
O conflito na Ucrânia não alterou a essência e a natureza da guerra. Marcada pelo choque de vontades, ela permanece como um fenômeno político e humano, caracterizado pela violência extrema e pela incerteza na busca de objetivos impostos pela força. O que passamos a observar no espaço de batalha contemporâneo, de modo notadamente acelerado, foi a transformação do seu caráter: a maneira pela qual as partes em conflito organizam, sustentam e empregam o poder militar.
Iniciada com a invasão à Crimeia em 2014, a Guerra Russo-Ucraniana, a partir de fevereiro de 2022, passou de uma tentativa russa de decisão rápida do conflito, apoiada em grandes formações mecanizadas, para uma guerra prolongada de atrito, na qual sensores comerciais, drones de baixo custo, fogos de precisão, guerra eletrônica, cibernética e produção industrial coexistem com a tradicional guerra de trincheiras, formações de movimento e manobra e artilharia pesada.
Essa combinação fez cair por terra as formulações pós-Guerra Fria de que a tecnologia e conflitos de 4ª Geração teriam tornado obsoletos os fundamentos clássicos da guerra ou de que adquirir drones e sistemas digitais bastaria para que se alcançasse o Estado Final Desejado. A inovação só produz vantagem quando integrada, de forma sistemática, aos fatores de capacidade. Seu principal ensinamento não é o triunfo de um equipamento, mas a emergência de um conceito, no qual sobreviver depende da dispersão de meios e vencer impõe a convergência de efeitos.
O argumento central deste artigo é que a transparência crescente do campo de batalha provocou uma crise da manobra baseada na concentração prolongada de meios, sem eliminar a necessidade da própria manobra. Restaurá-la exige conquistar janelas temporárias de superioridade informacional, rompendo a cadeia sensor–decisor–atuador do inimigo e sustentando forças dispersas sob observação persistente. Para o Exército Brasileiro, essa constatação deve ser examinada em paralelo com o Manual de Fundamentos – Conceito Operacional do Exército Brasileiro (EB20-MF-07.101), 2ª edição, aprovado em 2026, indutor da transformação da Força Terrestre, no horizonte de 2040.
A campanha russa teve início apoiada nos Grupos Táticos de Batalhão, concebidos como formações de armas combinadas capazes de operar com rapidez e forte apoio de fogo. Na prática, porém, apresentaram deficiências na função de combate movimento e manobra, bem como uma concepção de comando e controle excessivamente rígida. O insucesso nos eixos de Kyiv, Chernihiv e Sumy expôs os limites de uma força que concentrava grandes plataformas, mas não integrava adequadamente proteção, sustentação e consciência situacional. A posterior adoção de estruturas divisionárias e regimentais, bem como a estratificação da infantaria russa em tropas de linha, assalto, especializadas e contingentes empregados para reconhecer pelo combate, representaram uma retomada doutrinária pragmática, embora frequentemente baseada em elevado custo humano.
A partir daí, ambos os contendores reduziram a exposição de seus escalões no nível tático. Instalações logísticas foram fracionadas, postos de comando foram deslocados ou enterrados, veículos dispersos e movimentos passaram a ser realizados prioritariamente à noite, sob condições climáticas adversas e em rotas menos previsíveis. Pequenos grupos, motocicletas, veículos de menor porte e sistemas terrestres não tripulados passaram a ocupar espaços antes reservados às forças pesadas . Não se trata do desaparecimento do princípio da massa, mas de seu ressignificado. A massa de meios cede lugar, parcialmente, à massa de efeitos: sensores, drones, artilharia, munições vagantes, cibernética e guerra eletrônica em uma lógica de convergência sobre alvos, no tempo e espaço decisivos.
Essa mudança decorre da transparência do campo de batalha. Satélites comerciais, câmeras térmicas, sensores acústicos, interceptação eletrônica, radares e aeronaves não tripuladas criaram uma malha de observação persistente. Integrados por aplicações digitais, esses meios reduziram o intervalo do ciclo decisório, ampliando a percepção da aceleração do combate. A consequência se torna lógica: concentrar blindados e meios de engenharia para abrir uma brecha, por exemplo, oferece ao defensor um conjunto de alvos cuja localização pode ser compartilhada com fogos de unidades adjacentes. A superioridade local de tropas já não assegura superioridade local de efeitos. Conforme sintetiza o Royal United Services Institute, uma concentração de forças pode ser degradada por uma convergência de efeitos a partir de qualquer local do espaço de batalha.
Essas transformações fizeram com que a linha de contato deixasse de representar, por si só, a geometria real do combate. Ela permanece como limite aproximado entre oponentes, mas está envolvida por uma zona contestada, na qual drones orbitam, a artilharia atua, operadores de guerra eletrônica disputam o espectro eletromagnético e eixos de suprimento são interditados. A antiga percepção de uma zona de morte restrita às proximidades das trincheiras cede lugar a uma faixa de destruição muito mais profunda, formada pela sobreposição dos alcances de sensores e atuadores.
O maior obstáculo à manobra, portanto, surge depois da ruptura. Mesmo quando uma força conquista uma posição, continua extremamente exposta na fase da consolidação e reorganização. A interdição da sustentação, dentro de uma janela de oportunidade explorada pelo defensor, impede que a conquista de objetivos se converta em aproveitamento do êxito, exigindo que o esforço logístico passe a operar com cargas menores, rotas múltiplas e meios não tripulados. Isso significa transferir para máquinas parte da exposição antes suportada por soldados, ambulâncias e viaturas de maior porte.
No novo campo de batalha, o que se encontra em disputa central é a transparência assimétrica: identificar e engajar o inimigo, sem permitir que ele faça o mesmo. Nesse sentido, os drones materializam essa transformação, mas não a explicam isoladamente. Quadricópteros comerciais corrigem fogos de artilharia; FPV realizam ataques a frações e viaturas; aeronaves de asa fixa atuam no reconhecimento em profundidade; bombardeiros pesados minam rotas e reabastecem posições; embarcações não tripuladas negam áreas marítimas; robôs terrestres evacuam feridos e transportam munição.
Entretanto, o valor desse ecossistema está no ciclo curto entre o combatente e a cadeia de produção. Uma capacidade pode perder eficácia em semanas diante de novos métodos de proteção. A vantagem, portanto, pertence menos a quem detém a melhor tecnologia do que à parte em conflito capaz de identificar as lacunas de capacidade, formular conceitos, produzir, distribuir e modificar milhares de sistemas de material de emprego militar com maior rapidez. Nenhuma superioridade tecnológica permanece estável quando o adversário possui tempo e liberdade para adaptar-se.
No domínio marítimo, sem possuir uma esquadra equivalente no Mar Negro, a Ucrânia combinou inteligência, mísseis, minas e drones navais para impor a negação do mar à marinha russa. Não se provou a inutilidade das grandes frotas, mas sua vulnerabilidade a ameaças numerosas e de baixo custo. Por sua vez, no espaço e no ciberespaço; comunicações comerciais, imagens de satélite e computação em nuvem deram resiliência à defesa ucraniana, mas revelaram dependências críticas de empresas e fornecedores estrangeiros.
Esses fenômenos dialogam diretamente com o Conceito Operacional do Exército Brasileiro em vigor. O COEB projeta uma Força Terrestre capaz de combinar capacidades e convergir efeitos em operações conjuntas, combinadas e interagências, priorizando superioridade de informação, proteção, pronta resposta, comando e controle, enfrentamento, sustentação e projeção de poder. A experiência ucraniana valida a direção geral desse pensamento. A convergência, contudo, não pode permanecer como ideia abstrata de sincronização. Deve significar a proficiência dos elementos de força e da dimensão humana em integrar sensores, inteligência, fogos, guerra eletrônica, defesa antiaérea, engenharia e logística em ciclos de decisão mais rápidos que os do oponente.
A evolução observada na Ucrânia confirma que o caráter da guerra se tornou mais transparente, disperso, automatizado e conectado, sem deixar de ser eminentemente humano, material e político. A manobra não deixou de existir; perdeu, porém, a proteção oferecida por meios meramente convencionais. Para vencer no campo de batalha contemporâneo, uma força precisa conquistar superioridade informacional temporária, degradar o inimigo, proteger sua sustentação e convergir efeitos antes de concentrar meios. Um elemento de força que permanece visível por tempo excessivo torna-se alvo; aquele que não consegue sustentar o avanço transforma êxito tático em estagnação.
No que concerne ao poder militar terrestre brasileiro, torna-se imperativo que os atributos de força estabelecidos no COEB sejam absorvidos por uma rápida evolução doutrinária. É necessário que os parâmetros da geometria do campo de batalha sejam reorganizados: a zona de ação de uma força não pode ser concebida apenas pela posição dos elementos de primeiro escalão, mas também pela profundidade alcançada pela rede inimiga de sensoriamento e atuação. Na organização dos elementos de força, sistemas não tripulados, de proteção eletrônica e fusão de dados precisam estar presentes de maneira orgânica e escalável, sem criar estruturas tão especializadas que se tornem incapazes de apoiar a tropa em um contexto de aceleração do combate.
Nas simulações construtiva, virtual e viva; os exercícios devem pressupor problemas militares simulados que contemplem a observação aérea persistente, interferência, perda de navegação por satélite, ataques a postos de comando e interrupção logística. Comandantes nos diversos níveis devem praticar a dispersão, a emissão controlada, a autonomia dos escalões e a convergência episódica de efeitos, dentro de janelas de oportunidade. As frações devem adquirir a proficiência de combater em ambientes de comando e controle degradados, preservando procedimentos analógicos e iniciativa disciplinada. As experimentações deve aproximar unidades operacionais, escolas de formação, institutos de ciência e tecnologia e Base Industrial de Defesa, encurtando o ciclo de formulação de conceitos e desenvolvimento de capacidades.
Em síntese, a guerra russo-ucraniana não exige que o Exército Brasileiro abandone os fundamentos de sua doutrina, mas que os faça evoluir em consonância com as transformações observadas no caráter da guerra. superioridade de informação, proteção, pronta resposta, comando e controle, enfrentamento, sustentação e projeção de poder somente convergem quando aplicados sistematicamente de maneira integrada sob condições adversas. O advento da Força 40 será relevante não por reproduzir o campo de batalha ucraniano, mas por tirar dele as lições aprendidas e antecipá-las em nosso próprio contexto. No horizonte de 2040, o Exército Brasileiro deverá possuir uma Força Terrestre adaptável, tecnologicamente autônoma, capaz de dispersar-se para sobreviver, convergir para combater e sustentar-se para vencer.
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