
1 Introdução
Há pouco mais de um século, o desembarque anfíbio simbolizava a expressão máxima do sacrifício humano em combate. Gallipoli, Normandia, Incheon. Nomes que evocam não apenas estratégia militar, mas a carne e o sangue de gerações inteiras consumidas pelo imperativo de conquistar uma faixa de terra entre o mar e o continente. Em 13 de julho de 2026, a 123ª Brigada de Defesa Territorial da Ucrânia anunciou ao mundo que essa equação havia se alterado de forma irreversível.
Pela primeira vez na história do combate registrado, um assalto anfíbio foi conduzido sem um único soldado humano na linha de frente. Um drone naval guiado remotamente cruzou o Mar Negro, penetrou em território controlado pela Rússia na Península de Kinburn e desembarcou um robô terrestre armado com metralhadora. Sem ordens de rendição. Sem possibilidade de captura. Sem interlocução humana.
Esse episódio não pode ser lido como mero avanço tecnológico. Ele representa uma inflexão normativa, doutrinária e filosófica que o Direito Internacional Humanitário, em sua arquitetura atual, não está preparado para absorver. A guerra sem soldados chegou ao litoral inimigo. E o direito ainda não chegou junto.
2 O Caminho até Kinburn. A Trajetória dos Sistemas Autônomos no Conflito Ucraniano
A guerra na Ucrânia funcionou, desde 2022, como laboratório acelerado de inovação militar. Drones de reconhecimento cederam lugar a drones de ataque, que evoluíram para munições vagantes e, posteriormente, para enxames coordenados. Cada etapa comprimiu o tempo entre observação, decisão e destruição, retirando gradativamente o ser humano da cadeia de execução do combate.
Em abril de 2026, esse processo atingiu um patamar qualitativo distinto. Forças ucranianas executaram a primeira captura territorial por sistemas não tripulados, combinando drones aéreos e veículos terrestres robóticos para tomar e manter uma posição inimiga sem a presença de combatentes humanos. O presidente Volodymyr Zelensky descreveu o feito com precisão desconcertante, afirmando que o futuro já havia chegado ao presente da guerra.
Três meses depois, o futuro havia avançado ainda mais. O assalto à Península de Kinburn introduziu uma dimensão inteiramente nova, a transposição do ambiente aquático ao terrestre por sistemas autônomos em missão de combate real. O drone naval operou como vetor de projeção de força, transportando e desembarcando um sistema de combate terrestre em território inimigo sem qualquer presença humana embarcada.
A integração entre os domínios marítimo e terrestre, antes dependente de embarcações de desembarque, helicópteros e fuzileiros navais, foi replicada por plataformas sem tripulação. Essa transformação não ocorreu em exercício. Ocorreu em combate real, com munição real, contra um adversário real.
3 A Dimensão Doutrinária. Quando a Guerra Anfíbia Perde seu Soldado
A doutrina anfíbia clássica, consolidada ao longo do século XX pelas marinhas americana, britânica e soviética, parte de um pressuposto inabalável. Todo o arcabouço logístico, o planejamento de fogo naval, a supressão de defesas de praia e a criação de cabeças de desembarque existe para proteger e viabilizar o avanço do combatente humano. Essa premissa estruturou décadas de desenvolvimento doutrinário e de equipamentos.
O emprego de sistemas autônomos em operações anfíbias dissolve esse pressuposto de forma radical. Quando o vetor de projeção de força é uma máquina, a vulnerabilidade ao fogo defensivo, que historicamente tornava o desembarque anfíbio uma das operações militares de maior risco, perde relevância operacional. O que desembarca não tem vida a preservar.
Países como Japão e Espanha já incorporaram essa realidade em seus programas de defesa. Tóquio desenvolve, desde 2024, um veículo anfíbio não tripulado capaz de operar nos modos autônomo e tripulado, com previsão de 97 unidades operacionais até 2028, voltadas à defesa das Ilhas Nansei diante da crescente pressão militar chinesa. A iniciativa está diretamente ligada ao cenário de uma possível contingência em torno de Taiwan.
Madri apresentou na FEINDEF 2025 o veículo anfíbio autônomo Valkyrie, concebido para desembarques sem pessoal a bordo no âmbito da visão estratégica Armada 2050. A plataforma representa o compromisso da indústria de defesa europeia com a autonomia robótica no ambiente litorâneo, sinalizando que essa transformação não é exclusividade de conflitos de alta intensidade.
A Marinha Real britânica, sob o Projeto Beehive, conduziu em julho de 2026 o primeiro lançamento aéreo de um drone naval a partir de um avião de transporte A400M sobre o Mar do Norte. A demonstração provou que embarcações não tripuladas podem ser projetadas globalmente sem necessidade de apoio portuário, ampliando radicalmente o alcance estratégico das operações anfíbias autônomas.
A convergência dessas iniciativas aponta para uma reorganização profunda da doutrina anfíbia ocidental. Os sistemas autônomos deixam de ser apoio periférico e assumem o papel de vanguarda do assalto, reconfigurando conceitos que permaneceram estáveis por décadas de planejamento operacional.
4 A Crise Jurídica. O Princípio da Responsabilidade diante da Máquina que Combate
O Direito Internacional Humanitário foi arquitetado para regular o comportamento humano em conflitos armados. Suas fundações, assentadas nas Convenções de Genebra de 1949 e nos Protocolos Adicionais de 1977, pressupõem que o agente do ato de combate é um ser humano capaz de raciocinar, discernir, obedecer e, portanto, ser responsabilizado. Quando esse agente é substituído por um sistema autônomo, toda a cadeia normativa enfrenta uma ruptura de difícil solução.
O princípio da distinção exige que os combatentes identifiquem e separem alvos militares de civis antes de agir. Essa exigência pressupõe capacidade de julgamento contextual. Um algoritmo treinado para identificar padrões pode classificar erroneamente um civil armado como combatente, um veículo de saúde como vetor logístico ou um campo de refugiados como concentração de forças hostis.
A margem de erro, quando executada por uma máquina em velocidade computacional, não admite hesitação nem reconsideração. O disparo ocorre antes que qualquer instância humana possa intervir. Essa velocidade, que é a principal vantagem operacional dos sistemas autônomos, é simultaneamente sua maior incompatibilidade com os fundamentos do DIH.
O princípio da proporcionalidade veda ataques cujo dano colateral seja excessivo em relação à vantagem militar esperada. Essa ponderação envolve valores, contexto histórico e sensibilidade cultural que nenhum sistema autônomo existente é capaz de realizar com a complexidade que o DIH requer. O que a máquina realiza é uma estimativa estatística, não um julgamento moral.
Mais grave ainda é a questão da responsabilidade penal e estatal. Quando um sistema autônomo comete o que, em termos humanos, seria classificado como crime de guerra, nenhum tratado vigente responde com clareza sobre quem deve ser responsabilizado. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha tem reiterado, desde 2021, que a ausência de um vínculo humano significativo sobre a decisão de vida ou morte é incompatível com o DIH. Essa posição, contudo, não encontrou tradução em obrigação jurídica vinculante.
O assalto de Kinburn torna essa lacuna concreta e urgente. Um robô armado desembarcou, avançou e abriu fogo em território sob controle russo. Civis poderiam estar presentes na área de engajamento. A máquina não tinha condições jurídicas de sopesar essa possibilidade da maneira que o DIH requer, e nenhum humano estava presente para fazê-lo em seu lugar.
5 A Lógica Geopolítica: Por que o Ocidente Lidera essa Transformação
A aceleração do desenvolvimento de sistemas autônomos letais responde a uma lógica geopolítica precisa. As democracias ocidentais enfrentam um dilema estrutural, que consiste em manter superioridade militar em múltiplos teatros de operação com sociedades crescentemente avessas a baixas humanas. A guerra no Iraque e no Afeganistão consumiu não apenas vidas, mas apoio político e capital diplomático por décadas.
Sistemas autônomos oferecem a promessa de projeção de força sem o custo político do caixão coberto com a bandeira nacional. Para a OTAN, a autonomia robótica representa também uma resposta à assimetria numérica. China e Rússia mantêm forças convencionais massivas que o Ocidente não tem como igualar em efetivo humano, tornando a aposta na superioridade tecnológica uma necessidade estratégica.
Esse movimento, contudo, carrega um risco sistêmico de grande magnitude. Se as democracias ocidentais liderarem o desenvolvimento e o emprego de sistemas autônomos letais sem o correspondente avanço normativo, estarão legitimando tacitamente um modelo de guerra que outros atores adotarão sem os mesmos freios éticos que, ao menos retoricamente, orientam as potências ocidentais.
A China desenvolve vigorosamente veículos anfíbios autônomos e plataformas robóticas de combate, como demonstram as sucessivas variantes do seu veículo blindado anfíbio de nova geração, sucedâneo da série Tipo-05. Pesquisadores do Modern War Institute de West Point alertam que Pequim não está recuando diante da proliferação de drones, mas construindo um ecossistema blindado e autônomo capaz de operar no ambiente litorâneo contestado do Estreito de Taiwan.
O que Kiev usa hoje como inovação defensiva pode ser replicado amanhã naquele estreito sem qualquer constrangimento normativo. Cada operação autônoma realizada sem contestação jurídica internacional estabelece um precedente que enfraquece a capacidade futura de qualquer Estado ou organismo multilateral de impor limites ao emprego dessas plataformas.
6 Conclusão
O assalto anfíbio robótico de Kinburn e a captura territorial de abril de 2026 não são episódios isolados de uma guerra específica. São marcos em uma transformação que reconfigura a natureza do combate, os fundamentos da doutrina militar e a capacidade do direito internacional de cumprir sua função civilizatória. A guerra sem soldados na linha de frente chegou ao litoral, cruzou o mar e disparou. E o direito ainda tentava encontrar o formulário correto para nomear o que havia ocorrido.
A ausência do combatente humano na decisão de disparo cria um vácuo de responsabilidade jurídica que rompe com a premissa fundamental de toda a arquitetura do DIH. A guerra, por mais brutal que seja, sempre foi regulada com base na suposição de que é conduzida por seres capazes de distinguir, ponderar e responder por seus atos. Essa suposição deixou de ser universal.
A comunidade internacional, liderada pelos Estados comprometidos com a ordem liberal e com a proteção de civis em conflitos armados, enfrenta uma escolha que não pode mais ser adiada. Ou se estabelecem parâmetros normativos vinculantes para o emprego de sistemas autônomos letais, definindo com precisão o que constitui um vínculo humano significativo na decisão de engajamento, ou a lacuna será preenchida pelos fatos.
E os fatos, como Kinburn demonstra, avançam muito mais rápido do que qualquer processo diplomático multilateral já foi capaz de acompanhar.
Referências
BUSINESS INSIDER. Ukraine launched a first-of-its-kind robotic amphibious assault, deploying a gun-toting robot from a drone boat. 13 jul. 2026. Disponível em: https://dnyuz.com/2026/07/13/ukraine-launched-a-first-of-its-kind-robotic-amphibious-assault. Acesso em: 14 jul. 2026.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA. Autonomous weapon systems: ICRC position. Genebra: CICV, 2021.
DEFESA TV. Marinha do Brasil avalia Nauru 100D da XMobots em operações anfíbias. 14 abr. 2026. Disponível em: https://www.defesa.tv.br. Acesso em: 14 jul. 2026.
JAPAN MINISTRY OF DEFENSE. Unmanned Amphibious Assault Vehicle development program. Tóquio, 2026.
MEARSHEIMER, John J. The great delusion: liberal dreams and international realities. New Haven: Yale University Press, 2018.
NAVAL NEWS. Japan is developing a new unmanned AAV which will bring MUM-T to Amphibious Operations. 5 jun. 2026. Disponível em: https://www.navalnews.com. Acesso em: 14 jul. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenções de Genebra de 1949 e Protocolos Adicionais de 1977. Genebra: ONU, 1977.
ROYAL NAVY. Uncrewed vessels airdropped in pioneering trial supported by Royal Navy. 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.royalnavy.mod.uk. Acesso em: 14 jul. 2026.
SASCORP. Valkyrie UGV Autonomous Amphibious Vehicle: FEINDEF 2025 presentation. Madri, 2025.
WEST POINT MODERN WAR INSTITUTE. Systems over steel: how China is redefining amphibious armor survivability. 19 jun. 2026. Disponível em: https://mwi.westpoint.edu. Acesso em: 14 jul. 2026.
Aprofunde seu conhecimento sobre o tema com estas recomendações da Amazon Brasil:
A presente obra é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Direito Internacional (SPDI), em parceria com a Cátedra Jean Monnet de Direito da UFMG/Brasil, criada com o intuito de homenagear o Professor Luís Fontoura.
Capítulo a capítulo a obra procura cobrir e desenvolver os principais debates contemporâneos ao nível das políticas e do direito internacional da guerra e da paz, através das interpretações de conceituados especialistas brasileiros, espanhóis e portugueses.
Compre aqui
Drone DLI E99 PRO com Câmera 4K UHD - Quadricóptero com Controle Remoto Dobrável, Motor sem escova, Controle por Gestos e Voz, Inversão 3D, Início com um Toque, Parada de Emergência, 2 Baterias.
🛒 [CONFIRA NA AMAZON] Compre aqui


Comentários
Para comentar, faça login.
Entrar / cadastrar
Nenhum comentário publicado ainda.