
1 Introdução
A sociedade contemporânea atravessa uma transformação silenciosa, mas profundamente estruturante: os dados se tornaram o principal fator de produção da economia digital, reconfigurando as relações de poder e as dinâmicas de conflito no século XXI. Como aponta Silva (2025, p. 15), "a governança e preservação de dados emergem como questões centrais para a justiça epistêmica e a soberania informacional das nações".
Nesse contexto, a defesa cognitiva desponta como conceito articulador, definindo a capacidade de proteger a integridade dos processos mentais, perceptivos e decisórios de indivíduos e coletividades frente a operações de manipulação informacional. Conforme Moulin e Amorim (2026, p. 3), "a consciência crítica surge como competência estratégica vital à soberania e às políticas de defesa resilientes". A premissa adotada estabelece que a IA não é apenas uma ferramenta técnica, mas um agente estruturante.
A problemática central reside em compreender como os fatores de produção de dados, as alucinações estatísticas, o poder das Big Techs e a vulnerabilidade dos data centers configuram um novo ecossistema de ameaças que exige respostas integradas de defesa cognitiva.
2 Soberania de Dados e Fatores de Produção Informacional
A noção de soberania de dados transcende a mera proteção de informações pessoais, abrangendo o direito de Estados e povos de exercerem controle efetivo sobre os fluxos informacionais que estruturam sua vida econômica, política e cultural. O Partido Comunista Chinês, em movimento paradigmático, declarou formalmente que dados constituem fatores de produção, equiparando-os ao trabalho e ao capital na arquitetura econômica nacional.
No Brasil, a situação revela contradições profundas: o país conta com mais de R$ 235 bilhões em data centers anunciados ou em construção, operados majoritariamente por empresas estrangeiras, enquanto tramita no Senado o PL 278/2026, que oferece bilhões em renúncia fiscal para acelerar essa expansão. Como alerta o Velho General (2026), "o Brasil está pagando bilhões de reais em renúncia fiscal para que empresas estrangeiras construam, em solo brasileiro e com energia brasileira, o poder cognitivo de outras nações".
O regime norte-americano sobre IA opera por sobreposição regulatória: o CLOUD Act (2018) cobre dados; o AI OVERWATCH Act (2026) cobre hardware; e sobre os modelos, a concentração de mercado em um punhado de empresas americanas faz o trabalho de controle sem consulta a governos estrangeiros. A China, por sua vez, opera configuração simétrica via Artigo 7 da Lei de Inteligência Nacional e Artigo 28 da Lei de Cibersegurança.
3 Alucinações Estatísticas Como Vulnerabilidade Cognitiva
O fenômeno das alucinações estatísticas informações que parecem plausíveis, mas são factualmente falsas constitui risco conhecido associado à utilização de sistemas de inteligência artificial generativa. Essas incorreções, responsáveis por crescentes enxurradas de desinformação, ficaram conhecidas no meio técnico como "alucinações".
Conforme Barcellos (2025), o impacto das alucinações na utilização de ferramentas como o Chat GPT para a área acadêmica revela uma dimensão preocupante: a produção de conhecimento científico fica vulnerável à contaminação por dados sintéticos que simulam verossimilhança sem correspondência factual. O fenômeno expõe "o abismo entre a probabilidade estatística e a verdade factual".
Do ponto de vista da defesa cognitiva, Ambros (2024) demonstra como a exploração instrumental de vulnerabilidades cerebrais, como os vieses cognitivos, em operações cibernéticas de influência é basilar para a guerra cognitiva. As alucinações estatísticas funcionam como vetor amplificador dessas vieses, explorando a tendência humana de confiar em informações que confirmam crenças preexistentes o viés de confirmação e a propensão a atribuir maior credibilidade a dados quantitativos, mesmo quando espúrios.
4 Big Techs Como Fomento de Dados e Arma Cognitiva
No capitalismo, "o critério de validade cognitiva é o lucro empresarial com aspectos prosaicos da existência cotidiana, os quais encarnam ativos rentáveis". As plataformas digitais das Big Techs operam como infraestruturas de extração massiva de dados comportamentais, alimentando modelos algorítmicos que modulam a atenção, as emoções e as decisões de bilhões de usuários.
Nichols (2024), em pesquisa conduzida na Marinha do Brasil, analisa a guerra cognitiva nas redes sociais e conclui que a defesa da soberania, da democracia e dos interesses nacionais passa necessariamente pelo enfrentamento da desinformação instrumentalizada por atores estatais e não estatais através dessas plataformas. A autora evidencia como a arquitetura algorítmica das redes sociais favorece a disseminação de conteúdos polarizadores, criando "câmaras de eco" que amplificam vieses cognitivas e fragilizam o tecido social.
Nascimento (2024), coronel veterano do Exército Brasileiro e doutor em Relações Internacionais, alerta que "é plausível considerar que a América já está em guerra". O autor delineia as características da guerra cognitiva no continente americano, identificando que "a acelerada evolução tecnológica, o surgimento das mídias sociais e a hiperconectividade das pessoas têm dado forma àquela modalidade de guerra".
O caso do modelo Claude Mythos Preview, anunciado pela Anthropic em abril de 2026, ilustra a magnitude da ameaça: o sistema demonstrou capacidade de identificação autônoma de vulnerabilidades zero-day em software em produção, incluindo um bug de 27 anos no OpenBSD, referência em segurança de código. A capacidade de descoberta autônoma de vulnerabilidades por IA, em escala e velocidade que excedem as de pesquisadores humanos, representa "mudança qualitativa na economia de segurança digital".
5 A Defesa Cognitiva Começa na Mineração de Informações de Relevância
A mineração de informações de relevância constitui a linha de frente da defesa cognitiva. O processo de análise de grandes conjuntos de dados para descobrir padrões, correlações e conhecimentos ocultos é simultaneamente ferramenta ofensiva e defensiva no ecossistema informacional.
Ambros e Lodetti (2019) demonstram que profissionais de inteligência, embora treinados para desenvolver capacidades variadas, "muitas vezes, não são ensinados a ter consciência de seus modelos mentais, a analisar seu próprio processamento de informações e a questionar seus pressupostos analíticos". Essa vulnerabilidade torna analistas suscetíveis a erros oriundos de vieses cognitivos, comprometendo a qualidade da inteligência produzida e, por extensão, a defesa cognitiva do Estado.
Moulin e Amorim (2026) propõem que a integração da Inteligência Artificial aos processos formativos, de modo ético, é essencial para o reforço da autonomia nacional nas políticas de defesa. A IA amplia a capacidade de análise estratégica, "embora introduza riscos de viés algorítmico e dependência". A consciência crítica emerge, portanto, como competência fundamental: a capacidade de questionar as próprias fontes, métodos e conclusões diante do dilúvio informacional.
A defesa cognitiva começa em quem realiza a curadoria das informações que alimentam os processos decisórios. Sem mineradores críticos e conscientes de seus próprios vieses, a cadeia de defesa se rompe em seu elo mais fundamental.
6 Data Centers Como Alvo de Guerra
A materialidade da infraestrutura digital torna os data centers alvos estratégicos em conflitos contemporâneos. Em março de 2026, ataques militares atribuídos a Israel e Estados Unidos atingiram ao menos dois data centers em Teerã, capital do Irã, marcando uma nova fase na militarização do ciberespaço.
Simultaneamente, dois data centers da Amazon Web Services (AWS) foram atingidos por drones nos Emirados Árabes Unidos, e um terceiro sofreu danos no Bahrein, configurando "a primeira vez em que um data center de um grande provedor global de nuvem dos Estados Unidos foi publicamente identificado como afetado por ataques físicos em um conflito armado". As instalações da AWS atendem clientes que incluem o Departamento de Guerra dos Estados Unidos (Dias.C.L, 2026).
Especialistas em segurança digital observam que "data centers são considerados infraestrutura crítica e, em cenários de guerra, podem se tornar alvos estratégicos", concentrando serviços essenciais utilizados por governos, forças militares, empresas e usuários civis. Forças da Ucrânia também teriam destruído um data center em território russo com uso de drones, sob a alegação de que a instalação apoiava operações militares.
A convergência entre infraestrutura física e poder cognitivo revela uma dimensão frequentemente negligenciada da defesa: a proteção dos meios materiais que sustentam o ecossistema informacional. A vulnerabilidade dos data centers expõe a dependência assimétrica de nações que terceirizam sua infraestrutura digital a provedores estrangeiros.
7 Considerações Finais
A defesa cognitiva na era digital exige uma abordagem multidimensional que articule soberania de dados, combate às alucinações estatísticas, regulação do poder das Big Techs, qualificação da mineração de informações e proteção da infraestrutura crítica dos data centers.
O Brasil encontra-se em encruzilhada decisiva: com mais de R$ 235 bilhões em investimentos estrangeiros em data centers e um projeto de lei que oferece renúncia fiscal bilionária, o país precisa discutir salvaguardas que garantam que essa infraestrutura sirva à soberania nacional, e não à projeção de poder cognitivo de outras nações.
A consciência crítica, como demonstram Moulin e Amorim (2026), não é mero conceito filosófico, mas competência estratégica vital. Nascimento (2024) alerta que "o grande desafio é definir como preservar as democracias sem tender ao autoritarismo, ao cerceamento da liberdade de expressão e sem sucumbir diante da mudança da mente das pessoas". A ameaça, se bem compreendida, pode se transformar em oportunidade para a integração de esforços e o estabelecimento de uma defesa cognitiva dos países e do hemisfério.
A guerra cognitiva já está em curso. A defesa começa na consciência crítica de cada minerador de informação, na soberania sobre os próprios dados e na proteção da infraestrutura que sustenta o pensamento no século XXI.
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