Doutrina Gerasimov, o mito que o Ocidente criou sozinho

Em fevereiro de 2013, o chefe do Estado-Maior russo, Valery Gerasimov, publicou um artigo de sete páginas no periódico Voyenno-Promyshlennyy Kurier. O texto foi traduzido pela revista americana Military Review e, poucos anos depois, virou a explicação preferida do Ocidente para quase tudo que a Rússia faz nas sombras. Nasceu ali a chamada Doutrina Gerasimov.

O problema é simples e incômodo. Essa doutrina, no sentido em que a maioria das pessoas a invoca, nunca existiu. Gerasimov não escreveu um manual operacional, não batizou nenhuma teoria com o próprio nome e não ordenou uma fórmula de guerra híbrida. O próprio analista que popularizou o termo no Ocidente, o britânico Mark Galeotti, pediu desculpas publicamente em 2018 e reconheceu que a expressão jamais foi concebida para significar o que passou a significar.

|"A Doutrina Gerasimov nunca existiu como manual russo. Foi o Ocidente que transformou um artigo de 2013 em plano mestre, e o adversário agradeceu."|

Entender esse equívoco não é preciosismo acadêmico. É condição para o Brasil e as democracias ocidentais reagirem a ameaças reais sem perseguir fantasmas, algo que exige separar o que é fato documentado do que é lenda repetida.

O que Gerasimov realmente escreveu

O artigo original discute uma tendência, não uma ordem. Gerasimov observa que a fronteira entre guerra e paz ficou menos nítida, que meios políticos, econômicos, informacionais e humanitários ganharam peso e que forças encobertas podem preceder o uso aberto da força. Ele analisava, sobretudo, a Primavera Árabe e as chamadas Revoluções Coloridas, movimentos que o Kremlin temia ver replicados em seu próprio território.

Em nenhum momento o texto se intitula doutrina. Ele descreve o ambiente estratégico como o autor russo o enxergava, tratando cada conflito como um caso particular, com lógica própria. O pesquisador Charles Bartles, tradutor e analista do material para o público ocidental, insiste justamente nesse ponto. Gerasimov não propunha uma receita universal, e sim uma leitura de tendências.

A famosa proporção 4:1 ilustra bem a distorção. Ela aparece na legenda de um gráfico do artigo, como relação visual entre categorias de medidas não militares e militares no desenvolvimento de conflitos. Não é estatística observada, não é percentual de orçamento, não é regra de engajamento nem meta operacional. Dizer que Gerasimov mandou a Rússia usar exatamente quatro ações não militares para cada ação militar é ler no documento algo que ele não afirma.

|"A proporção 4:1 é a legenda de um gráfico, não uma ordem de guerra. Confundir as duas coisas é fazer a análise que o inimigo prefere."|

Como um artigo virou doutrina

A conversão do texto em doutrina aconteceu depois da anexação russa da Crimeia, em 2014. Diante de soldados sem insígnia, referendos improvisados e uma enxurrada de propaganda, analistas ocidentais buscaram uma chave explicativa única. O artigo de Gerasimov, recente e sugestivo, caiu como uma luva.

O detalhe é que a explicação veio de fora, não de dentro. O conceito de ameaças híbridas tem origem acadêmica e política ocidental, como registra estudo do Joint Research Centre da Comissão Europeia. Guerra híbrida é uma moldura analítica que o Ocidente criou para descrever atividades que combinam instrumentos diversos, exploram vulnerabilidades e dificultam a atribuição. Não é o nome oficial de uma doutrina russa.

O pensamento militar russo tem, sim, conceitos próprios e sofisticados. A maskirovka trata da dissimulação e da administração de sinais para ocultar intenções, capacidades e movimentos. O controle reflexivo é uma teoria de influência decisória que busca induzir o adversário a escolher, por conta própria, a ação que favorece quem manipula. São ideias reais, presentes na literatura militar russa, e merecem estudo sério. Mas a existência desses conceitos não prova que toda operação concreta os empregou nem que exista uma cadeia de comando única coordenando cada episódio.

Por que o mito é perigoso

Tratar a Doutrina Gerasimov como um plano mestre gera dois erros opostos e igualmente danosos. O primeiro é o pânico, que enxerga uma mão russa onipotente por trás de cada crise, greve ou protesto, transformando qualquer descontentamento social legítimo em suposta operação inimiga. O segundo é a complacência, porque, ao descobrir que a doutrina é um mito, alguns concluem apressadamente que a ameaça russa também seria invenção.

Nenhuma das duas leituras resiste aos fatos. A Rússia mantém um repertório documentado e robusto de operações de influência, espionagem e sabotagem atribuída oficialmente por governos ocidentais. O relatório do procurador especial Robert Mueller descreveu, como campanha investigada e comprovada, a atuação da Internet Research Agency para semear discórdia nos Estados Unidos em 2016. Investigações lituanas e polonesas atribuíram a agentes ligados à inteligência militar russa desde pacotes incendiários despachados por serviços de encomenda em 2024 até atos de sabotagem ferroviária na Polônia em 2025.

|"A ameaça russa é real e documentada. O que não existe é a fórmula mágica que explicaria toda ela de uma só vez."|

A precisão conceitual, portanto, não enfraquece a defesa. Ela a fortalece, porque permite mirar o alvo certo com a prova certa.

O interesse do Brasil na história

Esse debate chegou ao Brasil de forma bastante concreta. Em outubro de 2023, o Global Engagement Center, do Departamento de Estado dos Estados Unidos, publicou relatório detalhando uma rede sincrética de desinformação pró-Kremlin com atuação na América do Sul, incluindo um braço brasileiro. O documento descreve organizações que se apresentam como autênticas e locais, embora cultivem laços estreitos com atores russos conhecidos por operações de influência maligna.

O ponto que interessa aqui é técnico. O ambiente informacional brasileiro é grande, conectado e estrategicamente relevante, o que o torna um espaço atraente para atores externos que buscam ampliar divisões e corroer a confiança nas instituições. Reconhecer isso é um exercício de defesa cognitiva, tema que o Brasil vem tratando com crescente maturidade em suas estruturas de defesa cibernética e no aperfeiçoamento de suas doutrinas de proteção do espaço informacional.

O Brasil se apresenta, nesse cenário, como ator estratégico responsável, com Forças Armadas e instituições de segurança que acompanham de perto a evolução das ameaças híbridas e investem em capacidade analítica própria. A lição do caso Gerasimov é diretamente aplicável a essa tarefa.

|"Um país que confunde moldura analítica com prova desperdiça recursos e perde credibilidade. Ler a fonte original é ato de defesa nacional."|

Um país que estuda as fontes originais, distingue fato de inferência e calibra a resposta ao tamanho real da ameaça constrói uma defesa mais sólida e mais legítima.

O valor de ler a fonte

Há uma ironia elegante em tudo isso. O artigo de Gerasimov se chamava, em tradução livre, O valor da ciência na antecipação. O general defendia que compreender corretamente a natureza dos conflitos futuros é decisivo para vencê-los. O Ocidente, ao transformar seu texto em uma caricatura, cometeu exatamente o erro que ele apontava, pois substituiu a análise cuidadosa por um rótulo cômodo.

A tradição intelectual ocidental tem um antídoto contra isso, e ele é simples. Ler a fonte primária, verificar quem afirma o quê, distinguir uma acusação formal de uma sentença transitada em julgado e uma avaliação de inteligência de um fato provado. Essa disciplina é o que separa a análise séria da mitologia geopolítica, e é justamente ela que sustenta a superioridade das democracias no campo do conhecimento.

A Rússia investe em ambiguidade porque a ambiguidade a protege. Cada vez que uma democracia grita doutrina onde há apenas um artigo, ou enxerga um plano mestre onde há episódios distintos, ela paradoxalmente presta um serviço ao adversário, pois amplifica a percepção de um poder que talvez não exista naquela escala.

|"Gritar doutrina onde existe apenas um artigo presta serviço a quem lucra com a ambiguidade. A melhor defesa cognitiva começa dentro de casa."|

A melhor defesa contra a guerra cognitiva começa dentro de casa, na recusa em acreditar em explicações fáceis demais.

Diante disso, fica a pergunta que vale para governos, analistas e cidadãos. Quando lemos a próxima manchete alarmante sobre uma suposta doutrina secreta, estamos verificando a fonte original ou apenas repetindo o mito que o adversário mais gostaria que acreditássemos?


Como Associado da Amazon, o DIH em FOCO recebe comissão por compras qualificadas. Você paga o mesmo preço e ajuda nossa coluna a continuar no ar.

A guerra híbrida é parte integrante da paisagem histórica desde o mundo antigo, mas apenas recentemente os analistas categorizaram esses conflitos como únicos. As grandes potências ao longo da história enfrentaram oponentes que usavam uma combinaçãode forças regulares e irregulares para negar a vantagem da força militar convencional superior das grandes potências.

Confira na Amazon

 

 

 

 

 

Em seu A arquitetura do caos: guerras híbridas, operações psicológicas e manipulação digital, Lucio Massafferri Salles expõe as linhas de força que ordenam as modalidades de golpes de estado característicos do século XXI; o século da era digital.

Confira na Amazon

 

 

 

 

 

 

 

Adquira o Cartão Amazon e conquiste muitos benefícios com zero anuidade: parcelamento em até 15 vezes sem juros, até 3% de volta nas compras Amazon, Master Card Airport, 50% off no Cinemark. 

Faça o seu clicando aqui

 

 

 

 

 

 


 

Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza

Comentários

Para comentar, faça login.

Entrar / cadastrar

Nenhum comentário publicado ainda.

Asher Comments v0.1.61 · Asher Consultoria · DIH em Foco

Acesso

Visitantes Online

Temos 15 convidados e nenhum membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 55648

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.