A Guerra Fria das Terras Raras: 17 Elementos, Um Planeta Refém

Como a China transformou minerais críticos em arma geopolítica, por que os Estados Unidos ainda não têm resposta, e o que isso significa para o Brasil


|"Não há mísseis nem porta-aviões nesta guerra. Há um punhado de óxidos metálicos, um cartel de fato e um mundo inteiro  da indústria automotiva à indústria da defesa refém de uma cadeia de suprimentos que uma única potência controla de ponta a ponta. É a guerra fria mais silenciosa e mais decisiva do século XXI."|

1. O Gatilho: Um Mineral, Um Mundo de Joelhos

Dezessete elementos químicos. Nomes que a maioria das pessoas jamais pronunciou: disprósio, térbio, gadolínio, escândio, ítrio. Nenhum deles é, tecnicamente, raro  estão distribuídos pela crosta terrestre em quantidade generosa. A raridade real está em outro lugar: na capacidade de separar, refinar e transformar esses óxidos em produtos de uso industrial. E essa capacidade, hoje, é praticamente um monopólio chinês.

|"China: ~ 70% da mineração global, entre 90% e 91% do refino mundial, até 94% da produção de ímãs de terras raras pesadas (2024)."|

Não é acidente geológico. É o resultado de quatro décadas de política industrial deliberada, subsídios estatais e tolerância ambiental que nenhuma democracia ocidental replicaria com facilidade (Discovery Alert, 2026; The Diplomat, 2026). Enquanto o Ocidente terceirizava o refino sujo, intensivo em energia e regularmente incômodo para Pequim, a China construía, silenciosamente, a alavanca geopolítica mais eficaz do século: o controle de um insumo do qual dependem caças, mísseis, turbinas eólicas, veículos elétricos, semicondutores e, como já explorei em artigo anterior, os próprios reatores de fusão nuclear.

2. Cronologia de uma Escalada

O que começou como atrito comercial pontual tornou-se, em menos de três anos, um padrão recorrente de retaliação mútua. Vale a linha do tempo:

Dez. 2023: Pequim proíbe a exportação de tecnologias de extração e separação de terras raras, o primeiro sinal de que o refino, não apenas o minério, seria usado como instrumento de pressão (Csis, 2025).

Abr. 2025: Em retaliação a novas tarifas de Washington, o Ministério do Comércio chinês impôs controles de exportação sobre sete elementos de terras raras. A medida atinge em cheio a cadeia de defesa americana, que não possui fornecedor alternativo (Csis, 2025).

Maio 2025: Trégua tarifária de 90 dias fechada na Suíça. Na prática, pouco muda: fabricantes americanos relatam paralisação de linhas de produção por atraso deliberado na emissão de licenças de exportação chinesas (Csis, 2025).

Out. 2025: China amplia os controles para doze dos dezessete elementos-chave, agora exigindo licença mesmo para produtos fabricados fora da China que contenham insumo chinês em qualquer proporção a chamada extraterritorialidade da norma. Trump responde ameaçando tarifa adicional de 100% sobre produtos chineses (News on Air, 2025; Richter , 2025).

Nov. 2025: Sob pressão, Pequim suspende por um ano, até novembro de 2026, a nova rodada de controles, em acordo costurado no encontro Xi-Trump em Busan (Huld, 2025).

Maio 2026: Cúpula Trump-Xi em Pequim reacende esperanças de prorrogar a trégua.

22 jun. 2026: A trégua dura cinco semanas. Após o Pentágono incluir cerca de oitenta empresas chinesas entre elas Alibaba, Baidu e BYD  em lista de companhias ligadas às Forças Armadas chinesas, Pequim revida: inclui dez empresas americanas em sua lista de controle de exportação, entre elas duas mineradoras-chave da estratégia de diversificação americana, e bane 46 firmas dos EUA de participar de licitações públicas chinesas (Washington Post, 2026; Scmp, 2026; Hale, 2026).

Ago. 2026: O embate segue sem resolução estrutural. Analistas descrevem o cenário como uma "nova Guerra Fria" travada por sanções cruzadas, blacklists e controles de exportação, em vez de mísseis (Feffer, 2026).

3. O Arsenal Chinês: Licença Como Arma

O instrumento chinês é cirúrgico. Não se trata de embargo total o que seria politicamente custoso e economicamente ineficiente  mas de um sistema de licenciamento discricionário. Cada exportação de terras raras pesadas passa a exigir autorização caso a caso do governo chinês, que pode conceder, atrasar ou simplesmente negar, sem necessidade de decretar embargo formal (Richter, 2025).

O efeito prático é o mesmo de um bloqueio, mas com a vantagem política de nunca precisar admiti-lo. Empresas de defesa americana, dependentes de ítrio, disprósio e térbio para sistemas de mísseis, drones e radares, descobriram da pior forma que uma cadeia de suprimentos pode ser interrompida sem que uma única lei de embargo seja votada em Pequim (Richter, 2025).

4. A Contra Ofensiva Americana: Tardia e Cara

A resposta de Washington tem sido reativa, fragmentada e, até aqui, insuficiente para reverter a dependência estrutural. Em fevereiro de 2026, a Casa Branca anunciou o Projeto Vault, iniciativa de 12 bilhões de dólares para criar uma reserva estratégica nacional de minerais críticos. O governo também se tornou acionista direto de mineradoras como a MP Materials, sinalizando disposição de usar capital público onde o mercado privado não assume o risco sozinho (Thomas; Levine, 2026).

|"EUA: apenas 1,9 milhão de toneladas de reservas domésticas conhecidas, contra 44 milhões de toneladas na China uma assimetria de mais de 20 vezes (Thomas, 2026)."|

O problema não é apenas geológico, é industrial: mesmo quando o Ocidente extrai o minério, ele frequentemente precisa enviá-lo à China para ser refinado, porque a capacidade de separação química fora do território chinês continua embrionária. A Lynas Rare Earths, maior produtora de terras raras separadas fora da China, ainda depende do refino chinês para parte de sua produção (CSIS, 2025). Reverter isso não é uma questão de meses, é uma questão de décadas, ao custo de bilhões de dólares e de know-how que a China acumulou ao longo de quarenta anos.

5. O Brasil na Mira: A Próxima Fronteira da Disputa

Enquanto Washington e Pequim trocam sanções, um terceiro ator ganha protagonismo silencioso: o Brasil. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China algo entre 21 e 23% das reservas globais conhecidas, concentradas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe (Usgs apud Agência Brasil, 2026; Ibram apud B3, 2026).

|"Brasil: 2ª maior reserva mundial de terras raras mas responde por apenas 0,51% da produção global (Brasil Mineral, 2026)."|

O contraste entre potencial geológico e produção efetiva resume o dilema brasileiro: ter a reserva não é ter a indústria. O país já teve capacidade tecnológica relevante em separação de terras raras, através da extinta Nuclemon, interrompida nos anos 1990 em meio à abertura econômica e às privatizações (Transforma, 2026). Hoje, o Projeto de Lei 2.780/2024, aprovado na Câmara em maio de 2026 e em tramitação no Senado, tenta reconstruir uma política nacional para o setor mas é criticado por especialistas por apoiar-se sobretudo em isenções fiscais e abertura a capital estrangeiro, sem garantir, necessariamente, que o refino e a industrialização aconteçam em solo nacional (Transforma, 2026).

O interesse internacional já é concreto: a Terra Brasil Minerals, mineradora nacional, atraiu dezoito potenciais investidores dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e da própria China em uma rodada de captação de um bilhão de dólares, precisamente porque investidores ocidentais buscam alternativas à dependência chinesa (Reuters, 2025). O risco para o Brasil é claro e recorrente na história de suas riquezas minerais: exportar minério bruto e importar, décadas depois, o produto industrializado ímãs, ligas, componentes a preço multiplicado. Sem refino nacional, o Brasil corre o risco de repetir, com as terras raras do século XXI, o mesmo padrão de dependência que marcou o pau-brasil, o ouro e o minério de ferro nos séculos anteriores.

6. Por Que Isso Não é "Só Mais Uma" Guerra Comercial

A diferença entre esta disputa e uma guerra tarifária convencional é estrutural. Tarifas encarecem produtos; controles de exportação de terras raras paralisam linhas de produção inteiras, porque não existe substituto imediato para esses insumos em ímãs de alto desempenho, semicondutores avançados e sistemas de defesa. Autoridades americanas já reconhecem publicamente que, em um cenário de escalada no Estreito de Taiwan, é altamente provável que a China simplesmente corte o fornecimento de terras raras aos Estados Unidos e seus aliados como primeira medida de retaliação econômica (Csis, 2026).

Trata-se, portanto, não de uma disputa por preços, mas de uma disputa por capacidade de guerra e por soberania tecnológica. Cada novo ciclo de sanções cruzadas o Pentágono lista empresas chinesas, Pequim lista mineradoras americanas, uma nova rodada de tarifas responde à anterior aprofunda um processo de desacoplamento que analistas já descrevem, sem meias palavras, como uma nova Guerra Fria (Feffer, 2026; Camba, 2026).

7. Conclusão: A Geopolítica do Século XXI se Escreve em Óxidos Metálicos

Enquanto o debate público segue fixado em porta-aviões, mísseis hipersônicos e alianças militares tradicionais, a disputa mais decisiva do século já está em curso e ela não passa por um campo de batalha, mas por refinarias, licenças de exportação e contratos de fornecimento. A China entendeu, antes de qualquer rival, que controlar o refino de dezessete elementos químicos vale mais, estrategicamente, do que uma frota inteira de submarinos.

Para os Estados Unidos, o desafio é recuperar, em poucos anos, uma capacidade industrial abandonada ao longo de quatro décadas. Para o Brasil, o desafio é diferente e, em certo sentido, mais urgente: transformar uma vantagem geológica em soberania industrial antes que a janela de oportunidade geopolítica se feche. A guerra fria das terras raras não terá um vencedor definido por um único tratado ou por uma única cúpula ela será decidida, dia após dia, por quem controla a refinaria, não apenas a mina.


 

A guerra do século XXI pode não ser travada apenas com mísseis, petróleo ou tarifas. Ela também passa pelo lítio, pelas terras raras, pelo níquel, pelo cobalto, pela grafite e por outros minerais críticos que sustentam baterias, carros elétricos, turbinas eólicas, chips, satélites e sistemas de defesa.

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Cadeia global de valor é uma das expressões mais repetidas da economia internacional, presente em relatórios de organismos multilaterais e em discursos empresariais, com frequência sem que se explicite a que tradição teórica pertence. Este volume da série Tópicos de Economia Política Internacional sistematiza essa genealogia, já mobilizada de forma instrumental em obras anteriores do autor sobre comércio internacional e sobre a relação entre China e o Brasil.

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Prof. Me. Carlos Luiz Dias
Sobre o autor
Prof. Me. Carlos Luiz Dias
Professor

Engenheiro de Produção (UNIAN) e Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO). Tutor acadêmico do projeto FCMAT-DV (Ferramentas Computacionais para o Ensino de Matemática a Alunos com Deficiência Visual) no NCE/Instituto Tércio Pacitti — UFRJ. Atua como Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ) e integra o Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ITC/ESG/MD). Agente da Superintendência de Inteligência do GSI-RJ(Operação Foco de Divisas) e membro da Comunidade de Inteligência do Comando Militar do Leste (SIEX/CML). Diretor de Comunicação Social da ADESG-Nacional e do CVMARJ. Sócio-fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH-BRASIL) e empresário no setor de Engenharia de Telecomunicações. Pesquisador nos grupos Observatório de Segurança e Defesa e Geopolítica do Brasil (ITC/ESG/MD), dedicados à gestão da Defesa e à posição geopolítica brasileira na ordem mundial contemporânea. Integra ainda a Rede ATHENAS do NEE/CML e o Grupo de Estudos e Planejamento Estratégico do Exército (GPEEx). Colunista dos portais Defesa em Foco e DIH em Foco.

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