
A infraestrutura que sustenta a vida digital deixou de ser apenas um conjunto de galpões com servidores e passou a funcionar como uma camada estratégica do poder contemporâneo. Datacenters concentram processamento, armazenamento, inteligência artificial, conectividade e serviços essenciais para governos, bancos, saúde, defesa, telecomunicações e logística. Em conflitos armados e em disputas híbridas a pergunta deixa de ser se essa infraestrutura será pressionada e passa a ser como ela será protegida e como ela poderá ser explorada.
O tema ganhou nova complexidade porque a própria geografia dos datacenters está mudando. Além de grandes polos em terra firme aparecem tendências de posicionamento extremo, com projetos de datacenters submersos e propostas de datacenters em órbita ou acoplados a plataformas espaciais. Essas alternativas são vendidas como eficientes, resilientes e próximas de fontes energéticas ou de necessidades operacionais. Ao mesmo tempo elas expandem o espaço de risco, deslocam custos ambientais e criam novos dilemas jurídicos para o Direito Internacional Humanitário e para o direito operacional.
O impulso é tecnológico e econômico mas é também estratégico. Treinar e operar modelos avançados de IA exige energia abundante, refrigeração eficaz, baixa latência e segurança física e cibernética. Estados e empresas procuram combinar esses fatores com estabilidade regulatória e proteção contra interrupções. Quando o ambiente geopolítico se torna mais volátil a resiliência e a dispersão geográfica viram atributos centrais. Datacenters submersos e espaciais aparecem como respostas possíveis a ameaças físicas, escassez de água, restrições urbanas e riscos de sabotagem, além de servirem como instrumentos de projeção de poder por meio da infraestrutura.
A ideia de datacenter no fundo do mar não é nova em conceito mas ficou conhecida por iniciativas experimentais e por debates de viabilidade nos últimos anos. O argumento técnico mais repetido é o da eficiência térmica. A água do mar oferece um dissipador natural de calor que pode reduzir a necessidade de sistemas convencionais de refrigeração e melhorar o desempenho por temperatura mais estável. Outra promessa é a proximidade de cabos submarinos que carregam grande parte do tráfego global. Em teoria isso diminui a latência e facilita a interconexão com rotas internacionais. Há ainda o componente de segurança por isolamento físico e por menor exposição a eventos sociais e a certos desastres em terra. Na prática o modelo traz desafios enormes de manutenção, reparo, corrosão, bioincrustação, estanqueidade, ancoragem, risco de colisão com âncoras e pesca de arrasto, além de exigências de monitoramento ambiental e de compatibilidade com regimes costeiros e com o direito do mar.
Projetos submersos tendem a operar como módulos selados, com vida útil definida e substituição periódica. Isso reduz intervenções humanas e pode aumentar a automatização de monitoramento. O design costuma depender de energia fornecida a partir de terra por cabos, ou por integração com fontes marítimas como eólica offshore, ondas e marés, ou ainda com micro redes instaladas em plataformas. A escolha do local é um equilíbrio entre profundidade e facilidade de instalação, proximidade de cabos, distância de áreas de navegação intensa e condições ambientais. Um ponto muitas vezes subestimado é que o datacenter submerso não é só um contêiner de servidores. Ele puxa junto infraestrutura de energia, conversão, redundância, segurança perimetral, comunicações e muitas vezes estruturas costeiras de apoio. O objeto final é um sistema e não um módulo isolado. Por isso o potencial de dano colateral e de efeitos indiretos deve ser analisado de forma sistêmica e não apenas pelo volume físico de aço e eletrônica.
Já o datacenter no espaço surge de outra lógica. A órbita oferece acesso a energia solar quase constante em certos regimes, temperaturas extremas que podem ser exploradas em engenharia térmica e uma possibilidade de dispersão física fora do alcance imediato de operações terrestres. A promessa é produzir processamento em órbita, sobretudo para aplicações que já nascem conectadas ao espaço como observação da Terra, comunicações, navegação e sensoriamento. Em vez de baixar volumes enormes de dados para processamento em terra, parte do processamento pode ocorrer no próprio espaço, com redução de banda e de latência para algumas missões. Isso é atraente para constelações de satélites e para aplicações de inteligência. A ideia de datacenter espacial também se conecta ao crescimento de plataformas orbitais maiores, a capacidades de manufatura em órbita e a módulos acoplados a estações espaciais comerciais. A fronteira aqui é menos a sala de servidores e mais a arquitetura de energia, radiação, proteção contra detritos e a logística de lançamento e manutenção.
Em termos de projetos e características, o datacenter espacial tende a ser modular, com computação de alta densidade em hardware especializado, forte dependência de painéis solares e baterias, e comunicação por links ópticos e rádio com estações terrestres. O ambiente impõe restrições de massa e volume, o que favorece soluções altamente otimizadas. A radiação e o risco de falhas por partículas energéticas exigem tolerância a falhas e redundância. A dissipação de calor é um problema central porque no vácuo não há convecção e o calor precisa ser radiado. Isso leva ao uso de radiadores e a layouts que maximizam área de emissão térmica. A proteção física depende de blindagem contra micrometeoritos e detritos, e de manobras de evasão. A manutenção é cara e limitada, embora robótica e serviços orbitais sejam parte do horizonte. Em contrapartida, a infraestrutura espacial pode ser desenhada para operar com menor intervenção, com substituição por novos módulos e desativação controlada.
Essas duas tendências compartilham um ponto decisivo para o direito operacional. Elas deslocam o que se entende por infraestrutura crítica para domínios onde a atribuição de incidentes é difícil, o acesso humanitário é quase inexistente e a reversibilidade de danos pode ser lenta. A interrupção de um datacenter em terra pode ser mitigada com equipes, peças e energia alternativa. No mar profundo e no espaço, a janela de reparo se alonga, o custo explode e o dano pode se tornar estrutural. Isso aumenta incentivos para ataques que busquem efeitos sistêmicos com baixo risco de engajamento direto, sobretudo em cenários de conflito abaixo do limiar e em disputas prolongadas.
Ao trazer datacenters para o mar e para o espaço se traz junto uma cadeia ampliada de dependências. O primeiro grande alvo colateral é a energia. O apetite energético da IA tornou a eletricidade o sangue do processamento. Ataques, sabotagens ou interrupções em subestações, linhas de transmissão, conversores e fontes offshore podem derrubar a capacidade de computação mesmo que os servidores estejam intactos. No caso submerso, cabos de energia e estações costeiras viram pontos críticos. No caso espacial, painéis solares, sistemas de armazenamento e controles de atitude são equivalentes funcionais. A energia também é uma ponte com a população. Quando a matriz elétrica é pressionada por demanda de datacenters, especialmente em países com rede frágil, pode haver deslocamento de oferta e aumento de custo de eletricidade para residências e serviços. Isso é um efeito indireto relevante e pode ser agravado em crises, desastres e conflitos.
O segundo alvo colateral é a água. Em terra, muitos datacenters usam água para resfriamento direto ou para torres de resfriamento associadas a chillers. Mesmo quando não usam água em contato com equipamentos, consomem água em evaporação e em sistemas de reposição. Em regiões com estresse hídrico, isso pode competir com abastecimento humano e agricultura. O tema vira ainda mais sensível em conflitos porque o acesso à água é determinante para a sobrevivência e para a saúde pública. Quando um datacenter é parte de uma cadeia que depende de água, qualquer ataque a esta cadeia pode produzir efeitos que vão além do serviço digital e atingem diretamente a população. Mesmo no modelo submerso, em que a água do mar é usada como dissipador, há infraestrutura em terra que pode usar água doce e há impactos ambientais locais que podem afetar pesca e economias costeiras. No espaço, a água é menos um insumo de refrigeração e mais um recurso logístico e de suporte em plataformas tripuladas ou híbridas, mas a ligação indireta com água em terra persiste porque o processamento espacial ainda depende de estações terrestres e destas dependem de energia e água para operar e se resfriar.
A terceira camada de alvos colaterais são as comunicações. Cabos submarinos, estações de aterragem, pontos de troca de tráfego e enlaces satelitais formam o sistema nervoso. Datacenters submersos próximos a rotas de cabo podem estar fisicamente associados a infraestruturas de cabo e repetidores. Um ataque que vise o datacenter pode danificar o cabo e vice versa. Em cenário de conflito isso não é detalhe. Cabos e estações são alvos atraentes porque podem gerar apagões de conectividade transfronteiriços e afetar serviços civis essenciais como telemedicina, bancos, controle de tráfego e logística de alimentos. Em datacenters espaciais, a dependência de estações terrestres e de links de downlink cria pontos de estrangulamento em solo. A vulnerabilidade se desloca para antenas, gateways, centros de controle e energia local. Assim, a promessa de invulnerabilidade espacial pode esconder uma fragilidade terrestre concentrada.
Essas dependências puxam o debate sobre efeitos indiretos. A população não sofre apenas quando um serviço cai. Ela sofre quando o serviço cai em cascata. Um datacenter hospeda nuvem que sustenta prontuários, agendamento de hospitais, sistemas de distribuição, pagamentos e atendimento emergencial. Uma interrupção prolongada pode travar cadeia de suprimento de medicamentos, impedir transferências de renda, interromper coordenação de abrigos e desorganizar comunicações de emergência. Em uma cidade grande, isso pode se converter em mortalidade indireta, especialmente para grupos vulneráveis. A experiência de desastres e grandes apagões mostra que o dano social cresce exponencialmente com o tempo de indisponibilidade. E em guerra, a indisponibilidade pode se somar a bloqueios físicos, escassez de combustível e restrições de movimento, tornando a recuperação muito mais difícil.
Quando o debate chega ao DIH, o ponto central é a qualificação jurídica do datacenter como objetivo militar. A regra geral é que um objeto só pode ser atacado se por sua natureza, localização, finalidade ou uso contribuir efetivamente para a ação militar e se sua destruição, captura ou neutralização oferecer vantagem militar concreta e direta. Datacenters são o exemplo contemporâneo de objeto que pode ser crucial para operações militares e ao mesmo tempo ser indispensável para a vida civil. Eles podem hospedar comunicações militares, inteligência, logística, comando e controle, processamento de imagens, coordenação de drones, e ainda assim manter e mail civil, transações bancárias, sistemas de água e energia e serviços públicos. Essa característica de uso dual torna o raciocínio operacional mais exigente porque a legalidade do ataque não nasce de uma etiqueta de propriedade, pública ou privada, mas de uma avaliação de contribuição para ação militar e de vantagem militar. E mesmo quando um datacenter é qualificado como objetivo militar permanece a obrigação de respeitar proporcionalidade e precauções, o que exige estimar danos civis diretos e também considerar danos indiretos previsíveis que podem ser relevantes, como colapso de serviços essenciais.
A legitimidade do datacenter como alvo, portanto, não depende apenas de um argumento técnico de que ele processa dados militares. Depende também de uma análise do que significa neutralizá lo e de quais meios são empregados. Um ataque físico pode causar incêndio, liberar fumaça tóxica, danificar estruturas vizinhas e gerar apagão prolongado. Um ataque cibernético pode ser reversível em horas ou pode degradar dados de forma irreparável, causando meses de desorganização administrativa. Um ataque a energia pode derrubar não só o datacenter mas hospitais e residências. A escolha do meio e do método importa e é aqui que o direito operacional se encontra com a engenharia de infraestrutura. Em muitos casos, a neutralização pode ser buscada por meios que reduzam riscos a civis, por janelas temporais, por escalonamento, por avisos quando factíveis, e por seleção de pontos menos danosos dentro do sistema. Esses são exemplos de precauções. Mas há cenários em que o atacante escolhe deliberadamente maximizar efeitos sistêmicos, mirando energia e conectividade para provocar desorganização social. Esse tipo de estratégia aproxima se de punição coletiva de fato e cria forte tensão com princípios de proteção de civis.
Em datacenters submersos, a questão do alvo assume formas específicas. O objeto físico pode estar em mar territorial, zona econômica exclusiva ou plataforma continental sob jurisdição do Estado costeiro. Em conflito internacional, operações no mar são regidas por normas próprias e por interações com o direito do mar. Se houver ataque a um módulo submerso, os efeitos podem incluir vazamentos de fluidos de refrigeração, danos a ecossistemas locais e a pesca, e risco para navegação se detritos emergirem. Mais importante ainda é que o ataque pode cruzar com cabos submarinos e com infraestrutura portuária. Cabos submarinos carregam comunicações civis e podem ter uso militar. A distinção e a proporcionalidade ficam complexas porque o mesmo cabo pode suportar serviços bancários e comunicações de comando. A previsibilidade de danos em cascata cresce porque cortar um cabo pode afetar vários países e regiões, e pode interromper coordenação humanitária. A falta de transparência sobre rotas, redundâncias e cargas dificulta avaliações. Isso cria risco de erro e aumenta a importância de inteligência e de planejamento jurídico operacional.
No caso espacial, a legitimação do alvo também é disputada por um conjunto adicional de normas e tabus estratégicos. A militarização do espaço é uma realidade há décadas, mas a intensificação de usos comerciais e civis ampliou o custo político de ações hostis. Um datacenter orbital que processe inteligência ou dados de alvo pode ser integrado a uma arquitetura militar. Ao mesmo tempo ele pode prover serviços civis vitais como meteorologia, navegação e comunicações. Ataques no espaço carregam risco de geração de detritos e de efeitos duradouros sobre todos os usuários, inclusive terceiros. O dano pode ser quase irreversível em certas órbitas congestionadas. Mesmo que um atacante argumente vantagem militar concreta, a avaliação de proporcionalidade precisa considerar o risco de detritos e a interrupção de serviços civis transnacionais. Além disso, a interdependência com estações terrestres pode levar o conflito para o solo, com ataques a gateways e centros de controle, que muitas vezes ficam próximos a áreas urbanas e podem ter conexão com redes elétricas civis.
A dinâmica de efeitos indiretos exige atenção porque a guerra moderna busca frequentemente paralisar funções, não apenas destruir forças. Datacenters são nós funcionais. Derrubá los pode reduzir capacidade do adversário de coordenar forças, mas também pode derrubar a própria capacidade de resposta civil e de proteção. Um argumento comum é que a sociedade civil do adversário participa do esforço de guerra por meio de economia digital e portanto a infraestrutura digital seria um alvo mais amplo. Esse raciocínio é perigoso porque pode diluir a distinção e transformar dependência civil em justificativa para atacar civis por via indireta. O DIH não autoriza ataques contra objetos civis apenas porque sustentam a economia. A ponte jurídica precisa ser a contribuição efetiva para ação militar e a vantagem militar concreta e direta, e ainda assim com proporcionalidade e precauções. Em ambientes em que quase tudo é digital, esse filtro precisa ser aplicado com rigor para evitar uma lógica de guerra total.
Outro aspecto de legitimação é a narrativa pública. Mesmo quando um ataque é juridicamente arguível, a legitimidade política pode ser perdida se a população sofrer colapso de água, energia, hospitais e alimentos. E a legitimidade é parte do terreno operacional. Em conflitos contemporâneos, a percepção global influencia apoio, sanções, assistência e diplomacia. Um ataque a infraestrutura digital pode parecer limpo porque não há crateras visíveis, mas os mortos indiretos por falha hospitalar, por interrupção de resfriamento de medicamentos, por falhas em ambulâncias e comunicações emergenciais podem ser tão reais quanto os mortos diretos. O desafio para planejadores e para juristas operacionais é tornar visível o invisível na análise de proporcionalidade. Isso exige modelagem, entendimento de dependências e diálogo com engenheiros e operadores de infraestrutura.
A tendência de datacenters extremos também cria zonas cinzentas sobre proteção e neutralidade. Um datacenter submerso operado por empresa privada em país neutro pode hospedar clientes militares de um beligerante. A infraestrutura pode estar fisicamente em jurisdição neutra e logicamente no coração de operações militares de um dos lados. Isso aumenta risco de violação de soberania e de expansão do conflito. Para o Estado neutro surge a obrigação prática de evitar que seu território e suas infraestruturas sejam usadas de modo que atraia hostilidades, mas sua capacidade de fiscalização pode ser limitada por sigilo comercial e por criptografia. No espaço, a natureza global e a multiplicidade de bandeiras e registros complicam ainda mais a atribuição e a responsabilização. O resultado é um ambiente em que ataques podem ocorrer com plausível negabilidade, o que incentiva escalada silenciosa.
A discussão sobre energia e água como alvos colaterais é central porque esses elementos conectam diretamente a infraestrutura digital à sobrevivência. Em termos operacionais, atacar um datacenter pode ser menos eficaz do que atacar sua energia, e atacar energia pode produzir efeitos desproporcionais. Aqui está um ponto crítico. A avaliação de um objetivo militar não pode ser feita isolando se o datacenter é militarmente útil e ignorando que o meio escolhido vai derrubar hospitais e abastecimento. A vantagem militar deve ser balanceada com o dano civil previsível. Em datacenters de IA, há também o efeito de concentração. Um único campus pode hospedar centenas de serviços e múltiplos clientes. A neutralização de um campus pode equivaler a um ataque a vários objetos funcionais ao mesmo tempo. Isso exige ainda mais cautela.
Datacenters submersos podem ser apresentados como solução ambiental por reduzir consumo de água doce e melhorar eficiência. Porém, se forem conectados a fontes offshore de energia, podem passar a depender de parques eólicos e de cabos de exportação que são por si só infraestrutura crítica. Em conflito, parques eólicos offshore, subestações marítimas e cabos tornam se pontos de vulnerabilidade. Atacar esses pontos pode afetar a rede civil. O mesmo vale para datacenters em terra conectados a usinas dedicadas. A busca por energia barata e constante pode estimular usinas próximas ou dedicadas e isso pode alterar o mapa de risco. Uma usina que antes era secundária passa a ser crítica porque sustenta nuvem de governo e serviços. E se a usina for alvo, a população paga a conta.
No espaço, a busca por energia constante pode levar a arquiteturas de coleta solar e transmissão de energia, ou a módulos de processamento fortemente integrados a sistemas de potência. Qualquer interferência nesses sistemas pode derrubar processamento e comunicações. O risco de efeitos sistêmicos pode se estender a cadeias civis de navegação e tempo. O GPS e sistemas equivalentes sustentam desde aviação até agricultura. Um conflito que atinja infraestrutura espacial pode produzir efeitos indiretos globais, inclusive em países não envolvidos, o que levanta questões de precaução e de responsabilidade política. Mesmo sem entrar em debates técnicos de cada tratado, o ponto operacional é que o espaço é um domínio em que externalidades são grandes e persistentes.
O leitor precisa perceber que a pergunta real não é se datacenters podem ser alvos, mas em que condições e com quais consequências. A modernização do conflito torna plausível que ataques busquem paralisar capacidade computacional do adversário, e a IA aumenta o valor militar de computação. Isso empurra datacenters para o centro do cálculo estratégico. Mas a mesma IA empurra também a dependência civil de datacenters. Essa convergência torna o uso dual mais intenso. Para o DIH, isso não muda princípios, mas torna sua aplicação mais difícil. Para o direito operacional, muda o planejamento, porque exige mapear dependências, prever cascatas, documentar decisões e incorporar especialistas de infraestrutura ao processo de seleção de alvos e de avaliação de danos.
Se datacenters forem tratados como alvos fáceis, a guerra tenderá a se deslocar para a infraestrutura e a população sofrerá por colapso de serviços, mesmo que não haja intenção direta de atingir civis. Se forem tratados como intocáveis, pode se criar um santuário operacional onde capacidades militares se escondem em nuvem comercial e em infraestrutura global. O equilíbrio é difícil e exige critérios, transparência interna, e um esforço real de precauções. Em termos práticos isso significa diferenciar datacenters dedicados a funções militares de datacenters generalistas, buscar neutralizações reversíveis quando possível, evitar meios que derrubem água e energia de larga escala, e considerar seriamente efeitos indiretos. Significa também reconhecer que datacenters no fundo do mar e no espaço não escapam do dilema. Eles apenas mudam o mapa de dependências e de danos.
A tendência de posicionamento extremo sugere que a competição por resiliência vai continuar. Datacenters submersos e espaciais prometem vantagens técnicas, mas também criam novos pontos de estrangulamento, como cabos de energia e de dados, gateways terrestres, cadeias de lançamento e manutenção, e dependências industriais concentradas. Em um cenário de conflito prolongado, esses pontos podem se tornar mais atraentes do que o próprio módulo de servidores. E atacar esses pontos pode ser mais destrutivo para civis do que atacar a computação em si. O risco jurídico e humanitário é que o conflito se normalize em torno de ataques a infraestrutura crítica, e que a população seja afetada por efeitos indiretos que são previsíveis, porém invisíveis no momento do ataque.
No fim, a legitimidade de tratar um datacenter como alvo vai ser testada não apenas na linguagem formal de objetivo militar, mas na capacidade de demonstrar que a escolha do alvo e do meio respeitou distinção, proporcionalidade e precauções diante de um mundo hiperconectado. Datacenters no espaço e no fundo do mar são o símbolo dessa era. Eles mostram que a guerra e a paz disputam a mesma infraestrutura, e que o custo humano pode surgir por caminhos indiretos, por falha de energia, por colapso de água, por perda de comunicações e por desorganização de serviços básicos. Para uma coluna como Em FOCO, o recado central é que a discussão não é futurista. Ela é presente. A IA acelera a militarização do processamento e acelera a civilização da dependência. Onde a computação estiver, ali estará também a pergunta sobre como proteger civis e como impedir que a infraestrutura que mantém a vida cotidiana seja tratada como um campo de batalha legitimado pela conveniência tecnológica.
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