Há uma nova palavra circulando entre analistas de inteligência e pesquisadores de segurança. Ela soa quase como brincadeira, mas descreve algo profundamente sério. A palavra é slopaganda, fusão do termo inglês "slop", que significa lixo digital de baixa qualidade produzido em massa por inteligência artificial, com a velha e conhecida propaganda. O resultado é uma das armas mais sofisticadas e perigosas do nosso tempo.
A slopaganda nada mais é do que a produção industrial de conteúdo falso gerado por inteligência artificial com objetivo político e militar. São vídeos, áudios, imagens e textos fabricados aos milhares, despejados nas redes sociais para confundir, manipular e exaurir a percepção de populações inteiras. Não se trata de um único deepfake bem produzido, mas de uma enxurrada constante de mentiras descartáveis.
O fenômeno ganhou força explosiva nos últimos meses. Durante o confronto direto entre Irã, Estados Unidos e Israel, o mundo assistiu a algo inédito. Disputas militares reais passaram a ser retratadas como desenhos animados, vídeos satíricos e cenas inteiramente fictícias criadas por inteligência artificial em questão de minutos.
Surgiram nas redes ataques que jamais aconteceram, cidades inimigas em chamas que nunca arderam e líderes ocidentais ridicularizados em montagens grotescas. O objetivo era claro. Projetar uma sensação de força, controle e vitória que muitas vezes não correspondia em nada à realidade do campo de batalha.
Quando a mentira deixa de querer convencer
Aqui está o ponto mais perturbador e mais importante para entender a slopaganda. O objetivo dela frequentemente não é fazer você acreditar em algo específico. O objetivo é fazer você não acreditar em mais nada.
A pesquisadora Cristina Tardáguila, da Agência Lupa, observou algo revelador. A imensa maioria das peças analisadas por verificadores recebe a etiqueta de falso ou enganoso. A inteligência artificial dificilmente tem sido usada para impulsionar conteúdo verdadeiro. Ela serve quase sempre para envenenar o poço.
Levantamento da própria Lupa, feito a partir de 1.294 checagens em pelo menos dez idiomas, chegou a um dado assustador. Cerca de 81% dos casos de desinformação com inteligência artificial surgiram apenas entre janeiro de 2024 e março de 2026. Estamos falando de um fenômeno que praticamente nasceu ontem e já domina o ambiente informacional global.
Eleições, guerras e golpes foram os assuntos mais recorrentes nessas peças fabricadas. Não por acaso. São exatamente os momentos em que uma população desorientada e desconfiada se torna mais manipulável e mais facilmente conduzida a decisões contra os próprios interesses.
A mente como sexto campo de batalha
Especialistas em segurança internacional já tratam o domínio cognitivo como um novo espaço operacional da guerra. Ele se soma à terra, ao mar, ao ar, ao espaço e ao ciberespaço. A diferença fundamental está em seu alvo.
A guerra cognitiva não busca destruir pontes, tomar territórios ou afundar navios. Ela busca controlar percepções e decisões. O campo de batalha passa a ser a mente humana, e a vitória se mede pela capacidade de moldar a narrativa dominante de um conflito ou de uma crise.
Lorenza Pigozzi, executiva do grupo italiano Fincantieri, descreveu bem esse cenário. A conquista da chamada supremacia narrativa pode se tornar tão decisiva quanto a conquista de um território físico. Quem controla a história que as pessoas contam a si mesmas controla, em larga medida, o comportamento dessas pessoas.
As ameaças se infiltram lentamente nas narrativas públicas. Elas atuam aos poucos, alterando a forma como a opinião pública interpreta os acontecimentos. Quando a sociedade percebe que foi manipulada, se é que percebe, o estrago já está feito e as decisões já foram tomadas.
A origem do método e quem o aperfeiçoou
É importante registrar quem desenvolveu e industrializou essas técnicas. A empresa Sensity AI, especializada em detecção de mídias sintéticas, mapeou o que chamou de Cadeia de Morte Narrativa. Trata-se de uma sequência modular e repetível de conteúdos falsos projetados para produzir efeitos psicológicos previsíveis.
Segundo essa análise, a industrialização da mídia gerada por inteligência artificial como arma psicológica foi desenvolvida e aperfeiçoada pela Rússia ao longo dos quatro anos de conflito na Ucrânia. O Irã, mais recentemente, passou a replicar o mesmo arcabouço de ataque no Oriente Médio.
O alvo dessas operações russas foi cuidadosamente segmentado. Soldados ucranianos na linha de frente, civis ucranianos e o público ocidental como um todo. A intenção declarada era estimular o desengajamento por meio de fadiga emocional sistemática. Cansar as pessoas até que elas desistissem de resistir ou de apoiar a resistência.
Moscou recorreu à tecnologia para fabricar vídeos de falsas rendições, derrotas inventadas e cenas que minavam o moral de quem defendia seu próprio país. A Alta Representante europeia Kaja Kallas foi categórica ao afirmar que a inteligência artificial avançou enormemente a guerra cognitiva russa, a ponto de os vídeos falsos terem se tornado a nova norma.
O paradoxo que ameaça as democracias
Kaja Kallas formulou uma frase que merece reflexão. É tentador pensar que quanto mais livremente a informação flui, mais forte se torna a sociedade. Esse é o maior paradoxo do nosso tempo. À medida que o espaço informacional se expande, a verdade desaparece.
Kallas lembrou ainda um episódio concreto. Sem os mecanismos constitucionais de freios e contrapesos da Romênia, a interferência de Moscou teria, segundo ela, vencido as eleições romenas de 2024. A guerra cognitiva já não é hipótese acadêmica. Ela já alterou resultados eleitorais no continente europeu.
Há aqui uma questão que precisa ser dita com franqueza. Boa parte do espaço informacional global está hoje nas mãos de grandes plataformas controladas por empresas americanas e chinesas. Confiar a saúde de nossos espaços democráticos a esses atores privados é uma aposta de altíssimo risco que poucos governos souberam enfrentar.
As próprias plataformas recuaram em seus compromissos. Empresas como Meta e X abandonaram sistemas profissionais de verificação de fatos em favor de notas escritas pelos próprios usuários. O resultado é um ambiente com pouquíssimas barreiras de proteção, justamente quando as ferramentas de manipulação ficaram mais baratas e mais poderosas.
O caso que mostra o tamanho do perigo
Nos Estados Unidos, às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro de 2026, um episódio acendeu o alerta. O braço de campanha do Partido Republicano no Senado divulgou um anúncio gerado por inteligência artificial. Nele, um candidato democrata aparecia recitando frases polêmicas com aparência e voz absolutamente realistas.
O candidato jamais gravou aquele vídeo. A indicação de que o material era gerado por inteligência artificial aparecia em uma fonte minúscula, quase invisível, no canto inferior da tela. A peça foi introduzida num cenário sem qualquer regulação federal sobre o uso de inteligência artificial em mensagens políticas.
No Reino Unido, uma pesquisa do instituto Demos revelou que cerca de 30% dos eleitores viram algum deepfake de políticos no mês anterior às eleições locais. São aproximadamente 16,5 milhões de adultos expostos a manipulação em poucas semanas. Especialistas falaram abertamente em emergência democrática.
Esses exemplos demonstram algo que vale sublinhar. A slopaganda não é uma ameaça distante que afeta apenas regimes autoritários ou países em guerra declarada. Ela já opera no coração das democracias ocidentais mais sólidas e mais bem estruturadas do planeta.
E o Brasil nessa história
A Agência Brasileira de Inteligência, a ABIN, publicou seu documento Desafios de Inteligência para 2026. Entre os cinco grandes desafios listados estão dois que dialogam diretamente com tudo o que vimos aqui. A segurança do processo eleitoral e a interferência externa promovida por atores não estatais.
O documento ainda aponta para os ataques cibernéticos autônomos conduzidos por agentes de inteligência artificial. Em outras palavras, o próprio Estado brasileiro reconhece de forma oficial que a guerra cognitiva e a desinformação automatizada são riscos concretos à segurança nacional no ano que se inicia.
O Brasil possui um eleitorado enorme, profundamente conectado e fortemente dependente de redes sociais e aplicativos de mensagens para se informar. Esse perfil nos torna um alvo especialmente atraente para operações de manipulação cognitiva, sejam elas domésticas ou de origem externa.
A pergunta que fica é incômoda. Estamos preparados para distinguir o verdadeiro do falso quando a mentira chega em escala industrial, com rosto, voz e movimento idênticos aos reais? A resposta honesta, hoje, é que ainda não estamos.
O que podemos fazer
Diante de um inimigo que ataca a percepção, a defesa precisa começar pela educação. O Fórum Econômico Mundial colocou a desinformação entre os principais riscos globais de curto e de longo prazo. E apontou três frentes de proteção que merecem nossa atenção.
A primeira é investir em sistemas robustos de verificação capazes de identificar mídias sintéticas com rapidez. A segunda é a educação proativa da população, formando cidadãos capazes de desconfiar e checar antes de compartilhar. A terceira são marcos regulatórios que responsabilizem quem fabrica e quem distribui mentiras em escala.
Existe, porém, uma defesa que não depende de governo nem de plataforma. Ela depende de cada um de nós. A pausa antes do clique. A desconfiança diante daquilo que provoca raiva, medo ou euforia instantânea. A pergunta simples sobre quem ganha com aquela informação chegando até nós naquele exato momento.
A slopaganda aposta na nossa pressa e na nossa emoção. Ela vence quando reagimos antes de pensar. Por isso, o ato mais revolucionário e mais defensivo do nosso tempo talvez seja recuperar a velha capacidade de parar, respirar e refletir antes de aceitar como verdade aquilo que cai diante de nossos olhos.
A guerra cognitiva já começou. Ela não usa tanques nem mísseis. Usa telas, algoritmos e mentiras fabricadas em massa. E o território que ela disputa, todos os dias, é o mais valioso de todos. A sua mente, a minha e a de toda a nossa sociedade.
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Nos últimos 100 mil anos, nós acumulamos um imenso poder. No entanto, mesmo com todas as nossas descobertas e conquistas, estamos diante de uma crise sem precedentes, com um colapso ambiental iminente e desinformação correndo solta. A chegada da era da inteligência artificial também representa um perigo para nós. Afinal, por que somos tão autodestrutivos apesar de tudo o que conquistamos?
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