
No campo de batalha, onde a lógica da guerra impõe a destruição, existe uma figura que caminha em sentido contrário, dedicada exclusivamente a preservar a vida. A enfermagem militar encarna essa contradição fértil, vestindo o uniforme de uma das partes em conflito, mas obrigada a servir a todos os feridos sem distinção. Essa tensão entre a lealdade institucional e o dever humanitário constitui o coração do princípio da neutralidade médica.
Tudo começou em 1859, quando Henry Dunant se deparou com a brutalidade da batalha de Solferino. Diante de milhares de soldados largados no campo, feridos e sem qualquer socorro, ele decidiu agir e passou a articular apoio entre nações. Foi essa revolta diante do sofrimento que deu origem à primeira Convenção de Genebra, firmada em 1864 por somente doze países. A ideia que a sustentava era ao mesmo tempo modesta e ousada, garantir cuidado aos feridos e aos doentes sem olhar para o lado em que combatiam.
A transformação desse ideal em regras globais permanentes foi liderada pelo Ocidente. O passo definitivo aconteceu em 2014, dentro da iniciativa "Cuidados de Saúde em Perigo", que conseguiu alinhar a Associação Médica Mundial, o Comitê de Medicina Militar, o Conselho de Enfermeiros e a Federação Farmacêutica Internacional em torno de princípios éticos comuns. A força desse pacto se reflete nos números: ele orienta a conduta diária de mais de 30 milhões de profissionais de saúde, tanto civis quanto militares, no mundo inteiro.
Essa premissa impõe ao enfermeiro militar uma obrigação clara. O critério de atendimento deve ser exclusivamente a urgência clínica, jamais a nacionalidade, a farda ou a filiação política do paciente. Um combatente inimigo capturado e ferido tem o mesmo direito ao cuidado que o companheiro de armas. Essa igualdade radical diante do sofrimento distingue a medicina de guerra de qualquer outra atividade em conflito.
A proteção não se limita ao paciente. Ela se estende ao próprio profissional de saúde, aos hospitais, às ambulâncias e aos equipamentos médicos, que não podem ser alvo de ataque. O emblema da cruz vermelha ou do crescente vermelho sinaliza justamente essa condição protegida. Como esclarece o CICV, atacar deliberadamente estabelecimentos de saúde ou negar tratamento pode configurar crime de guerra, uma violação grave das Convenções.
Esse acordo não ficou só no papel; foi o Ocidente que liderou o movimento para transformá-lo em regras globais. O divisor de águas aconteceu em 2014, com a iniciativa "Cuidados de Saúde em Perigo". Naquele ano, quatro gigantes do setor, a Associação Médica Mundial, o Comitê de Medicina Militar, o Conselho de Enfermeiros e a Federação Farmacêutica, sentaram-se à mesa para desenhar um código de ética unificado. Hoje, esse pacto serve de bússola para a rotina de mais de 30 milhões de profissionais, civis e militares, no mundo inteiro.
O lançamento oficial ocorreu em 2015, sob os auspícios do CICV, e representou um avanço histórico. Pela primeira vez, as grandes associações profissionais dispunham de uma base compartilhada e concisa de princípios para orientar decisões em situações extremas. Como observou Peter Maurer, então presidente do CICV, aprimorar a proteção da missão médica sempre foi um passo essencial para assistir melhor as vítimas dos conflitos armados.
Os países ocidentais, especialmente os Estados Unidos e seus aliados na aliança atlântica, incorporaram esses valores à doutrina operacional de suas forças armadas. A medicina militar moderna combina tecnologia avançada de salvamento com um arcabouço ético rigoroso, evidenciando que eficiência bélica e respeito ao direito humanitário podem caminhar juntos. Essa síntese reflete os valores civilizatórios que sustentam as democracias ocidentais.
Ainda assim, o cotidiano operacional impõe dilemas complexos. Estudo sobre a ética médica militar publicado no Journal of Military and Veterans Health destacou que profissionais britânicos com experiência em hospitais de campanha no Afeganistão enfrentaram frequentes questões éticas, sobretudo na alocação de recursos escassos, como sangue, e no equilíbrio entre o atendimento a pacientes internacionais e nacionais (Bricknell; Kelly, 2022).
Esses dilemas ganham densidade humana quando examinados a partir da vivência dos enfermeiros. Pesquisa de doutorado defendida na Universidade de Birmingham, em 2025, analisou narrativas de trinta enfermeiros militares britânicos, com experiências que abrangeram das décadas de 1950 aos anos 2020. O trabalho revelou que esses profissionais são cada vez mais chamados a liderar decisões éticas em ambientes de combate e em operações humanitárias (Brockie, 2025).
O Conselho Internacional de Enfermeiros reforçou esse entendimento em declaração de posição atualizada em 2025. O documento afirma que os enfermeiros têm o dever profissional de defender o direito à saúde em todos os momentos e cenários, e que devem ser protegidos e respeitados, jamais convertidos em alvos. A entidade adverte para o aumento significativo dos conflitos armados em múltiplas regiões do planeta.
Segundo a mesma declaração, o quadro contemporâneo é alarmante em sua dimensão.
Dois bilhões de pessoas vivem em locais afetados por conflitos, e seis em cada sete pessoas no mundo experimentam sentimentos de insegurança. Os conflitos apresentam intensidades, frequências e formas distintas, e alguns países enfrentam múltiplos conflitos pequenos, mortais e prolongados. (Conselho Internacional de Enfermeiros, 2025).
Diante desse cenário, a formação do enfermeiro militar assume relevância estratégica. Não basta o domínio técnico do suporte avançado de vida, do controle de hemorragias ou do manejo de traumas complexos. É indispensável o preparo ético capaz de sustentar decisões sob pressão, quando o tempo é escasso, os recursos são limitados e a linha entre combatente e civil se torna difusa nos conflitos atuais.
Um debate acadêmico recente propõe inclusive substituir a expressão neutralidade médica por humanidade médica. A discussão, apresentada em obra publicada pela Springer em 2024, argumenta que serviços de saúde vinculados a um Estado não podem ser plenamente neutros, mas devem obrigatoriamente cumprir os princípios de humanidade e imparcialidade previstos no direito internacional humanitário. A proteção decorre da função de cuidar, não da ausência de vínculo.
Essa reflexão ilumina a essência da enfermagem militar ocidental. O profissional serve à sua nação, mas seu compromisso primeiro é com a vida humana ameaçada. Ao curar o inimigo ferido, ele não trai sua farda, antes honra os valores mais elevados de sua civilização. É nessa fidelidade ao ser humano vulnerável que reside a verdadeira grandeza da missão médica em tempos de guerra.
Preservar esse princípio é preservar aquilo que separa as sociedades livres da barbárie. Enquanto houver enfermeiros dispostos a estender a mão a qualquer ferido, o direito internacional humanitário permanecerá vivo, não como letra fria de tratados, mas como prática cotidiana de compaixão disciplinada. Essa é a herança que o Ocidente oferece ao mundo, o cuidado como limite civilizatório da própria guerra.
Referências
BRICKNELL, Martin, KELLY, John. An overview to military medical ethics. Journal of Military and Veterans Health, v. 30, n. 2, 2022.
BROCKIE, Alan Fleming. UK military nurses experience of ethical decisionmaking on deployment, a reflexive thematic analysis. 2025. Tese (Doutorado) University of Birmingham, Birmingham, 2025.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA. The wounded, the sick and healthcare providers. Genebra, 2023.
CONSELHO INTERNACIONAL DE ENFERMEIROS. Health care in conflict, the nursing perspective, position statement. Genebra, 2025.
WORLD MEDICAL ASSOCIATION. Ethical principles of health care in times of armed conflict and other emergencies. Durban, 2014.
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