Mais de cento e cinquenta ataques russos redesenham a segurança europeia

No dia 4 de agosto de 2026, funcionários do aeroporto de Leipzig, na Alemanha, encontraram um drone carregado de explosivos ao lado de aviões de carga ucranianos. Minutos depois, um segundo aparelho atingiu uma aeronave da DHL. Um terceiro drone, também com vestígios de explosivos, apareceu mais tarde no mesmo terminal, um dos principais centros logísticos das Forças Armadas alemãs e da OTAN.

No dia 1º de setembro, o governo alemão concluiu de forma oficial que a Rússia era responsável. Berlim elevou seu nível de ameaça de "geral" para "alto" e ordenou o fechamento do consulado russo em Bonn e de um centro cultural na capital. O ministro do Interior resumiu o momento em uma frase que define a era, o país não está em guerra, mas é alvo diário de ataques híbridos.

Esse episódio é a face mais visível de um fenômeno que já mobiliza serviços de inteligência de todo o continente. A guerra híbrida russa contra a Europa deixou de ser um conceito abstrato e virou uma rotina de incidentes documentados que testam, milímetro a milímetro, a tolerância das democracias ocidentais.

|”A guerra híbrida russa não busca território, busca desgaste. Cada cabo cortado e cada drone é um teste calculado da paciência das democracias ocidentais.”|

Os números por trás da escalada

Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos documentou pelo menos 151 incidentes de guerra híbrida atribuídos à Rússia em território europeu entre fevereiro de 2022 e março de 2026. As ações de sabotagem chegaram a quadruplicar entre 2023 e 2024, segundo levantamentos citados pela imprensa internacional.

|”Mais de 150 incidentes de sabotagem em quatro anos mostram que o espaço entre paz e guerra virou uma faixa larga de agressões negáveis.”|

O padrão é intencional. Trata-se de operar abaixo do limiar do conflito convencional, no espaço cinzento onde a atribuição é difícil e a resposta militar direta se torna politicamente arriscada. A lógica não é conquistar território, mas desgastar sociedades, elevar custos de defesa, semear medo e reduzir o apoio europeu à Ucrânia.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, descreveu o cenário como "uma campanha crescente de ameaças" e "guerra híbrida". O ministro polonês Radoslaw Sikorski foi mais duro, classificou esse tipo de ação como terrorismo e um problema para toda a Aliança Atlântica.

O arsenal do espaço cinzento

Os métodos atribuídos a Moscou formam um leque amplo e coordenado. No ar, drones e violações de espaço aéreo se multiplicaram. Um estudo do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos apontou que, entre agosto de 2024 e fevereiro de 2026, veículos aéreos não tripulados sobrevoaram o espaço de uma dúzia de Estados-membros da OTAN e da Irlanda.

No mar, a chamada frota fantasma se tornou protagonista. São navios com propriedade opaca, usados para contornar sanções ao petróleo russo e, ao mesmo tempo, suspeitos de sabotar cabos submarinos. No Natal de 2024, o cabo Estlink 2, que liga Finlândia e Estônia, foi danificado. A guarda costeira finlandesa abordou o navio Eagle S, registrado nas Ilhas Cook, suspeito de ter arrastado a âncora pelo leito marinho por quilômetros.

O caso não foi isolado. No fim de 2025, a Finlândia interceptou o cargueiro Fitburg, que fazia a rota entre São Petersburgo e o porto israelense de Haifa, sob suspeita de romper cabos de telecomunicações no Báltico. Catorze tripulantes foram detidos por interferência agravada e tentativa de sabotagem.

|”Quando drones explodem em aeroportos e cabos submarinos são arrastados por âncoras, chamar isso de híbrido já parece um eufemismo perigoso.”|

Em terra, incêndios suspeitos atingiram fábricas de defesa da Itália à Estônia ao longo de 2026. Na Bulgária, um grande incêndio consumiu um armazém da empresa de defesa EMCO. A tudo isso somam-se ciberataques contra governos e serviços essenciais, campanhas de desinformação voltadas a eleições e opinião pública, além da instrumentalização de fluxos migratórios como pressão política.

O elo entre crime e Estado

O aspecto mais insidioso dessa estratégia está em quem executa as operações. Um estudo conjunto das organizações Globsec e do Centro Internacional de Contraterrorismo, apresentado no Parlamento Europeu, revelou que a Rússia criou uma rede que conecta agências estatais ao submundo do crime.

Homens com antecedentes criminais são recrutados pela internet para uma única ação, o que dificulta rastrear o mandante. O tenente-general Rafael Martins, especialista em assuntos militares, descreveu esse modo de operar como o uso de agentes descartáveis para incendiar fábricas de armamento e atacar infraestruturas críticas.

|”Moscou recruta criminosos descartáveis pela internet para incendiar fábricas de armas. É o novo elo entre crime organizado e Estado autoritário.”|

Os pesquisadores compararam essas táticas ao recrutamento que o Estado Islâmico fazia na Europa. A diferença crucial é que, desta vez, quem conduz o recrutamento não é uma organização terrorista, mas um ator estatal. Essa negação plausível é o coração da estratégia, pois permite negar tudo enquanto os efeitos se acumulam.

Quando o "híbrido" já não descreve o problema

Um número crescente de autoridades de segurança começa a questionar o próprio rótulo. Para muitos diplomatas e oficiais de defesa, chamar de híbrida uma campanha que inclui explosivos em aeroportos, planos de assassinato contra executivos do setor de defesa e drones sobre bases militares subestima a gravidade da ameaça.

Camille Grand, ex-secretário-geral adjunto da OTAN, sintetizou o dilema, estamos de fato em uma guerra híbrida que já não é tão híbrida assim. A palavra mais suave permite à UE e à OTAN evitar uma resposta militar, mas também corre o risco de obscurecer o quanto o confronto já escalou.

O quadro abaixo organiza os principais vetores dessa campanha e seus alvos preferenciais.

Vetor Exemplos recentes Objetivo estratégico
Drones e violações aéreas Leipzig 2026, sobrevoos em 12 Estados da OTAN Reconhecimento, intimidação e normalização de violações
Sabotagem submarina Estlink 2, cabos no Báltico e Mar do Norte Ataque a infraestrutura crítica com negação plausível
Incêndios industriais Fábricas de defesa na Itália, Estônia e Bulgária Atrito econômico e psicológico
Ciber e desinformação Ataques a serviços essenciais e ingerência eleitoral Erosão da confiança e da coesão social
Frota fantasma Eagle S, Fitburg Duplo uso, evasão de sanções e sabotagem

Diante desse contexto, vale contrastar dois modelos de conduta. As democracias ocidentais operam sob escrutínio público, controle parlamentar, imprensa livre e obrigações jurídicas internacionais que limitam suas ações e exigem transparência na atribuição de responsabilidades. Regimes autoritários exploram justamente essa assimetria, agindo sem salvaguardas equivalentes e apostando que a cautela democrática será lida como fraqueza.

Essa é a tradição humanitária e institucional que o Ocidente precisa defender sem hesitar. A resposta eficaz não passa por imitar métodos ilegais, mas por fortalecer a resiliência, acelerar a atribuição confiável e impor custos reais dentro do Estado de Direito.

Por que isso interessa ao Brasil

Pode parecer distante, mas os efeitos dessa guerra chegam ao Brasil por vários canais. O país é um dos maiores usuários do mundo de infraestrutura digital e depende fortemente de cabos submarinos que conectam a América do Sul à Europa e à América do Norte. A normalização de ataques a essa infraestrutura no hemisfério norte cria precedentes globais preocupantes.

|”O Brasil depende de cabos submarinos e de um ambiente digital seguro. A guerra híbrida europeia é um espelho do que pode chegar aqui.”|

Além disso, técnicas de desinformação e guerra cognitiva não respeitam fronteiras. Métodos testados na Europa podem ser replicados ou adaptados por atores que atuam contra sociedades democráticas em qualquer continente. O Brasil, como potência regional responsável e ator estratégico relevante, tem interesse direto em acompanhar essas dinâmicas.

O aprendizado europeu sobre proteção de infraestrutura crítica, detecção de agentes descartáveis e coordenação entre inteligência e justiça oferece lições valiosas. Investir em resiliência cibernética, em proteção de cabos e em consciência situacional sobre ameaças assimétricas é uma agenda de Estado que transcende conjunturas.

A cooperação entre democracias, o compartilhamento de inteligência e a defesa de padrões técnicos comuns aparecem como caminhos naturais. Quanto mais cedo se reconhece o padrão, menor o custo de enfrentá-lo.

Síntese e perspectiva

A guerra híbrida russa contra a Europa revela uma verdade incômoda. O período entre paz e guerra deixou de ser uma linha nítida e virou uma faixa larga de agressões calculadas. Cada drone, cada cabo cortado e cada incêndio testa a paciência ocidental e mede a velocidade da resposta.

O desafio central das democracias é reagir com firmeza sem abandonar os princípios que as distinguem de seus adversários. Resiliência, atribuição confiável e custos concretos formam o tripé de uma resposta madura. Para o Brasil, observar essa experiência não é curiosidade acadêmica, é preparação estratégica.

A pergunta que fica é direta. Se a guerra híbrida já não é tão híbrida assim na Europa, o Brasil está preparado para reconhecer e enfrentar as mesmas táticas antes que elas cheguem à nossa infraestrutura crítica?


 

Neste livro, Andrew Korybko constrói um novo conceito para explicar as novas táticas dos Estados Unidos para derrubar governos. A Guerra Híbrida é a combinação de revoluções coloridas e guerras não convencionais para substituir governos. Partindo do estudo de caso da Síria e da Ucrânia, o autor constrói um novo conceito, cujo modo de operação pode ser facilmente identificado em outros conflitos no Oriente Médio e na América Latina.

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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

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