
Na manhã de 24 de fevereiro de 2022, um grupo de guardas nacionais ucranianos ainda sentia o cheiro das salsichas grelhadas na fogueira noturna, ao lado da pista do Aeroporto Antonov, em Hostomel. Poucas horas depois, aquele mesmo grupo ouvia o troar de rotores duplos cortando o céu. Uma formação de cerca de 34 helicópteros russos vinha do norte, atravessando a fronteira bielorrussa em voo rasante, transportando trezentos paraquedistas de elite das Forças Aerotransportadas russas, a temida VDV. O que aconteceu naquele campo de aviação nas horas seguintes tornou-se uma das lições mais eloquentes da guerra moderna. Diante de tropas consideradas entre as mais experientes do arsenal russo, um punhado de defensores tecnologicamente inferiores fez o improvável. A pergunta que o episódio impõe é direta. O que leva homens em desvantagem material a transformar uma vitória anunciada em fracasso estratégico. A resposta atravessa séculos de pensamento militar e aponta para uma variável que nenhuma planilha de logística consegue medir, a moral.
A guerra jamais se decidiu apenas pelo peso do metal ou pela sofisticação da tecnologia. Carl von Clausewitz, ao dissecar a natureza do conflito armado, atribuiu às forças morais um lugar central. Para o pensador prussiano, os efeitos físicos seriam apenas o cabo da espada, enquanto os morais formariam a lâmina afiada, aquilo que realmente corta. Napoleão Bonaparte, por sua vez, condensou a mesma intuição em uma proporção célebre, na guerra o moral está para o físico como três está para um. Essas afirmações não são retórica ornamental. Elas descrevem um fenômeno observável em campo. O fator moral opera em três dimensões distintas e complementares. Há a dimensão individual, feita de coragem e disposição ao sacrifício de cada combatente. Há a dimensão coletiva, expressa na coesão da unidade e na confiança depositada no comando. E há a dimensão nacional, a vontade de resistir de um povo inteiro, articulada quando o presidente Volodymyr Zelensky conclamou os cidadãos a pegar em armas para defender o território.
Existe ainda um vínculo profundo entre moral e legitimidade. Quem luta por uma causa percebida como justa sustenta melhor o esforço prolongado, resiste mais ao medo e ao cansaço. A defesa contra uma invasão externa, amparada no direito à legítima defesa reconhecido pelo Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, oferece exatamente esse tipo de sustentação. O combatente que sabe estar do lado certo da linha jurídica e ética encontra nessa convicção um combustível que a superioridade material do adversário não consegue esgotar. A moral, portanto, não é apenas um estado psicológico passageiro. Ela se ancora em fundamentos que ultrapassam o indivíduo e alcançam o terreno do direito e da percepção coletiva de justiça.
Compreendida a moldura teórica, convém entender por que Hostomel importava tanto no tabuleiro estratégico. O Aeroporto Antonov situa-se a menos de dez quilômetros a noroeste de Kiev. Sede da Antonov Airlines, o campo abrigava naquele momento o An-225 Mriya, o maior avião de carga já construído no mundo. Sua pista de mais de três quilômetros representava um prêmio cobiçado. O plano russo era ousado e, no papel, eficiente. Tomar a pista intacta por meio de um assalto aeromóvel rápido, estabelecer ali uma ponte aérea e desembarcar milhares de soldados e blindados leves diretamente às portas da capital. Caso funcionasse, Kiev poderia ser cercada em questão de dias, forçando um colapso político antes mesmo que as colunas mecanizadas russas rompessem as defesas terrestres. Toda a aposta repousava sobre uma premissa, a de que a resistência seria mínima. Foi precisamente essa premissa que ruiu.
A força de assalto era formidável. Os Ka-52 Alligator, helicópteros de ataque com canhão de trinta milímetros e mísseis anticarro, escoltavam os Mi-8 de transporte carregados com os paraquedistas. Havia apoio de guerra eletrônica e mísseis destinados a suprimir qualquer defesa antiaérea. Contra esse aparato, os ucranianos dispunham de armas leves, alguns sistemas portáteis de defesa aérea e, sobretudo, a decisão de não recuar. Os defensores da Guarda Nacional e da Defesa Territorial receberam a elite russa com fogo antiaéreo improvisado e determinação. Diversos helicópteros foram atingidos na aproximação, obrigando parte da tropa a desembarcar já sob intenso combate. Segundo a própria Guarda Nacional ucraniana, ao menos três aeronaves caíram logo na fase inicial do assalto, e relatos posteriores elevaram esse número.
O símbolo mais eloquente daquele dia foi a queda de um Ka-52. Registros técnicos documentam o abate do Ka-52 de matrícula RF-91122 no aeroporto de Hostomel em 24 de fevereiro, aeronave classificada como destruída, com o navegador morto em combate. Outro Ka-52 foi atingido por um míssil disparado do ombro e forçado a pousar. Sua tripulação foi evacuada por um segundo helicóptero, e os russos posteriormente minaram e explodiram o próprio aparelho para impedir sua captura. O significado desses episódios ultrapassa a estatística. A aeronave mais avançada do arsenal russo, encarnação do poder tecnológico, tombou diante de defensores em franca inferioridade de meios. Não foi o metal que faltou aos ucranianos naquele campo. Foi a vontade que sobrou.
O peso decisivo, contudo, não esteve apenas na resistência direta, mas no tempo que ela comprou. Os defensores não venceram de imediato. Os paraquedistas russos chegaram a se firmar em pontos do aeroporto. Porém, sem a ponte aérea funcionando, a força aerotransportada ficou isolada, sem os reforços pesados que dependiam da pista intacta. O contra-ataque ucraniano cercou os paraquedistas desamparados, e a pista, danificada pelos combates, tornou-se inutilizável para grandes aeronaves de transporte. Cada hora de resistência corroeu a lógica do plano russo. O assalto foi retomado no dia seguinte, com reforços blindados vindos da Bielorrússia, e o aeroporto acabou capturado. Mas o dano estratégico já estava consumado. A janela para o golpe rápido havia se fechado.
As consequências desdobraram-se em cascata. Sem uma ponte aérea operacional, o cerco relâmpago de Kiev fracassou. Analistas de diferentes procedências descreveram o episódio como um momento decisivo dos estágios iniciais da invasão, um ponto em que o cronograma russo descarrilou. A incapacidade de consolidar Hostomel obrigou a Rússia a depender exclusivamente do avanço terrestre, lento e vulnerável, contra uma capital cada vez mais preparada. No início de abril, as forças russas não apenas abandonaram Hostomel, mas recuaram de todo o Oblast de Kiev, e em 2 de abril a Ucrânia restaurou o controle sobre o aeroporto. Um objetivo tático negado no tempo certo produziu um efeito estratégico desproporcional. A moral converteu uma resistência local em revés de campanha.
O episódio também oferece material rico para a leitura sob o Direito Internacional Humanitário. A convocação de civis por Zelensky e o engajamento da Defesa Territorial recolocam em pauta a antiga figura do levantamento em massa. Habitantes de um território ainda não ocupado que pegam em armas espontaneamente para resistir às tropas invasoras, sem tempo de se organizar em forças regulares, podem receber o status de combatente desde que portem armas abertamente e respeitem as leis e costumes da guerra. Essa distinção importa, pois o princípio da distinção, pilar do direito humanitário, exige separar quem combate de quem não combate. A resistência ucraniana, ao operar dentro dessas balizas, preservou a legitimidade jurídica de sua defesa.
Há ainda a questão dos bens de caráter civil. A destruição do An-225 Mriya, aeronave civil única no mundo, e a devastação da infraestrutura do aeroporto trazem à tona o princípio da proporcionalidade, que veda ataques cujos danos a bens civis sejam excessivos em relação à vantagem militar concreta esperada. O ponto reforça a tese central. Legitimidade e moral se retroalimentam. Uma defesa conduzida dentro da legalidade, contra uma agressão que o próprio direito internacional condena, oferece ao combatente uma sustentação que o agressor, operando à margem dessas normas, não consegue replicar. A moral, mais uma vez, revela sua face jurídica e ética.
O que Hostomel ensina permanece atemporal. A tecnologia é um multiplicador de força, jamais um substituto da vontade de combater. Nenhum sistema de armas, por mais avançado, compensa a ausência de coesão, de doutrina sólida e de preparo moral da tropa. Para quem se dedica à formação militar, a lição é clara. O adestramento técnico precisa caminhar lado a lado com o cultivo do espírito de corpo, da liderança e da convicção. É essa combinação que sustenta o soldado no momento em que o metal falha e o medo aperta. A experiência acumulada em operações psicológicas e no exercício da liderança confirma que a mente do combatente é o terreno onde muitas batalhas se decidem antes do primeiro disparo.
Hostomel nos lembra que, no cálculo da guerra, existe uma variável que não cabe em planilha de logística nem em relatório de inteligência, a decisão de um homem de não recuar. Foi essa variável que, naquele fim de fevereiro, manteve trancados os portões de Kiev.
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