutor acadêmico do projeto FCMAT-DV (Ferramentas Computacionais para o Ensino de Matemática a Alunos com Deficiência Visual) no NCE/Instituto Tércio Pacitti — UFRJ. Atua como Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ) e integra o Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ITC/ESG/MD). Agente da Superintendência de Inteligência do GSI-RJ(Operação Foco de Divisas) e membro da Comunidade de Inteligência do Comando Militar do Leste (SIEX/CML). Diretor de Comunicação Social da ADESG-Nacional e do CVMARJ. Sócio-fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH-BRASIL) e empresário no setor de Engenharia de Telecomunicações. Pesquisador nos grupos Observatório de Segurança e Defesa e Geopolítica do Brasil (ITC/ESG/MD), dedicados à gestão da Defesa e à posição geopolítica brasileira na ordem mundial contemporânea. Integra ainda a Rede ATHENAS do NEE/CML e o Grupo de Estudos e Planejamento Estratégico do Exército (GPEEx). Colunista dos portais Defesa em Foco e DIH em Foco. 🔗 linktr.ee/Carlos.Luiz.Dias

     

     

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