Brasil, Muito Além das Terras Raras

Nos últimos meses, o noticiário internacional descobriu o Brasil por uma única porta: a das terras raras. Diante da guerra tecnológica entre Washington e Pequim, e do quase monopólio chinês sobre esses elementos, o mundo voltou os olhos para o subsolo brasileiro, detentor da segunda maior reserva global, cerca de 21 milhões de toneladas, ou 23% do total mundial. A imprensa estrangeira passou a tratar o país como uma "peça-chave" da nova ordem dos minerais críticos.

O olhar, embora elogioso, é redutor e perigoso. Reduzir o Brasil às terras raras é o equivalente a descrever os Estados Unidos apenas pelo Vale do Silício, ignorando Wall Street, Hollywood, o Pentágono e Houston. O Brasil é, na verdade, um dos pouquíssimos Estados-continentes do planeta, com uma combinação de ativos estratégicos que apenas Estados Unidos, Rússia, China e Índia conseguem igualar e, em alguns campos, sequer igualam. É hora de reorganizarmos a narrativa nacional e mostrarmos ao Ocidente, do qual fazemos parte por cultura, civilização e valores, que o Brasil tem muito mais a oferecer do que minério bruto exportado a preço de banana.

Um Cofre Mineral que o Mundo Inveja

Comecemos pelo subsolo, porque é dele que parte boa da geopolítica do século XXI. O Brasil detém 94% das reservas mundiais de nióbio, metal sem o qual não existem aços especiais para a indústria aeroespacial, mísseis hipersônicos, supercondutores ou turbinas avançadas. Somos também o segundo maior detentor de grafita (essencial para baterias de lítio), o terceiro em níquel, líderes em manganês, tântalo, bauxita e ferro, e despontamos com o chamado "Vale do Lítio" em Minas Gerais como um dos novos polos globais desse insumo. Ao todo, produzimos mais de oitenta substâncias minerais, com faturamento setorial superior a R$ 270 bilhões e saldo comercial de R$ 135 bilhões em 2023, segundo dados do Ministério de Minas e Energia.

O problema, porém, não é o que temos é o que fazemos com o que temos. Há décadas, o Brasil pratica um extrativismo primário herdeiro do peor do colonialismo: extrai, embarca em estado bruto e importa de volta o produto acabado, pagando o ágio da industrialização alheia. Essa é uma escolha política, não uma fatalidade. Países como Austrália e Canadá, com perfis similares, conseguiram verticalizar parte significativa de suas cadeias minerais por meio de parcerias com o setor privado, segurança jurídica e abertura ao capital ocidental. O Brasil precisa fazer o mesmo e fazê-lo com aliados confiáveis, não com regimes autocráticos que apenas reproduzem internamente o velho papel de fornecedor de commodities.

A Potência Hídrica que o Século XXI Exige

Se os minerais críticos são o "novo petróleo", a água doce é o "novo ouro". E aqui o Brasil é simplesmente incomparável. Detemos 12% de toda a água doce superficial do planeta, abrigamos o Aquífero Guarani (compartilhado com nossos vizinhos do Mercosul) e o recém-mapeado Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), com mais de 150 quatrilhões de litros — volume suficiente para abastecer a humanidade por séculos. A bacia amazônica, sozinha, despeja no oceano cerca de 20% de toda a água doce que escoa dos continentes.

Enquanto mais de dois bilhões de pessoas já vivem sob estresse hídrico, e potências como Índia, China e países do Norte da África aproximam-se de colapsos de abastecimento, o Brasil dorme sobre o maior reservatório hídrico do mundo. Esse ativo, sozinho, deveria orientar a política externa, a política de defesa e a política industrial brasileira pelas próximas décadas. A soberania sobre essas águas não é negociável, e qualquer flerte com narrativas internacionalistas que tratem a Amazônia como "patrimônio da humanidade" deve ser rechaçado com firmeza — independentemente da bandeira ideológica de quem governe.

Território, Costa e Céu: A Geografia como Destino

O Brasil é o quinto maior país do mundo em extensão territorial, com 8,5 milhões de km², 7.491 km de costa e uma Amazônia Azul, nossa Zona Econômica Exclusiva marítima de 5,7 milhões de km², repleta de petróleo, gás, manganês e recursos pesqueiros. Fazemos fronteira com dez países sul-americanos, o que nos confere uma centralidade geopolítica natural no continente. Diferentemente de Rússia, China e Índia, não temos disputas fronteiriças ativas, nem inimigos regionais declarados, nem conflitos étnicos ou religiosos internos. Essa estabilidade estrutural é um ativo raríssimo no mundo contemporâneo e subvalorizado pelas nossas próprias elites.

Some-se a isso a localização privilegiada do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, a apenas 2°18' do Equador, uma das melhores posições do planeta para lançamentos espaciais, capaz de gerar economia de até 30% de combustível em missões geoestacionárias. Trata-se de um ativo estratégico para qualquer parceria séria com agências espaciais ocidentais, especialmente a NASA e a Space Force americana. O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas firmado com os Estados Unidos em 2019 abriu essa porta — mas ela precisa ser mantida aberta, e não fechada por preconceitos ideológicos contra parceiros tradicionais do mundo livre.

Os Cinco Campos do Poder Nacional

Pensemos agora o Brasil sob a doutrina clássica da Escola Superior de Guerra, que organiza o poder nacional em cinco campos: político, militar, econômico, psicossocial e científico-tecnológico.

No campo militar, somos a única potência do Hemisfério Sul a dominar o ciclo completo do urânio, com programa nuclear autônomo, e estamos construindo, pelo programa PROSUB, um submarino de propulsão nuclear uma capacidade que apenas seis nações no mundo possuem. A Embraer é a terceira maior fabricante de aeronaves do planeta; o KC-390 já voa em forças aéreas da OTAN, da Coreia do Sul e de Portugal. Avibras, Taurus e IMBEL compõem uma base industrial de defesa respeitável, ainda que estrangulada por décadas de subinvestimento. O orçamento de Defesa brasileiro está em apenas 1,1% do PIB, muito abaixo da meta de 2% recomendada pela OTAN para seus membros. Não somos da OTAN, mas o referencial é válido para qualquer país sério.

No campo político, o Brasil ainda paga o preço de uma diplomacia errática, que alterna entre o pragmatismo ocidental e flertes constrangedores com regimes autoritários como Cuba, Venezuela, Nicarágua, Irã. Uma política externa madura precisa reconhecer que nosso lugar natural é ao lado das democracias ocidentais, com as quais compartilhamos língua de origem latina, fé majoritariamente cristã, instituições republicanas e valores como liberdade individual, propriedade privada e Estado de Direito. Isso não significa subserviência, significa coerência civilizacional. Os BRICS podem ser um foro útil de barganha comercial, mas não podem se transformar em camisa-de-força ideológica que nos afaste de nossos parceiros históricos: Estados Unidos, União Europeia, Japão, Reino Unido, Israel e os países da OCDE.

No campo econômico, somos a nona economia do mundo, alimentamos mais de um bilhão de pessoas com nosso agronegócio, o verdadeiro motor da balança comercial brasileira e construímos um sistema financeiro entre os mais sofisticados do mundo emergente, com o Pix tornando-se referência mundial em pagamentos instantâneos. O agronegócio, aliás, é um caso exemplar de como a iniciativa privada, quando recebe segurança jurídica e respeito do Estado, transforma um país: o Cerrado, considerado improdutivo na década de 1970, hoje é o maior celeiro do planeta, graças à Embrapa e ao produtor rural brasileiro. Esse setor precisa ser celebrado, não criminalizado por narrativas ambientalistas importadas que mal disfarçam interesses comerciais europeus.

No campo psicossocial, temos uma vantagem que poucos países continentais possuem: coesão linguística, cultural e religiosa. Duzentos e quinze milhões de pessoas falando uma só língua, sem separatismos relevantes, sem guerras civis na memória recente, com forte tradição familiar e religiosa. Nosso soft power evidenciado por intermédio da música, futebol, gastronomia e telenovelas, projeta o Brasil em todos os continentes. É preciso, porém, enfrentar com seriedade a degradação educacional, a violência urbana e o avanço do crime organizado, que corrói a soberania interna em regiões inteiras do território nacional.

No campo científico-tecnológico, temos Embrapa, Fiocruz, Butantan, INPE, ITA, IME e a Petrobras, esta última líder mundial em exploração offshore em águas ultraprofundas. Mas investimos apenas 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, contra 2,7% da média da OCDE e mais de 3% de Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul e Israel. Sem aumentar substancialmente esse percentual e sem aproximar nossas universidades das melhores instituições ocidentais, continuaremos exportando minério e cérebros, e importando tecnologia e dependência.

Os Óbices a Vencer

Por que, então, com tantos ativos, o Brasil ainda não decolou como potência? Os obstáculos são conhecidos, mas precisam ser ditos com franqueza.

Primeiro: insegurança jurídica e excesso regulatório. O custo Brasil afasta capital produtivo, especialmente em mineração, energia e infraestrutura — setores onde os ciclos de investimento são de décadas. Sem reforma tributária plena, simplificação regulatória e respeito a contratos, nenhuma das vantagens listadas se converterá em prosperidade.

Segundo: gigantismo estatal e fiscalismo predatório. O Estado brasileiro consome mais de 40% do PIB em tributos e ainda assim entrega serviços públicos sofríveis. Não há potência possível com um Leviatã que sufoca o empreendedor e remunera mal o servidor que de fato trabalha.

Terceiro: descontinuidade de políticas de Estado. A cada troca de governo, programas estratégicos são desmontados, do nuclear ao espacial, do agro à defesa. Potências de verdade pensam em décadas; o Brasil, infelizmente, pensa em mandatos.

Quarto: ambiguidade geopolítica. Querer agradar simultaneamente Washington e Pequim, Israel e Irã, OTAN e Rússia, é uma estratégia que parece astuta, mas resulta em irrelevância. O Brasil precisa escolher seu lado civilizacional e esse lado, queiramos ou não, é o Ocidente.

Quinto: a guerra cultural. Um país que se envergonha de sua história, demoniza seus produtores, criminaliza suas Forças Armadas e abraça pautas identitárias importadas perde a confiança em si mesmo. Sem autoestima nacional, sem orgulho legítimo da própria civilização cristã-ocidental que aqui se enraizou, nenhuma política industrial ou militar será suficiente.

Conclusão: A Janela Está Aberta

O século XXI será disputado em torno de quatro recursos: energia limpa, alimentos, água e minerais críticos. O Brasil é o único país do mundo que possui, simultaneamente, abundância das quatro categorias, somada a uma matriz elétrica 85% renovável, território estável, população coesa e instituições democráticas funcionais. Essa combinação é literalmente única.

A janela de oportunidade está aberta, mas não ficará assim para sempre. O reordenamento global em curso, com a reindustrialização ocidental, o "friend-shoring" das cadeias produtivas e a busca por fornecedores confiáveis fora da órbita chinesa, oferece ao Brasil uma chance histórica de se posicionar como o grande parceiro estratégico do Ocidente no Hemisfério Sul. Para isso, precisamos de menos ideologia e mais pragmatismo, menos Estado e mais empreendedor, menos vergonha e mais orgulho do que somos.

Como sintetizou o general Meira Mattos, um dos maiores pensadores geopolíticos brasileiros: "O Brasil é uma potência geográfica que ainda não decidiu ser potência política." Está na hora de decidir. E essa decisão começa por reconhecer que somos muito, muito mais do que terras raras, somos um continente de oportunidades à espera de uma geração de brasileiros corajosos o suficiente para reivindicar o lugar que a geografia, a história e a Providência nos reservaram.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza - Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1719914108268416 

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