
Em 9 de setembro de 2026, na fábrica da Iveco em Sete Lagoas, Minas Gerais, uma cerimônia discreta marcou algo maior do que aparentava. O Exército Brasileiro recebeu a primeira unidade da versão nacional do blindado Guaicurus, dando início à entrega de um lote de 420 viaturas. Um único veículo saindo de uma linha de montagem raramente vira notícia. Mas esse mereceu, e por uma razão que vai muito além do metal.
O mundo em que esse blindado nasceu não é o mundo pacífico das últimas décadas. É um mundo em que a Rússia trava a maior guerra terrestre da Europa desde 1945, em que a Ásia observa tensões crescentes no Pacífico, em que o Oriente Médio arde e em que analistas sérios voltaram a pronunciar, sem constrangimento, a hipótese de um conflito de grande escala capaz de arrastar várias potências. É nesse cenário que a pergunta sobre a capacidade do Brasil de produzir seus próprios meios de defesa deixa de ser tema de especialista e vira questão de soberania.
|"Um único blindado saindo da linha de montagem raramente é notícia. Este foi, porque nasceu num mundo que voltou a levar a sério a hipótese de uma guerra de grande escala."|
Vale, então, olhar com honestidade para o que o Brasil já sabe fazer, e para o que ainda o faz tropeçar.
O Guaicurus e o que ele representa
O Guaicurus, oficialmente Viatura Blindada Multitarefa Leve Sobre Rodas na configuração 4x4, ocupa uma faixa antes vazia no arsenal brasileiro. Ele fica entre os veículos leves sem qualquer proteção balística e os grandes blindados sobre rodas ou lagartas. Derivado da plataforma internacional LMV da Iveco, já em uso em exércitos da OTAN, o modelo oferece blindagem modular, célula de sobrevivência e assoalho em formato de V, projetado para proteger a tropa contra a explosão de minas.

Fig 1: Guaicuru_esquema
Fonte: Arte do Jornal O Globo
O contrato, assinado em 2024 por cerca de 1,4 bilhão de reais, prevê 420 unidades entregues até 2033, somando-se às 32 que o Exército já operava. E o ponto decisivo é onde essas viaturas nascem. A linha de produção nacional foi inaugurada em abril de 2026 em Sete Lagoas, o que significa emprego qualificado, transferência de tecnologia e, sobretudo, autonomia logística. Um país que monta seus blindados em casa não fica refém de fornecedores externos no momento em que mais precisaria deles.

Fig 2: Guaicuru
Fonte: Exército Brasileiro
Esse é o pano de fundo de toda a discussão. Na guerra, a linha de suprimento é tão importante quanto a arma. De nada adianta possuir equipamento de ponta se as peças de reposição dependem de um navio que pode não chegar.
O céu, entre o orgulho e a frustração
Se o Guaicurus é a boa notícia terrestre, o ar oferece um retrato mais complexo, misto de conquista genuína e frustração orçamentária.
O KC-390 Millennium é, provavelmente, o maior êxito recente da engenharia aeronáutica brasileira no setor militar. Cargueiro multimissão da Embraer, ele já aposentou os veteranos C-130 Hercules, acumulou mais de catorze mil horas de voo com disponibilidade acima de 99 por cento e conquistou clientes no exterior. É um produto que compete de igual para igual no mercado global, feito de tecnologia genuinamente nacional.

Fig 3: KC 390_capacidades
Fonte: Super Interessante
|"O KC-390 compete de igual para igual no mercado mundial. O problema não é a engenharia brasileira. É o cofre que financia a engenharia brasileira."|
Mas aqui entra a frustração. A encomenda original previa 28 aeronaves para a Força Aérea. Diante da falta de repasses do governo federal à Embraer, o número foi renegociado para 19, e o ritmo de entrega despencou de quatro aviões por ano para apenas um, com o prazo final esticado até 2034. Até o fim de 2025, a FAB operava oito unidades quando deveria ter a frota completa. Pior, aditivos contratuais já consumiram o equivalente ao preço de duas aeronaves que jamais serão incorporadas. O país pagou, mas a frota não cresceu.
Situação parecida vive o F-39 Gripen, o caça de última geração desenvolvido em parceria entre a sueca Saab e a Embraer. O Brasil abriga a única linha de montagem do Gripen E fora da Suécia, inaugurada em Gavião Peixoto em 2023, num dos maiores programas de transferência de tecnologia já realizados no país. Em novembro de 2025, o caça concluiu com sucesso a certificação de reabastecimento em voo pelo próprio KC-390, um casamento tecnológico entre dois produtos nacionais que amplia o alcance de ambos e o apelo de exportação.
Contudo, o contrato de 36 caças, firmado em 2015 para entrega até 2025, já acumulou doze termos aditivos, empurrou o prazo final para 2032 e encareceu cerca de 13 por cento, o equivalente a seis aeronaves que não virão. Enquanto isso, a FAB é obrigada a manter voando os antigos F-5 modernizados.

Fig 4: F 39 Gripen
Fonte: Força Aérea Brasileira
O diagnóstico, nos dois casos, é o mesmo e é preciso dizê-lo sem rodeios. A engenharia brasileira entrega. Quem falha é a previsibilidade orçamentária que deveria sustentá-la.
O Guarani e a espinha dorsal terrestre
Antes do Guaicurus, houve o Guarani, e é impossível entender um sem o outro. O blindado 6x6 Guarani, fruto de parceria entre o Exército e a Iveco, foi o programa que reconstruiu do zero a capacidade brasileira de produzir viaturas blindadas em série. Com milhares de unidades previstas ao longo de décadas, ele substitui os antigos Urutu e forma a espinha dorsal da mecanização da infantaria nacional.
O Guarani ensinou o Brasil a fabricar, criou a cadeia de fornecedores e treinou a mão de obra que hoje permite montar o Guaicurus. Um não existiria sem o outro. Juntos, integram o Programa Forças Blindadas, que prevê a incorporação de mais de 2.100 novos veículos de diferentes modelos até 2040. É a demonstração de que política de defesa séria se mede em décadas, não em mandatos.
|"Política de defesa séria se mede em décadas, não em mandatos. O Guaicurus só existe porque o Guarani ensinou o Brasil a fabricar blindados de novo."|
Avibras, a fênix que insiste em renascer
Nenhuma história da indústria bélica brasileira é tão dramática quanto a da Avibras, e nenhuma ilustra melhor a fragilidade do setor.
Fundada em 1961 por engenheiros do ITA, a Avibras foi a joia da coroa da artilharia nacional, criadora do sistema Astros de lançadores múltiplos de foguetes, um produto que fez sucesso mundial e chegou a equipar exércitos estrangeiros. Mas a empresa entrou em recuperação judicial em 2022, afundada em dívidas superiores a 600 milhões de reais, e mergulhou numa greve que durou 1.281 dias.
A ressurreição veio em 2026. Sob nova estrutura, rebatizada Avibras Aeroco e viabilizada por um funding de 300 milhões de reais coordenado pelo Fundo Brasil Crédito, com participação do empresário Joesley Batista, a empresa retomou a produção em abril daquele ano, recontratando cerca de 300 funcionários. Voltaram a sair da linha os foguetes, os mísseis e os veículos do sistema Astros.
O símbolo dessa retomada é o Astros 2020, a versão modernizada do sistema, e sobretudo o projeto que o coroa, o MTC-300. Também conhecido como AV-TM 300, trata-se de um míssil de cruzeiro tático genuinamente brasileiro, concebido como alternativa nacional e mais barata ao Tomahawk americano. Seu alcance oficial de exportação é de 300 quilômetros, em conformidade com o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, mas as versões operacionais podem ultrapassar os 500 quilômetros, com precisão da ordem de poucos metros. É, hoje, a arma convencional de maior poder de dissuasão à disposição do Exército, capaz de atingir infraestrutura crítica, centros de comando e refinarias a partir de território nacional.

Fig 5: Astros 2020 lançando Míssil de Cruzeiro AV-TM-300
Fonte: Exército Brasileiro
O projeto está próximo da conclusão, restando essencialmente a campanha de tiro final. E aqui cabe uma nota de precisão, no mesmo espírito de rigor que esta coluna cultiva. O MTC-300 é um programa avançadíssimo e estrategicamente decisivo, mas ainda não plenamente operacional em série. Anunciá-lo como pronto seria repetir o erro do exagero. Reconhecê-lo como quase pronto, e por isso mesmo urgente, é a leitura correta.

FIG 6: Míssil MTC 300
Fonte: Exército Brasileiro
|"A Avibras já morreu e renasceu mais de uma vez. Um país que deixa sua principal fabricante de mísseis quase falir descobre, tarde, o preço de tratar defesa como despesa."|
Some-se a isso a entrega do MAX 1.2, evolução da família de lançadores da Avibras, e tem-se o quadro de uma empresa que, contra todas as probabilidades, voltou a produzir. Mas a lição amarga permanece. Um país que quase deixou falir sua maior indústria de mísseis precisa se perguntar seriamente que valor atribui à própria defesa.

Fig 7: Míssil AC MAX 1.2
Fonte: Exército Brasileiro
O mundo lá fora e o relógio correndo
É impossível fechar este balanço sem levantar os olhos para o horizonte internacional. A guerra na Ucrânia demonstrou algo que muitos haviam esquecido. Conflitos de grande escala consomem munição, blindados e mísseis num ritmo que nenhum estoque de tempos de paz suporta. Vence, muitas vezes, não quem tem o melhor equipamento, mas quem consegue repor as perdas com rapidez. A capacidade industrial virou, ela própria, uma arma.
Nesse mundo, a autonomia produtiva deixou de ser luxo de potência para se tornar seguro de vida de qualquer nação que leve a sério sua soberania. Um Brasil que monta blindados em Sete Lagoas, caças em Gavião Peixoto e mísseis em São José dos Campos é um Brasil menos vulnerável à chantagem, ao embargo e à dependência no exato momento em que a ajuda externa costuma sumir.
|"Na guerra moderna, vence muitas vezes não quem tem o melhor equipamento, mas quem consegue repor as perdas. A capacidade industrial virou, ela mesma, uma arma."|
Não se trata de alarmismo nem de belicismo. Trata-se de prudência. Ninguém deseja a guerra, e o melhor uso de toda essa capacidade é jamais precisar empregá-la. Mas a dissuasão só funciona quando é crível, e a credibilidade se constrói em décadas de investimento paciente, não na véspera do perigo.
O saldo honesto
O quadro brasileiro, olhado sem euforia e sem derrotismo, é de um país que sabe fazer, mas ainda hesita em financiar. A engenharia nacional entrega produtos de classe mundial, o KC-390, o Gripen montado em casa, a família Guarani e Guaicurus, o sistema Astros e o promissor MTC-300. A cadeia industrial existe, o conhecimento existe, o talento existe.
O que falta é constância. Falta tratar a defesa como política de Estado, imune aos solavancos de cada orçamento anual, e não como despesa dispensável a ser cortada na primeira aperto. Os atrasos do KC-390 e do Gripen, a quase morte da Avibras, todos contam a mesma história de um país que constrói capacidade extraordinária e depois a deixa míngua por falta de previsibilidade.
A entrega do primeiro Guaicurus nacional é, portanto, mais que um marco técnico. É um lembrete. O Brasil tem em mãos as ferramentas para não depender de ninguém em sua própria defesa. A pergunta que fica, no mundo tenso de hoje, não é se somos capazes. Já provamos que somos. A pergunta é se teremos a disciplina de sustentar essa capacidade antes que o relógio, lá fora, pare de jogar a nosso favor.
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As guerras já não são mais as mesmas. Em vez da confrontação militar formal, o mundo vem assistindo a uma série de guerras "irregulares", como terrorismo, guerrilha, insurreição, movimentos de resistência e conflitos assimétricos em geral. Alessandro Visacro, profundo estudioso do assunto, nos oferece um amplo panorama dos movimentos que alimentam essas guerras: embasamento político, estratégia, táticas e resultados obtidos.
Como território, fronteiras e recursos moldam conflitos, leitura complementar ao tema da autonomia produtiva e da defesa territorial.

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