O Gargalo dos Mercenários Internos: A Corrupção no Setor Energético da Ucrânia em plena Guerra

1 INTRODUÇÃO

A resistência ucraniana diante da invasão russa de 2022 revelou uma capacidade de mobilização social e militar que surpreendeu o mundo. Contudo, a coesão nacional que sustentou essa resiliência não está imune a fissuras profundas, dentre as quais a corrupção sistêmica emerge como ameaça existencial ao próprio Estado.

Particularmente no setor energético, a perpetuação de práticas ilícitas em pleno conflito armado evidenciou aquilo que a literatura recente denomina “mercenários internos”  agentes que, parasitando a urgência e a opacidade da economia de guerra, drenam recursos estratégicos em benefício privado.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Oecd, 2023) alerta que, mesmo sob o manto da lei marcial, as redes clientelistas se adaptaram com agilidade aos mecanismos emergenciais de contratação pública, criando zonas de impunidade que comprometem a eficiência logística e a confiança dos aliados ocidentais. Este artigo examina as raízes, os atores e os efeitos desses escândalos, apoiando-se em fontes oficiais e jornalísticas, e argumenta que o combate à corrupção interna constitui frente de batalha tão decisiva quanto a militar.

2 O ESCÂNDALO DA NAFTOGAZ E A  FIGURA DO “MERCENÁRIO INTERNO”

O episódio mais emblemático envolve a Naftogaz, estatal de petróleo e gás que administra a espinha dorsal da infraestrutura energética ucraniana. Em janeiro de 2023, Andriy Kobolyev, ex-diretor-presidente da companhia, foi formalmente acusado de desviar aproximadamente US$10 milhões por meio de esquemas de superfaturamento e bonificações ilícitas (Reuters, 2023). As investigações apontaram que, durante o período emergencial, contratos de fornecimento e distribuição de gás foram manipulados com sobrepreço, enquanto gratificações milionárias eram pagas a executivos sem a devida aprovação dos órgãos de controle, em um contexto no qual cada centavo deveria irrigar a defesa nacional e a proteção da população civil.

Huss (2024) aprofunda a análise desse e de outros casos, cunhando a expressão “mercenários internos” para designar aqueles que, travestidos de patriotas, operam como agentes parasitários do estado de guerra. A metáfora do gargalo traduz com precisão o ponto de estrangulamento que essas práticas representam: enquanto o front exige bilhões em armamentos, munições e ajuda humanitária, intermediários corruptos e gestores oportunistas desviam montantes significativos, obstruindo o fluxo de recursos que deveria alcançar a linha de frente e as cidades bombardeadas. A natureza emergencial da lei marcial, longe de suprimir tais comportamentos, forneceu-lhes novo disfarce. A concentração de poder decisório em poucos órgãos, combinada à suspensão de procedimentos licitatórios padrão em nome da celeridade, ampliou a discricionariedade e reduziu os mecanismos de transparência, gerando um ambiente propício ao abuso (Oecd, 2023).

3 RAÍZES ESTRUTURAIS E OS EFEITOS CORROSIVOS DA CORRUPÇÃO DE GUERRA

O fenômeno não é conjuntural. A corrupção no setor energético ucraniano possui raízes profundas, ancoradas em décadas de captura do Estado por grupos oligárquicos e em uma herança soviética de opacidade administrativa. As reformas implementadas após o Euromaidan de 2014 — como a criação do Escritório Nacional Anticorrupção (NABU) e da Procuradoria Especializada (SAPO) — produziram avanços inegáveis, mas se mostraram frágeis diante da brutalidade da guerra. A OECD (2023) observa que os órgãos de controle, já submetidos a pressões políticas e limitações orçamentárias, viram sua capacidade de fiscalização ainda mais reduzida pela priorização absoluta dos esforços militares. Ao mesmo tempo, a descentralização emergencial de compras e a criação de fundos extra orçamentários para a defesa abriram brechas que as redes clientelistas souberam explorar com sofisticação.

Os efeitos desses desvios transcendem a mera perda financeira. Cada dólar drenado por “mercenários internos” é um dólar que deixa de aquecer hospitais, de abastecer veículos blindados ou de reconstruir subestações elétricas destruídas por mísseis russos. A corrupção corrói ainda a coesão social: em uma nação onde cidadãos comuns entregam suas economias e suas vidas à resistência, a revelação de que elites parasitam o sacrifício coletivo alimenta o cinismo e o desalento, minando o capital moral indispensável à sustentação de uma guerra prolongada. No plano internacional, cada escândalo fortalece as vozes que, entre os doadores ocidentais, condicionam a continuidade da ajuda financeira e militar a garantias críveis de integridade  a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional têm reiterado que a assistência à Ucrânia está atrelada a marcos anticorrupção, transformando a governança em um requisito de soberania.

4 CONCLUSÃO

A experiência ucraniana demonstra que a guerra, longe de eliminar as práticas ilícitas, pode reconfigurá-las sob a capa da urgência patriótica. O combate aos “mercenários internos” que estrangulam o setor energético configura, portanto, uma frente de luta tão vital quanto os campos de batalha no leste e no sul do país. Sem reformas institucionais robustas — como as preconizadas pela OECD (2023), que incluem o fortalecimento da justiça especializada, a digitalização transparente das compras emergenciais e a despolitização dos órgãos de controle, a Ucrânia permanecerá vulnerável não apenas às ameaças externas, mas à ação de seus próprios algozes fantasiados de patriotas.

A metáfora do gargalo resume o dilema: um Estado que depende de volumosos fluxos de ajuda externa e de uma mobilização interna sem precedentes não pode permitir que seus recursos vitais sejam drenados por aqueles que deveriam protegê-los. Essa realidade não é exclusiva do Leste Europeu. Em diferentes latitudes, inclusive na América Latina, escândalos de corrupção em setores estratégicos revelam que o fenômeno do parasitismo interno não obedece a fronteiras geográficas nem a estágios de desenvolvimento econômico; ele encontra terreno fértil onde a concentração de poder e a fragilidade dos freios institucionais coincidem com momentos de exceção. A lição ucraniana, nesse sentido, transcende seu contexto imediato: a vigilância constante e uma vontade política inabalável são os únicos antídotos contra aqueles que, em meio ao fragor da guerra, optam por saquear o próprio país que juram defender.


REFERÊNCIAS

HUSS, O. Corruption in Ukraine’s wartime energy sector. Basel: Basel Institute on Governance, 2024. Disponível em: https://baselgovernance.org/publications/progress-ukraines-anti-corruption-and-judicial-reform-efforts-update-ukraine-recovery. Acesso em: 1 jun. 2026.

OECD. Anti-Corruption Reforms in Ukraine: Update 2023. Paris: OECD Publishing, 2023. Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2022/05/anti-corruption-reforms-in-ukraine_858c915e/b1901b8c-en.pdf. Acesso em: 1 jun. 2026.

REUTERS. Ukraine’s Naftogaz ex-CEO suspected of embezzling $10 million. Reuters, London, 24 jan. 2023. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/ukraine-prosecutors-seek-detain-top-manager-closely-watched-graft-case-2023-03-10/. Acesso em: 1 jun. 2026.

OECD. Anti-Corruption Reforms in Ukraine: Update 2023. Paris: OECD Publishing, 2023. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2022/05/anti-corruption-reforms-in-ukraine_858c915e/b1901b8c-en.pdf&ved=2ahUKEwjSxdKmq-WUAxWwpJUCHYJiKugQFnoECHsQAQ&usg=AOvVaw2y0BtdkgBP1BfKr2rTnYw0. Acesso em: 1 jun. 2026.

REUTERS. Ukraine’s Naftogaz ex-CEO suspected of embezzling $10 million. Reuters, London, 24 jan. 2023. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/ukraine-prosecutors-seek-detain-top-manager-closely-watched-graft-case-2023-03-10/. Acesso em: 1 jun. 2026.


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Prof. Me. Carlos Luiz Dias
Sobre o autor
Prof. Me. Carlos Luiz Dias
Professor

Engenheiro de Produção (UNIAN) e Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO). Tutor acadêmico do projeto FCMAT-DV (Ferramentas Computacionais para o Ensino de Matemática a Alunos com Deficiência Visual) no NCE/Instituto Tércio Pacitti — UFRJ. Atua como Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ) e integra o Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ITC/ESG/MD). Agente da Superintendência de Inteligência do GSI-RJ(Operação Foco de Divisas) e membro da Comunidade de Inteligência do Comando Militar do Leste (SIEX/CML). Diretor de Comunicação Social da ADESG-Nacional e do CVMARJ. Sócio-fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH-BRASIL) e empresário no setor de Engenharia de Telecomunicações. Pesquisador nos grupos Observatório de Segurança e Defesa e Geopolítica do Brasil (ITC/ESG/MD), dedicados à gestão da Defesa e à posição geopolítica brasileira na ordem mundial contemporânea. Integra ainda a Rede ATHENAS do NEE/CML e o Grupo de Estudos e Planejamento Estratégico do Exército (GPEEx). Colunista dos portais Defesa em Foco e DIH em Foco.

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