Ancara reencontra Washington, e o Ocidente redesenha suas fidelidades

O aperto de mãos entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan diante das câmeras, na base de Etimesgut, em 7 de julho de 2026, carregava mais peso do que qualquer protocolo diplomático poderia comportar. Foi ali, às margens da cúpula de líderes da Aliança do Atlântico Norte sediada em Ancara, que o presidente norte-americano declarou aquilo que durante seis anos parecia inimaginável. Washington vai retirar as sanções impostas à Turquia sob o Countering America's Adversaries Through Sanctions Act, o chamado CAATSA, e sinalizou disposição para reintegrar o país ao seleto programa do caça furtivo F-35.

A frase escolhida por Trump foi propositalmente simples. Não queremos sancionar amigos, disse ele, sentado ao lado de Erdogan. É muito simples. Por trás dessa aparente informalidade repousa uma reconfiguração profunda da lógica que orientou as relações transatlânticas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A Turquia deixou de ser tratada como o membro problemático da coalizão para ser saudada como parceiro leal, em contraste explícito com aliados europeus que o próprio presidente passou a acusar de deslealdade.

As sanções em questão foram aplicadas em dezembro de 2020, em resposta à aquisição turca do sistema russo de defesa antiaérea S-400, cujos primeiros componentes chegaram a Ancara em julho de 2019. A medida punitiva atingiu a Presidência das Indústrias de Defesa da Turquia, incluiu proibições de licenças de exportação e restrições financeiras. Como consequência direta, o país foi expulso do programa do F-35, no qual não era apenas comprador, mas também parceiro industrial de produção.

Na ocasião, o então secretário de Estado Mike Pompeo justificou a exclusão com argumentos técnicos consistentes. Segundo ele, a presença dos sistemas russos colocaria em risco a segurança da tecnologia militar norte-americana, forneceria recursos substanciais ao setor de defesa da Rússia e abriria uma janela de acesso russo às forças armadas turcas. A preocupação não era ideológica, era operacional. Um caça de quinta geração projetado para escapar de radares dificilmente conviveria com um radar russo instalado em território aliado.

O que mudou, portanto, entre 2020 e 2026, não foi a natureza do problema técnico, e sim o cálculo político que o cerca. Aqui reside o primeiro grande vetor de leitura deste episódio, o pragmatismo geopolítico. Sob a atual administração, os interesses estratégicos passaram a se sobrepor de forma inequívoca às divergências de valores. A Turquia de Erdogan segue distante do modelo democrático liberal que o Ocidente historicamente professa defender, com um histórico de direitos humanos frequentemente questionado e laços persistentes com Moscou e Pequim.

Ainda assim, esses atributos, antes tratados como obstáculos intransponíveis, foram relativizados diante de um dado incontornável. A Turquia detém a segunda maior força militar da Aliança, atrás apenas dos Estados Unidos. Possui uma indústria de defesa robusta, empresas de drones que se tornaram referência global após o desempenho de seus equipamentos em teatros como a Ucrânia e o Cáucaso, além de uma posição geográfica que a coloca no cruzamento entre a Europa, o Oriente Médio e a Ásia Central.

Um diplomata da Aliança ouvido pela imprensa europeia resumiu a nova aritmética com franqueza. À medida que os Estados Unidos reduzem seu ônus, o peso relativo da Turquia dentro do bloco aumenta. A frase captura com precisão o segundo vetor deste realinhamento, a erosão do multilateralismo tradicional. O presidente norte-americano tem repetidamente descrito a organização como um tigre de papel, questionado a cláusula de defesa mútua e retirado ativos militares dos planos de guerra coletivos.

Trump anunciou ainda uma revisão de seis meses sobre a presença militar norte-americana na Europa, sinalizando cortes de tropas no continente. O gesto de Ancara precisa ser lido dentro desse quadro maior. Ao privilegiar uma relação bilateral forte com Erdogan em detrimento do consenso coletivo que sempre caracterizou a Aliança, Washington redesenha a arquitetura de segurança ocidental à sua própria imagem. O vínculo pessoal entre líderes passa a valer mais do que a institucionalidade multilateral.

Convém, no entanto, apresentar o contraponto para não incorrer em leitura simplista. Há quem enxergue nessa flexibilização não um enfraquecimento, mas uma adaptação necessária. A insistência norte-americana para que os europeus elevem seus gastos com defesa produziu resultados concretos. Na própria cúpula de Ancara, os líderes anunciaram acordos armamentistas avaliados em dezenas de bilhões de dólares, evidência de que a pressão, ainda que áspera, gerou o efeito pretendido de repartir de modo mais equilibrado os custos da segurança comum.

Essa dinâmica conecta-se diretamente ao terceiro vetor de análise, a busca europeia por autonomia. Diante das dúvidas sobre o compromisso norte-americano de longo prazo, os membros europeus da Aliança lançaram-se no maior esforço de rearmamento desde o encerramento da Guerra Fria. Orçamentos de defesa alcançaram níveis recordes, impulsionados simultaneamente pela guerra na Ucrânia, pela ameaça percebida da Rússia e pela incerteza quanto à permanência das garantias de Washington.

O paradoxo é notável. Ao pressionar os europeus e ao recuar de compromissos históricos, o presidente norte-americano acabou por acelerar exatamente aquilo que gerações de estrategistas do continente jamais conseguiram concretizar, uma defesa europeia genuinamente autônoma. Do ponto de vista dos interesses ocidentais de longo prazo, uma Europa mais capaz de prover a própria segurança representa, em tese, um pilar mais sólido, e não mais frágil, da ordem liberal internacional.

É nesse ambiente de reacomodação que a Turquia encontra sua janela de oportunidade, o quarto e talvez mais revelador vetor. De ator periférico e frequentemente incômodo, Ancara converte-se em protagonista. A guerra na Ucrânia valorizou seu controle sobre os estreitos do Bósforo e dos Dardanelos, regulados pela Convenção de Montreux. A recente crise com o Irã ressaltou sua relevância como plataforma logística e como ponte diplomática com o mundo islâmico.

Erdogan soube capitalizar o momento com habilidade. Rompendo o protocolo, recebeu pessoalmente o presidente norte-americano no aeroporto, gesto de deferência que também comunicava confiança. Diante dos jornalistas, manifestou a esperança de uma decisão favorável quanto aos F-35, lembrando que Ancara já havia sido prometida ao menos cinco aeronaves. A postura foi a de quem negocia de igual para igual, e não a de quem pleiteia perdão.

A concretização do acordo, contudo, não está livre de obstáculos. A legislação norte-americana de 2020 exige que qualquer administração determine formalmente que a Turquia não mais possui ou opera os sistemas russos antes de reintegrá-la ao programa do caça. Trump minimizou publicamente qualquer preocupação com os S-400, afirmando que a relação com a Turquia talvez esteja melhor do que jamais esteve. Ainda assim, a remoção das sanções deverá enfrentar revisão do Congresso, onde persistem resistências.

Há também a dimensão regional a considerar. O reaquecimento das relações entre Washington e Ancara ocorre em meio a tensões crescentes entre a Turquia e Israel, com o primeiro-ministro israelense ironizando publicamente o país durante os desdobramentos da guerra no Irã. O desafio para a diplomacia norte-americana consiste em fortalecer um aliado sem desestabilizar outro, equilíbrio delicado numa região onde alianças raramente são lineares e onde cada movimento produz reverberações em cadeia.

Do ponto de vista do Direito Internacional e da governança da segurança coletiva, o episódio suscita reflexões relevantes. A arquitetura de defesa ocidental sempre se sustentou sobre um duplo alicerce, a interoperabilidade técnica dos armamentos e a coesão política dos valores compartilhados. A reintegração turca, mesmo com os S-400 ainda em solo nacional, testa ambos os pilares e sugere que a segurança prática pode, em determinados momentos, prevalecer sobre a pureza doutrinária.

Nesse sentido, cabe recordar a advertência clássica sobre a natureza mutável das alianças. Como observou o cientista político em análise sobre a lógica das coalizões, os Estados não possuem amigos permanentes, apenas interesses permanentes. A frase, tantas vezes atribuída a estadistas do século dezenove, encontra em Ancara uma ilustração contemporânea perfeita. O que ontem era linha vermelha intransponível, hoje se converte em detalhe administrativo a ser contornado.

Para o Ocidente, o saldo desse realinhamento permanece em aberto e comporta leituras otimistas. Uma Turquia plenamente reintegrada, com sua indústria de defesa e sua massa militar operando em sintonia com os padrões da Aliança, reforça o flanco sudeste da coalizão precisamente no momento em que a instabilidade no Oriente Médio e a assertividade russa exigem capacidade dissuasória ampliada. A aposta é de que a proximidade produza mais convergência do que autonomia indesejada.

Resta observar se o pragmatismo que hoje aproxima Washington e Ancara será capaz de sustentar uma parceria estável ou se apenas adia contradições estruturais. A relação de Erdogan com Moscou não desapareceu, e a compatibilidade entre sistemas russos e tecnologia furtiva norte-americana segue sendo um enigma técnico não resolvido. O que se anunciou em Ancara não foi o fim das tensões, mas o início de uma nova fase em que a lealdade estratégica passou a ser medida em capacidades, e não em afinidades.

A fotografia daquele aperto de mãos, portanto, deverá ser lembrada menos como um gesto de cordialidade e mais como o marco visível de uma transformação silenciosa. A ordem ocidental não está ruindo, está se reorganizando em torno de novos eixos de poder, novos protagonistas e novas prioridades. E a Turquia, que por seis anos permaneceu do lado de fora da porta, acaba de reencontrar seu lugar à mesa, disposta a barganhar cada assento com a firmeza de quem sabe que o tabuleiro mudou a seu favor.


Aprofunde seu conhecimento sobre o tema com estas recomendações selecionadas da Amazon Brasil.

Uma leitura indispensável para compreender como grandes potências equilibram interesses e valores ao longo da história. Perfeito para entender a lógica por trás de reaproximações como a de Washington e Ancara.

🛒 [CONFIRA NA AMAZON] Compre aqui

 

 

 

 

 

 

Explica como a posição geográfica molda o destino das nações, incluindo a Turquia e sua condição de ponte entre continentes. Didático e envolvente.

🛒 [CONFIRA NA AMAZON] Compre aqui

 

 

 

 

 

 

 


 

Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza

Comentários

Para comentar, faça login.

Entrar / cadastrar

Nenhum comentário publicado ainda.

Asher Comments v0.1.61 · Asher Consultoria · DIH em Foco

Acesso

Visitantes Online

Temos 468 convidados e um membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 29291

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.