A Modularidade do Poder: Como os SMRs Nucleares Redefinem o Tabuleiro Estratégico, a Sustentabilidade e a Segurança Tecnológica na Era Digital

1 INTRODUÇÃO

A busca global por transição energética e segurança nacional reposicionou a energia nuclear no centro dos debates políticos internacionais. Diante do custo astronômico e da rigidez das usinas nucleares tradicionais, os Pequenos Reatores Modulares (SMRs) surgem como uma força disruptiva (1, 12). Longe de serem apenas inovações técnicas, essas estruturas compactas alteram as dinâmicas de poder. Este trabalho analisa como a chegada dos SMRs redefine a soberania energética de nações vulneráveis, cria uma nova corrida de soft power entre superpotências (Eixo Ocidental versus Eixo Russo-Chinês) e atende à pressão sem precedentes do setor tecnológico privado (movido pela Inteligência Artificial) por energia limpa e ininterrupta.

Fonte: IAEA, Disponível em: https://www.iaea.org/topics/small-modular-reactors. 

2 - DISCUSSÃO INTEGRADA

2.1 Descentralização de Grids Locais e Resiliência contra Monopólios Energéticos

A análise cruzada dos dados de relatórios internacionais (1, 13) e dos documentos de formulação de políticas públicas de defesa e energia (3, 16) evidencia que os Pequenos Reatores Modulares (SMRs) fraturam o antigo modelo de dependência energética monopolista. Na dimensão micro desta investigação, correspondente à descentralização de grids locais, o mapeamento do estágio de maturidade técnica revela que essas tecnologias rompem com a rigidez das grandes centrais nucleares tradicionais. Ao permitirem a instalação de módulos compactos próximos a centros de demanda crítica como complexos industriais e data centers de big techs, os SMRs reduzem a vulnerabilidade de nações a pressões políticas estrangeiras exercidas por meio do corte estratégico ou volatilidade de preços de combustíveis fósseis.

2.2 Geopolítica da Expansão Nuclear: O Pioneirismo Prático do Bloco Russo-Chinês

No nível macro, focado na diplomacia global, o confronto documental das estratégias das superpotências expõe uma nova vertente de competição geopolítica fundamentada na exportação de pacotes tecnológicos fechados. A aplicação dos critérios de prontidão comercial e de licenciamento monitorados pela Agência para a Energia Nuclear (NEA) em seu painel global (SMR Dashboard) permite contrastar os diferentes ritmos de inserção de mercado das principais tecnologias ativas entre 2024 e 2026 (14).

O pragmatismo estatal do bloco asiático e russo consolidou vantagens de pioneirismo prático. A Rússia desponta com a Akademik Lomonosov, uma plataforma flutuante equipada com dois SMRs derivados de propulsão naval, classificada internacionalmente como uma FNPP (Floating Nuclear Power Plant) (15), enquanto a China avança na operação on-grid com o Linglong One (ACP100), desenvolvido pela China National Nuclear Corporation (CNNC) (4, 17). Os dados compilados indicam que ambas as nações utilizam o financiamento estatal direto e a modalidade de entrega turn-key (prontos para operação) de forma estratégica para consolidar alianças de longo prazo e dependência tecnológica no Sul Global.

2.3 A Contraofensiva Ocidental: Consórcios Público-Privados e Flexibilização Regulatória

Em contrapartida, a análise dos atos normativos do bloco ocidental, como os programas de fomento do Departamento de Energia (DOE) dos EUA (16) e as diretrizes de aliança industrial da Comissão Europeia (7), revela um esforço para acelerar consórcios público-privados e desregulamentar processos burocráticos de licenciamento. O objetivo político é mitigar os gargalos financeiros e os atrasos de cronograma típicos do modelo privado ocidental frente à concorrência assimétrica das corporações estatais verticalizadas da China e da Rússia.

Fonte : próprio autor com auxilio de IA a partir do prompt: mapa do globo dos países com desenvolvimento voltado para SMRs atualizado segundo a NEA.

2.4 Desafios de Governança Global: Salvaguardas, Não Proliferação e Logística Reversa

Contudo, a categorização dos impactos globais desta pesquisa indica que a proliferação capilarizada dessas unidades compactas impõe desafios humanos e jurídicos complexos à governança regulatória internacional. O cruzamento das diretrizes de segurança da AIEA, como a norma de projeto de instalações do ciclo do combustível (11) e o relatório técnico focado em estratégias de descomissionamento desde a fase de design (10), reforça que a dispersão geográfica de reatores exige uma reformulação urgente nos tratados de não proliferação (5), nas salvaguardas locais e nos protocolos de logística reversa e controle de rejeitos radioativos, redefinindo as fronteiras entre a soberania nacional e a segurança global.

3 CONCLUSÃO

A chegada dos SMRs ao cenário político marca a transição de uma era de "megaprojetos estatais" para uma era de "energia modular ágil". O impacto vai muito além da descarbonização: redefine quem detém a autonomia tecnológica e a estabilidade econômica no século XXI. Conclui-se que os países que liderarem a padronização regulatória e a produção em massa dessas unidades não apenas garantirão sua própria resiliência interna, mas desenharão as regras da diplomacia energética global pelas próximas décadas.

Diante de um cenário onde o Ocidente busca alternativas competitivas que não dependam da China ou da Rússia, e necessita de cadeias de suprimentos resilientes (NEA), o Brasil deixa de ser um mero espectador. Como o país possui grandes reservas de urânio e domina de ponta a ponta as etapas técnicas do ciclo do combustível nuclear através das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), além de possuir um órgão regulador independente recém-criado, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), essa conjuntura internacional empurra o Brasil para o papel de parceiro estratégico global chave.

O planejamento nacional de longo prazo (PNE-2050 e EPE) já vislumbra essa previsibilidade, capacitando o país a fornecer segurança de combustível e atrair consórcios de SMRs para alimentar seu próprio polo industrial e tecnológico em expansão. O impacto dessa informação é consolidar que os SMRs deixaram de ser um projeto técnico de engenheiros nucleares e se tornaram o vetor central da soberania nacional, da transição climática e da liderança tecnológica na Era Digital.


REFERÊNCIAS

[1] -  AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA (AIEA). Advances in Small Modular Reactor Technology Developments. Viena: IAEA, 2024. Disponível em: https://www.iaea.org. Acesso em: 29 jun. 2026.

[2] - BRASIL. Lei nº 14.222, de 15 de outubro de 2021. Cria a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN); altera as Leis nos 4.118, de 27 de agosto de 1962, 10.308, de 20 de novembro de 2001, e 13.844, de 18 de junho de 2019. Diário Oficial da União: Seção 1, Brasília, DF, p. 4, 18 out. 2021. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14222.htm. Acesso em: 29 jun. 2026.

[3] - BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Empresa de Pesquisa Engenharia. Plano Nacional de Energia 2050. Brasília, DF: MME/EPE, 2020. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-227/topico-563/Relatorio%20Final%20do%20PNE%202050.pdf. Acesso em: 29 jun. 2026.

[4] - CHINA NATIONAL NUCLEAR CORPORATION (CNNC). Linglong One (ACP100): High-inherent safety multipurpose Small Modular Reactor deployment. Hainan: CNNC, 2025. (Dados complementados pelo IAEA PRIS - Power Reactor Information System, 2026).

[5] - COCHRAN, Thomas B.; TSIPIS, Kosta. The Nuclear Fuel Cycle: From Ore to Waste. 2. ed. New York: Springer, 2021.

[6] - EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Plano Nacional de Energia 2050 (PNE 2050). Brasília: MME/EPE, 2020. Disponível em: https://www.epe.gov.br. Acesso em: 29 jun. 2026.

[7] - EUROPEAN COMMISSION. Strategy for the development and deployment of Small Modular Reactors (SMRs) in Europe. COM/2026/117. Brussels: European Commission, 2026. Disponível em: https://single-market-economy.ec.europa.eu. Acesso em: 29 jun. 2026.

[8] - INDÚSTRIAS NUCLEARES DO BRASIL (INB). Ciclo do Combustível Nuclear. Rio de Janeiro: INB, [202-?]. Disponível em: https://www.inb.gov.br/Nossas-Atividades/Ciclo-do-combustivel-nuclear. Acesso em: 29 jun. 2026.

[9] - INDÚSTRIAS NUCLEARES DO BRASIL (INB). Relatório de Sustentabilidade e Atividades. Rio de Janeiro: INB, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inb/pt-br/acesso-a-informacao/auditorias/relatorio-de-gestao-e-atividades. Acesso em: 29 jun. 2026.

[10] - INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA). Considerations on Decommissioning in the Design of Small Modular Reactors. Vienna: IAEA, 2026. (Technical Reports Series, n. 499). Disponível em: https://www.iaea.org/publications. Acesso em: 29 jun. 2026.

[11] - INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA). Nuclear Fuel Cycle Facilities: Design and Construction. Vienna: IAEA, 2022. (IAEA Safety Standards Series, n. SSG-74). Disponível em: https://www.iaea.org/publications/14741/nuclear-fuel-cycle-facilities. Acesso em: 29 jun. 2026.

[12] - INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA). Small Modular Reactors: Advances in SMR Developments 2024. Vienna: IAEA, 2024. (Non-serial Publications). DOI: 10.61092/iaea.3o4h-svum. Disponível em: https://www.iaea.org/publications/15790/small-modular-reactors-advances-in-smr-developments-2024. Acesso em: 29 jun. 2026.

[13] - NUCLEAR ENERGY AGENCY (NEA); INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA). Uranium 2024: Resources, Production and Demand. Paris: OECD Publishing, 2025. Disponível em: https://www.oecd-nea.org/jcms/pl_89024/uranium-2024-resources-production-and-demand. Acesso em: 29 jun. 2026.

[14] - ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Nuclear Energy Agency (NEA). The NEA Small Modular Reactor Dashboard: Second Edition. Paris: OECD Publishing, 2024. Disponível em: https://www.oecd-nea.org/jcms/pl_89032/the-nea-small-modular-reactor-dashboard-second-edition. Acesso em: 29 jun. 2026.

[15] - ROSATOM (State Atomic Energy Corporation). Rosatom SMR Solutions: RITM-200 and Floating Nuclear Power Plants (FNPP) strategic deployment. Moscow: Rosatom Overseas, 2024. Disponível em: https://fnpp.info. Acesso em: 29 jun. 2026.

[16] - UNITED STATES. Department of Energy (DOE). Generation III+ Small Modular Reactor Pathway to Deployment Program. Washington, DC: DOE, 2025. Disponível em: https://www.energy.gov/ne/generation-iii-small-modular-reactor-program. Acesso em: 29 jun. 2026.

[17] - WORLD NUCLEAR ASSOCIATION (WNA). Nuclear Power in China: Small Modular Reactors (ACP100). London: WNA, 2026. Disponível em: https://world-nuclear.org/information-library/country-profiles/countries-a-f/china-nuclear-power.aspx. Acesso em: 29 jun. 2026.

Gleyson T. Santos
Sobre o autor
Gleyson T. Santos
Especialista em Radioproteção e segurança de fontes radioativas

Especialista em Radioproteção e Segurança de Fontes Radioativas. Doutorando em Metrologia, Qualidade e Tecnologia pelo INMETRO; Mestre pelo IRD/CNEN, instituição de referência nacional em proteção radiológica que promove o uso seguro das atividades potencialmente expositoras às radiações ionizantes. Profissional com 4 anos de experiência em projetos de transição energética com foco em segurança nuclear e radioproteção; atuação em pesquisa e desenvolvimento de pequenos reatores modulares (SMRs), análise de cenários nacionais e internacionais, observância às recomendações da AIEA e da CNEN, avaliação de novas tecnologias e aplicação de inteligência artificial. Participou de congressos internacionais com publicações e apresentações orais; experiência sólida em proteção radiológica e segurança de fontes radioativas. Graduado como Tecnólogo em Processamento de Dados e Tecnólogo em Radiologia, com diversos cursos de capacitação; profissional e empresário com mais de 30 anos de atuação na iniciativa privada (bancos, multinacionais e indústrias).

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