
Em 4 de fevereiro de 2026, sem alarde e sem substituto à vista, expirou o Novo START, o último grande tratado que limitava os arsenais nucleares estratégicos dos Estados Unidos e da Rússia. Foram mais de cinquenta anos de arquitetura de controle de armas reduzidos a uma nota diplomática de lamento. Poucos meses depois, dois relatórios independentes confirmaram o que muitos analistas já suspeitavam. O mundo entrou de vez em uma nova paz armada.
|”O Novo START expirou sem substituto e, com ele, ruiu meio século de arquitetura que impedia que um erro de cálculo virasse catástrofe global.”|
Os números são desconfortáveis. Segundo a Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares, os nove Estados nucleares gastaram quase 119 bilhões de dólares com seus arsenais em 2025, um aumento de 19 por cento em relação a 2024. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o SIPRI, reforçou o diagnóstico. O número de ogivas prontas para uso subiu para 9.745, ainda que o estoque total tenha caído para 12.187 unidades.
A expressão paz armada não é nova. Ela nasceu no fim do século XIX para descrever a Europa que, sem guerra aberta, acumulava exércitos e alianças até o barril de pólvora estourar em 1914. O que assistimos hoje é a atualização desse conceito clássico por uma urgência contemporânea, agora com ogivas termonucleares, mísseis hipersônicos e inteligência artificial no lugar dos couraçados de aço.
|”A paz armada de 1914 tinha couraçados. A de hoje tem ogivas termonucleares, mísseis hipersônicos e inteligência artificial nas janelas de decisão.”|
O que mudou na lógica da dissuasão
Durante décadas, a dissuasão nuclear funcionou como um paradoxo estabilizador. Ninguém atacaria primeiro porque a retaliação seria mutuamente devastadora. Essa lógica, conhecida como destruição mútua assegurada, dependia de dois fatores, previsibilidade e transparência. Os tratados de controle de armas garantiam justamente isso, pois permitiam inspeções, limitavam ogivas e reduziam o risco de erro de cálculo.
Com o fim do Novo START, esse arcabouço ruiu. Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos, resumiu a virada de forma direta ao afirmar que a era da redução nuclear chegou ao fim (Kristensen, 2026). A frase soa técnica, mas carrega um peso histórico enorme, porque marca o encerramento de um ciclo iniciado ainda nos anos 1970.
A diferença fundamental entre a Guerra Fria e o presente é o número de jogadores. Antes eram dois blocos e uma linha de tensão relativamente clara. Agora o tabuleiro tem nove potências nucleares, cada uma com doutrinas próprias, além de atores regionais que buscam garantias de proteção. O cálculo estratégico ficou multipolar e, por isso, muito mais difícil de administrar.
A expansão chinesa e as potências revisionistas
O caso chinês é o mais emblemático dessa nova fase. Pequim possui hoje cerca de 620 ogivas e pode alcançar, até 2030, uma capacidade de mísseis balísticos intercontinentais comparável à dos Estados Unidos e da Rússia. Essa expansão acelerada altera o equilíbrio, pois introduz um terceiro polo de grande porte em um sistema que foi historicamente bipolar.
Aqui vale um contraste importante. As democracias ocidentais debatem seus programas nucleares sob escrutínio parlamentar, imprensa livre e pressão da sociedade civil. Regimes autoritários, ao contrário, expandem arsenais sem transparência, sem contrapesos institucionais e sem prestação de contas. Essa assimetria de salvaguardas é o que torna a nova corrida especialmente perigosa, porque parte dos jogadores opera sem os freios que a tradição democrática impôs a si mesma.
|”Democracias expandem arsenais sob escrutínio público. Regimes autoritários fazem o mesmo sem transparência, sem contrapesos e sem prestar contas a ninguém.”|
A Rússia, por sua vez, sinalizou disposição de manter alguns limites do tratado extinto, mas condicionou tudo ao combate a supostas ameaças. A China, embora clame por diálogo entre Washington e Moscou, mantém seu próprio programa em franca ascensão e evita compromissos verificáveis sobre o próprio arsenal. O discurso e a prática nem sempre caminham juntos.
A camada tecnológica do risco
Um elemento novo agrava o quadro. A introdução de inteligência artificial nos sistemas de comando e controle. Susi Snyder, coautora do relatório da ICAN, confessou estar apavorada com a combinação de arsenais ampliados e automação decisória. O temor é concreto, pois algoritmos aplicados a janelas de decisão de poucos minutos podem reduzir o espaço para o julgamento humano em uma crise.
Esse é um terreno onde a guerra cognitiva e a desinformação também operam. Um ataque de spoofing a sistemas de alerta precoce, ou uma campanha coordenada de desinformação em plena crise, poderia induzir uma potência a interpretar erroneamente uma ameaça. A dissuasão sempre dependeu de percepções, e as percepções nunca foram tão manipuláveis quanto na era digital.
Alianças alternativas e o rearranjo do tabuleiro
A nova paz armada não se resume às grandes potências. Atores médios estão se rearranjando. A Polônia anunciou a ampliação de sua reserva militar treinada de 200 mil para 500 mil combatentes e seu premier não descartou buscar acesso a armas nucleares. Em diferentes regiões, países negociam acordos de defesa mútua inspirados no Artigo 5 da OTAN, criando uma rede densa de compromissos cruzados.
A tabela abaixo sintetiza os principais gastos nucleares de 2025.
| País | Gasto em 2025 | Observação |
| Estados Unidos | US$ 69,2 bilhões | Maior que a soma dos demais |
| China | US$ 13,5 bilhões | Expansão mais acelerada |
| Reino Unido | US$ 12,6 bilhões | Modernização do arsenal |
| Rússia | US$ 9,5 bilhões | Reforço de sistemas táticos |
Fonte, relatório da ICAN divulgado em junho de 2026.
Onde o Brasil entra nessa equação
O Brasil não possui armas nucleares nem pretende possuí-las, pois é signatário do Tratado de Não Proliferação e mantém uma tradição diplomática de defesa do desarmamento. Ainda assim, o país não é espectador passivo desse reordenamento global. Ao contrário, sua posição estratégica cresce em relevância exatamente porque a ordem se fragmenta.
|”O Brasil não tem armas nucleares, mas tem algo raro neste tabuleiro fragmentado, previsibilidade estratégica e autoridade moral para falar em desarmamento.”|
O domínio brasileiro do ciclo do combustível nuclear para fins pacíficos, aliado ao programa do submarino de propulsão nuclear, coloca o país em uma categoria seleta de nações com competência tecnológica sensível e uso responsável. Essa combinação de capacidade técnica e compromisso com salvaguardas confere ao Brasil autoridade moral para atuar como voz ponderada em fóruns de segurança internacional.
Em um mundo onde a confiança entre potências se deteriora, atores confiáveis e previsíveis ganham valor diplomático. O Brasil reúne ativos raros, estabilidade institucional, ausência de disputas territoriais relevantes e uma tradição de defesa do multilateralismo. Esses atributos podem se converter em capital estratégico, desde que acompanhados de investimento consistente em defesa, inteligência e proteção de infraestruturas críticas.
Há também um alerta prático. A erosão dos regimes de controle de armas afeta as cadeias de tecnologia sensível, o comércio de itens de uso duplo e a segurança do Atlântico Sul. Um ambiente internacional mais permissivo à proliferação exige do país maior vigilância sobre suas fronteiras marítimas, seu espaço cibernético e seus fluxos comerciais estratégicos.
O fim de uma era
O que torna a nova paz armada tão inquietante não é apenas o volume de gastos, mas o desmonte silencioso dos mecanismos que, por meio século, mantiveram o pior cenário sob controle. Tratados não são apenas papel, pois estruturam expectativas, criam canais de comunicação e reduzem a chance de que um mal-entendido vire catástrofe.
A resposta ocidental a esse cenário não pode ser a paralisia nem o pacifismo ingênuo. A tradição humanitária ocidental sempre soube combinar firmeza estratégica com compromisso com regras, pois entende que a força sem legitimidade é frágil e que a legitimidade sem força é impotente. Reconstruir a arquitetura de controle de armas, ainda que sobre novas bases, será a grande tarefa diplomática da próxima década.
A história de 1914 ensina que a paz armada não é estável por definição. Ela é uma trégua tensa que só se sustenta enquanto todos os atores acreditam que o custo do conflito supera o benefício. No momento em que essa percepção se desequilibra, o barril de pólvora encontra sua faísca.
O mundo já viveu essa lição uma vez e pagou caro por ela. A pergunta que fica é simples e incômoda. Estaremos, mais de um século depois, dispostos a repetir os mesmos erros ou seremos capazes de reconstruir, a tempo, as pontes de diálogo que acabamos de deixar ruir?

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Um dos temas que eu mais gosto de estudar, a proliferação (ou não proliferação) nuclear. Professor, o Brasil deveria ou não ter uma arma nuclear? Justifique sua resposta (rsrs).